Em busca do pensamento livre.

Domingo, 05.02.17

 

 

 

"(...)Pior do que a crueldade, sempre gratuita, é esta indiferença perante a crueldade. As pessoas que resolvem olhar para o lado, fugir com o rabo à seringa, pretendendo não ver. As pessoas que têm horror da resistência. Os facilitadores. Os cúmplices. Os assalariados. Os corrompidos. Os cobardes. Os amorais. Os neutros.

O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de "O Aprendiz" ou os primeiros debates contra os republicanos, quando ele não esperava ganhar.(...)"

 

Clara Ferreira Alves (2017.02.04:03)

Revista do Expresso



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Sexta-feira, 15.04.16

 

 

 

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Manuel António Pina

 

também aqui - Setembro de 2011

 

 

"Muitos criticavam o presidente da República (PR) por não dizer nada sobre os buracos postos a descoberto nas contas da Madeira, agravando os défices de 2008, 2009 e 2010 e a factura dos "sacrifícios" impostos aos portugueses (o PR aparentava ser o único português sem coisa nenhuma a dizer sobre o assunto).

O caso afigurava-se ainda mais estranho considerando o memorável dia em que o PR interrompeu umas merecidas férias no Algarve para falar ao país do ingente problema de um artigo do Estatuto dos Açores.

Afinal, o PR só aguardava o momento propício para dizer de sua justiça. E o momento chegou ontem (nos Açores, onde haveria de ser?). O país ficou a saber o que o PR pensa não só sobre a Madeira mas também sobre os demais problemas que afligem os portugueses e mantêm o país em estado de alerta laranja: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante".

Trata-se de uma tomada de posição enigmática mas que, devidamente decifrada, decerto tranquilizará os portugueses: quem sabe se "vacas" não será uma metáfora de "mercados" e se o "pasto que começava a ficar verdejante" não significará a diminuição do défice ou que o ministro Álvaro irá finalmente aparecer numa manhã de nevoeiro?

Ganha assim sentido o misterioso conceito de "magistratura activa" que Cavaco não se cansou de prometer aos portugueses durante a sua campanha eleitoral."



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Quinta-feira, 14.04.16

 

 

 

11,5 milhões de documentos expõem corrupção global

 

 

Cortesia do António Ferreira.



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Sábado, 09.04.16

 

 

 

Nota-se a frustração portuguesa com os primeiros dados do "Panamá Leaks". Há alternativas para que não se elimine a vontade de um mundo melhor? Claro que haverá. É muito interessante o exemplo relatado hoje na revista do Expresso.

 

 

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"OS JORNALISTAS VÃO GASTAR MESES E ANOS A TRATAR DADOS ENCRIPTADOS DE QUE NINGUÉM, DAQUI A UNS DIAS, QUERERÁ SABER EXCETO SE FOREM CARAS CONHECIDAS. OS PEIXES GORDOS SOBREVIVERÃO
 
Nunca ninguém ouviu falar de Crickhowell. É uma cidade do País de Gales que fica à beira de uma das autoestradas do Reino Unido. O nome em galês foi traduzido para inglês para não tornar a cidade impronunciável. Tem um castelo, duas escolas, uma biblioteca, igrejas e hotéis, uma rua principal com lojas, cafés, pubs, restaurantes. Os hotéis explicam-se pela popularidade de Crickhowell com os amantes da natureza. Campismo, caravanismo, montanhismo. Os estabelecimentos comerciais são quase todos negócios familiares, alinhados nas ruas e calçadas do centro da cidade. Nunca ninguém ouviu falar de Crickhowell até Steven Lewis, dono de um café e restaurante, se irritar. O senhor Lewis é um militar durão, reformado, que resolveu revoltar-se, juntamente com os outros comerciantes da cidade, contra o sistema de impostos. A cidade nunca aceitou a vinda das multinacionais e não tem um Starbucks. Ou qualquer uma das cadeias gigantes de retalho. O senhor Lewis descobriu que tinha pago 21% de IRC no último ano, equivalente a 31 mil libras, 38.500 euros. E que a multinacional Facebook tinha pago, no mesmo ano, 4327 libras, 5380 euros. Exatamente. Um sétimo das taxas de Mr. Lewis. Um montante inferior ao IRS de um contribuinte inglês médio. Os comerciantes de Crickhowell descobriram o que todos sabiam ou deviam saber, que todos sabemos ou devemos saber. Que os ricos, sobretudo as grandes corporações, não pagam impostos. Google, Facebook, Apple, Starbucks, muitos outros, não precisam de usar os expedientes de firmas como a Mossack Fonseca, basta instalarem-se, através de um sistema multiplicador de evasões perfeitamente legais desenhadas por grandes e respeitáveis escritórios de advogados, em território europeu. Na Irlanda, na Holanda, no Luxemburgo, entre outros. Países que funcionam como offshores numa escala superior ao Mónaco, a Malta ou Jersey. Os sistemas fiscais europeus autorizam estas manobras, encorajadas e toleradas por governos democráticos. Parte da ‘recuperação’ irlandesa tem que ver com a sua capacidade para funcionar como sede fiscal e mecânica das multinacionais tecnológicas. Steven Lewis, com a sua experiência militar na Irlanda do Norte e no Médio Oriente, resolveu arregimentar os comerciantes de Crickhowell e marchar contra o ‘inimigo’. O Governo britânico. Resolveu replicar a manobra e tentar que a cidade pagasse impostos, como um coletivo, num paraíso fiscal. O Governo disse não, porque as cidades, ao contrário das empresas, não podem registar-se offshore. A cidade queria ter os mesmos direitos das empresas. Steven Lewis não desistiu e afirmou em público que enfrentaria o Governo com as táticas que aprendera a usar contra o terrorismo. “Vamos à jugular”, disse. “E vamos ser brutais”. Numa estimativa baixa, os impostos sonegados às autoridades fiscais do Reino Unido devem andar pelos 3,8 biliões em 2014. E os impostos das corporações são mais baixos do que nos Estados Unidos. Um padeiro de Crickhowell descobriu que tinha pago mais impostos do que o Facebook. E não tem dinheiro para expandir o negócio, ao contrário das multinacionais. Os habitantes de Crickhowell tornaram-se peritos em táticas de evasão fiscal. Têm autocolantes nas janelas que dizem Fair Tax Town, e continuam a reivindicar pagar impostos offshore e coletivamente. Mais 27 cidades aderiram à iniciativa. Steven Lewis quer ainda um sistema de rating por estrelas para acusar as corporações que pagaram menos impostos, e toda a gente ficar a saber. Transparência, fim do segredo.
Esta forma de luta, ou os tachos e os iogurtes e bananas atirados contra o Parlamento da Islândia, são tanto ou mais eficazes como a publicação dos “Panama Papers”. Os jornalistas vão gastar meses e anos a tratar dados encriptados de que ninguém, daqui a uns dias, quererá saber exceto se forem caras conhecidas. Os peixes gordos sobreviverão. As várias firmas Mossacks Fonsecas, saídas de um livro de John Grisham, continuarão. Os governos que deixam que o Facebook pague impostos ridículos ficarão. E Londres foi comprada pelos mesmos plutocratas. Daqui a uns dias, a frívola atenção das massas esmorece, por excesso de informação. E arranja outro tema. Arranja sempre. Lembram-se do “pequeno Aylan”?"

 



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Segunda-feira, 14.12.15

 

 

 

O "excesso" de meritocracia, ou a meritocracia insensata e mergulhada no capitalismo selvagem, elimina a meritocracia como alicerce das sociedades democráticas do nosso tempo. É uma conclusão que vai ganhando força e que não é contraditória. E depois existe uma questão antiga que Michael J. Sandel (leio que é "o maior filósofo vivo), em "O que o dinheiro não pode comprar", sintetiza de forma simples e bem actual: "há valores que o mercado diminui ou perverte".

 

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Terça-feira, 01.09.15

 

 

 

Há quem diga que os refugiados sírios ou líbios teriam a vida mais facilitada se miassem ou ladrassem. Não há muito pensei o mesmo sobre os gregos. João Miguel Tavares tem um texto muito interessante, hoje no Público, com uma passagem lapidar: "(...)É pena os refugiados sírios ou líbios não ladrarem ou miarem em vez de falarem línguas incompreensíveis, porque aí teriam um partido português a defendê-los e uma longa lista de abaixo-assinados prontos a reclamar pelos seus direitos. Se eu fosse refugiado e quisesse chamar a atenção, acho que ladrava em vez de falar, até porque o que não falta nas Avenidas Novas, onde toda esta cena se passou, são clínicas veterinárias impecáveis, algumas das quais abertas 24 horas por dia.(...)"

 

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Quinta-feira, 02.07.15

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 26.06.15

 

 

 

 

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"Foram 15 dias a sulcar o Atlântico no Niassa. Perto da casa das máquinas. Em beliches coberto por números mecanográficos de soldados embarcados em viagens anteriores. De Luanda para Lourenço Marques, a viagem fez-se num B 747 da TAP. Contudo, a verdadeira experiência africana foram esses meses de agosto e setembro de 1973, em Moçambique. Uma conjugação improvável colocou um estudante liceal de 15 anos perante a possibilidade de fazer uma viagem de estudo aos últimos meses do Império, nesse longínquo país de geografia feminina, encostado ao Índico. Apesar da escolta militar que acompanhou o nosso grupo de nove estudantes, na visita ao Parque Nacional de Gorongosa, nessa altura transbordante de elefantes, leões e hipopótamos, a guerra parecia distante e localizada, embora omnipresente, nas conversas e silêncios. Recordo o voo em torno do sistema defensivo de Cahora Bassa, e a malha de túneis para aprisionar o Zambeze. A ousadia da traça urbana de Lourenço Marques. A intensidade económica de Nacala (onde li as notícias do derrube de Allende através de um artigo de Dutra Faria) e o fervilhar da Beira. O grande quartel chamado Nampula. A monumentalidade nostálgica da Ilha de Moçambique. Uma conversa sobre teologia numa mesquita de Quelimane. As noites nas praias, nadando para lá das redes dos tubarões. Em Moçambique, o espaço entre as pessoas era maior. Na altura não o sabia, mas as conversas traiam a perda das convicções que mantêm os regimes coesos. Numa mesa, onde chegava o som do mar, um alferes, a recuperar de ferimentos, criticava a guerra, sem medo de sanção. Noutro sítio, depois de um espetáculo dos Marimbeiros de Zavala, um colono branco censurava a presença militar portuguesa, falando em nome de um nacionalismo moçambicano de tonalidades rodesianas. Não o sabia ainda, mas quando o avião levantou voo do aeroporto da Beira, a luz da manhã escondia os perfumes e as emoções de uma excecional peregrinação ao crepúsculo de uma era que perdera o rumo do futuro."

 

Viriato Soromenho Marques.



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Quarta-feira, 17.06.15

 

 

 

 

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Segunda-feira, 08.06.15

 

 

 

 

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Terça-feira, 12.05.15

 

 

 

 

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Domingo, 10.05.15

 

 

 

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 Página 70 da Revista do Expresso de 8 de Maio de 2015.

 



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Quinta-feira, 23.04.15

 

 

 

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"Apoteose.

 

Já não faz sentido falar dos sinais do descalabro da Escola Pública. Trata-se de um facto, ainda não plenamente consumado, mas em adiantado estado de concretização. E quanto mais notório ele se torna, mais se erguem as vozes que apregoam o contrário, mais se agigantam os gráficos e os números, as folhas de Excel e as outras, maior se torna a pressão negativa exercida sobre aqueles que, no terreno, são manuseados como marionetas. Enfim, a escola real sofre de septicémia, mas a escola de papel vai bem e (auto)recomenda-se.

O empobrecimento do Estado está a ser fatal para os mais despecuniados, para os mais débeis, para os mais desamparados, enfim, para quem dá à Escola Pública a sua principal razão de existir. Deixou de haver dinheiro, os empregos tornaram-se muito raros, e o Estado não está para encarecer a mão-de-obra por excesso de qualificações. Nestas situações, é conveniente que o povo adquira as competências mínimas para servir, mas que não desenvolva muito as asas, que o espaço aéreo está congestionado. Assim, torna-se contraproducente o investimento nesta fábrica de esperanças, de expectativas, de igualdades... Há até quem pense que somos mais competitivos e menos contestatários, se formos um pouco mais ignorantes. Pois é, a educação ― a verdadeira, a informada, a culta ― traz inquietações e aspirações que não se coadunam com tempos de escassez. Daí todo este desinteresse do Estado ― de quem o controla ― pela sua mais prodigiosa criação, juntamente com o Serviço Nacional de Saúde. E como não pode assumi-lo, porque, para os devidos efeitos, ainda somos uma democracia, abandona-a, enquanto lhe declara amor incondicional e eterno. A coisa privada, tal como a proibida, parece-lhe agora muito mais apetecida. É por ela que o seu coração bate mais forte.

Aceitando como válida ― ainda que de forma simplista ― a ideia de que a escola prepara para a vida (a vida que se perspetiva em cada momento histórico), impõe-se a eterna questão: o rosto “desta escola” tem alguma semelhança com o rosto da vida que espera os alunos que não têm outro apoio senão aquele que a Escola Pública lhes dá (aqueles que David Justino quer “salvar” das retenções)? A resposta é um rotundo NÃO! Lá fora, a vida real é cada vez mais exigente, mais precária, mais seletiva, mais severa com a impreparação, com a indisponibilidade, com a falta de responsabilidade… Lá fora, a vida real exige cada vez mais esforço, mais capacidade de sofrimento e de abdicação… E o que faz a escola atual para preparar os jovens para esse mundo? Ensina-lhes tudo ao contrário: podem faltar quando querem, que as faltas são meros registos; podem chegar à sala às horas que querem, que a porta está sempre aberta; podem faltar ao respeito a quem quiserem, desde que não matem nem escochem, que nada de substantivo lhes acontecerá; podem nunca fazer os trabalhos de casa, não levar o material necessário para as aulas ou nem sequer ter apontamentos no caderno, que isso apenas dará azo a uns ridículos recaditos na caderneta; podem “baldar-se” o ano inteiro, que ainda transitarão, desde que ponham umas asas pelo Stº. António ou pelo S. João. Enfim, esta escola ensina a irresponsabilidade, a boçalidade, a petulância, a falta de respeito, a falta de ambição, a mediocridade, a inércia, a externalização das causas do insucesso… Esta escola é tão honesta com estes jovens como os produtos de emagrecimento instantâneo com gordos e obesos: tudo sem esforço, sem privações, sem sofrimento… A Escola Púbica está a tornar-se um verdadeiro logro. Dentro de uma década, será apenas um serviço mínimo de instrução destinado àqueles que têm rendimentos mínimos, para os preparar para uma vida mínima, minimamente vivida.

E qual é o papel dos professores em todo este processo? Cumprem ordens, como bons amanuenses. Os que se tornaram diretores cumprem ordens da tutela e dos que se tornaram inspetores. Fazem o que for preciso para apresentar papéis e folhas Excel com os resultados solenemente encomendados e despudoradamente prometidos. Querem é descalçar a sua bota, que os joanetes doem que se fartam! Grandes anfiteatros ― autênticos coliseus ― cheios de alunos e de encarregados de educação, no dia da festa dos Quadros de Mérito, de Valor e de Excelência! Tambores a rufar, trombetas a gritar, holofotes a doirar, jornalistas a “flashar”, parangonas a contar… APOTEOSE! Xerifes de Nottingham. Os professores que continuaram a ser apenas professores ficaram cada vez menos professores e… praticamente, já só cumprem ordens, praticamente de toda a gente. Se os mandam aceitar, aceitam; se os mandam admitir, admitem; se os mandam calar, calam; se os mandam avisar, avisam; se os mandam telefonar, telefonam; se os mandam entreter, entretêm; se os mandam justificar, justificam; se os mandam passar, passam; se os mandam ir, vão. Quando os alunos não cumprem, não estudam e não têm resultados positivos, é sempre aos professores que a tutela e todos os membros da comunidade escolar perguntam “O que é que os senhores vão fazer?”. E eles tiram sempre mais um coelho da cartola. Ai deles que não tirem!

Estes anos de terrorismo sobre os professores estão a matar a classe (que dá esmola para o seu próprio funeral). Mas não estão a aniquilar apenas a massa crítica dos docentes, estão a ferir de morte as sementes do livre pensamento, aquelas que fazem os homens livres, os cidadãos conscientes e interventivos, as democracias sãs, os países civilizados. E porque ensinamos muito mais o que somos do que aquilo que sabemos, devemos esperar que a História se vista a rigor e seja implacável com tanta demissão."

 

Luís Costa, 18 /04/2015



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Sábado, 18.04.15

 

 

 

 

Texto de Miguel Esteves Cardoso. Hoje no Público.

 

Viveu Mariano Gago.

 

"José Mariano Gago foi o cientista de que mais gostei na minha vida. Não: foi muito mais. Foi o ser humano que mais me ensinou.

Conhecemo-nos antes de ele se ter dedicado à política para defender - com um êxito tremendo - não só os cientistas como os filósofos e outros investigadores infalsificáveis.

José Mariano Gago nas ciências, tal como Adérito Sedas Nunes nos estudos socias, sacrificou-se para ajudar a comunidade inteira de investigadores.

Foi um herói. Era não só ousado como inteligentíssimo: sabia que as coisas eram difíceis. Sabia que a tradicional divisão (eternamente estúpida) entre artes, letras e filosofia, por um lado platonicamente arrogante e as ciências pragmáticas e prováveis, por outro lado aristotelicamente convincente, era não só escusada como prejudicial para os dois apenas aparentes adversários.

Chorei quando soube que José Mariano Gago tinha morrido. Não gostei nada do cabeçalho, impensado, da Visão: "Morreu o ex-ministro Mariano Gago".

Antes e depois de ser ministro (que só foi para beneficiar a comunidade científica e a - menos cientificamente - intelectual), José Mariano Gago foi um espírito livre e uma mão libertadora.

Era um inocente, um revolucionário e um génio. Como é que chegou a ser ministro? Para ajudar a ciência, a sabedoria e a asneira; o erro e a teimosia; as hipóteses sem qualquer hipótese de virem a ser teoria.

Morreu um benfeitor. Morreu uma cabeça acima de todas as nossas.

Pobres de nós."



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Quinta-feira, 09.04.15

 

 

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Uma crónica certeira e demolidora do Paulo Guinote.

 

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Quarta-feira, 01.04.15

 

 

 

 

A notícia finlandesa entrou na agenda mediática, é da família do "fim das notas até ao secundário" e já obrigou o CNE lusitano (para espanto dos mais atentos ao discurso outrora oficial, mas quem navega ao sabor do vento da oportunidade muda de rumo rapidamente) a propor a eliminação da obrigatoriedade de pautas e de quadros de honra e de mérito antes do sétimo ano de escolaridade.

 

É evidente que os títulos mediáticos não correspondem ao projecto finlandês e é também bom recordar que o tímido projecto português do tempo de Guterres, que incluía as ACND (com a eliminada área de projecto) já ia nesse sentido e com inspiração finlandesa.

 

Os críticos menos fundamentados do eduquês (não me canso de repetir que por aqui o alvo foi sempre a hiperburocracia) misturaram-se com os obcecados com o santo produto (a história já demonstrou que o mais do mesmo nas matérias ditas nucleares nada acrescenta aos que aprendem em qualquer sistema e exclui os que "não querem aprender") e criaram um retrocesso civilizacional no sistema português que parece estar já em condições para ser pulverizado.

 

Alguns dos detalhes que caracterizam a tragédia cratiana podem ser lidos no seguinte texto de Santana Castilho: A Suprema Sagrada Congregação dos Santos Exames. 

 

 

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Quarta-feira, 10.09.14

 

 

 

  

 

"(...)Traduzidos em termos reais, os números relativos aos orçamentos de Estado de 2012, 2013 e 2014 demonstram que este governo retirou 1.751,6 milhões de euros ao financiamento do ensino pré-escolar, básico e secundário (- 25,7%) e 401,2 milhões de euros ao financiamento do ensino superior e ciência (-16,1%).(...)"

 

 

 

  



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Sábado, 19.07.14

 

 

 

 

O tratamento dado aos professores pelos últimos governos é de tão baixo nível que já faltam adjectivos.

 

Quando somos alvo de várias injustiças, e ainda por cima frequentes e prolongadas no tempo, ficamos ainda mais atentos. Para além de nos termos confrontado com um coro generalizado de Lurditas D´Oiro, tivemos agora que gramar com Cratianos e Silenciosos.

 

Estou a raciocinar por indução através da leitura do badalado texto de hoje, no Público, de Pacheco Pereira sobre a prova de ingresso para os professores contratados. A crónica é forte e justa. É claro que o Lurditas D´Oiro não dá opinião sobre a justeza da prova e nem foi isso que me chamou à atenção. O que me pica a derme é o silêncio "socialista-e-da-esquerda-congénere" que faz do texto de JPP uma voz isolada no mainstream. Já devia estar habituado, sei disso.

 

Do tal texto retirei o seguinte (ponham os cintos; o bold é meu):

 

 

"(...)A história mais recente e que me fez escrever este artigo foi a desfaçatez do truque que o Ministério da Educação usou para marcar os exames aos professores com três dias úteis de pré-aviso, caindo do céu da surpresa no fim de Julho, com grande estrondo. Na verdade, são teoricamente cinco dias, o mínimo exigido por lei, mas só teoricamente. O truque foi pré-assinar um despacho em segredo, no quinto dia divulgá-lo no Diário da República a contar do dia da sua assinatura, para que na prática faltassem, após o anúncio ser conhecido, apenas três dias úteis até ao exame, 17, 18, e 21 de Julho. Professores que já estavam a receber o subsídio de desemprego, que já estavam de férias, e que não sabiam que iam ter um exame para que é suposto prepararem-se, cai-lhes em cima uma data que é já praticamente amanhã. Nem o gado é suposto ser tratado assim, mesmo quando vai para o abate.(...)"

 

 

 

 



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Sexta-feira, 04.04.14

 

 

 

 

 

 

 

 

Leia aqui

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 28.03.14

 

 

 

 

 

 

O BES e o regime

 

 

"A decisão do Banco de Portugal de obrigar o Grupo Espírito Santo a fazer provisões de 700 milhões de euros, devido a receios sobre a capacidade de reembolsar a totalidade de emissão de dívida vendida a clientes do BES, é um momento muito importante para o sistema financeiro português. Por um lado, porque mostra finalmente o nosso banco central a actuar como um verdadeiro regulador, após anos e anos de uma supervisão narcoléptica, que acabou por enterrar o país no caso BPN. Por outro, porque é um sinal público de que o BES, eterno banco do regime e porta-giratória de inúmeros ministros e deputados, tem, de uma vez por todas, de mudar de cultura e de vida.

 

Na última década, o nome Espírito Santo esteve envolvido em investigações relacionadas com:

 

1) o caso Portucale, que meteu o abate de sobreiros numa zona protegida, após a aprovação de empreendimentos imobiliários em contra-relógio, em vésperas das legislativas de 2005, por parte de ministros do CDS-PP;

2) o caso dos submarinos, onde se suspeitou de financiamento partidário por parte do consórcio vencedor;

3) o caso Mensalão, mais financiamento partidário, desta vez do PT de Lula da Silva (as notícias do caso levaram a um corte de relações entre o BES e a Impresa);

4) o caso das contas de Pinochet, com dinheiro do ditador chileno a passar, segundo uma investigação americana, pelo banco português, via Miami;

5) o caso das fraudes na gestão dos CTT, incluindo a mediática venda de um prédio em Coimbra, valorizado em mais de cinco milhões de euros num só dia;

6) a interminável Operação Furacão, megaprocesso de investigação de fraude fiscal;

7) o caso Monte Branco, onde Ricardo Salgado constava da lista de clientes da Akoya, rede suíça de fraude fiscal e branqueamento de capitais;

8) o caso dos 8,5 milhões de euros que Salgado se esqueceu de declarar ao fisco, detectados na sequência das investigações à Akoya, e que teria recebido por alegados serviços de consultadoria prestados a um construtor português a actuar em Angola;

9) o caso da venda das acções da EDP pelo BES Vida, feita dias antes da aprovação da dispersão em bolsa da EDP Renováveis, o que levantou suspeitas de abuso de informação privilegiada;

10) o caso do BES Angola, uma investigação por branqueamento de capitais que acabou por transformar Álvaro Sobrinho, antigo presidente do BESA, num dos inimigos de Ricardo Salgado (o BES, por sua vez, veio acusar Sobrinho de utilizar os jornais da Newshold – o i e o Sol – para ataques pessoais ao presidente do banco);

11) o caso da recente multa (1,1 milhões de euros) em Espanha, devido a infracções “muito graves” de uma norma para a prevenção de branqueamento de capitais (em 2006, a Guardia Civil já havia feito uma rusga a uma dependência espanhola do BES). É possível que me esteja a esquecer de alguma coisa.

 

Manda o rigor, e a boa tradição portuguesa, sublinhar que muitos destes casos resultaram em absolvição dos arguidos. Mas, das duas, uma: ou o BES é menos popular no DCIAP do que Hitler entre os judeus, ou, de facto, há uma cultura de gestão altamente problemática, a que urge pôr cobro. Tendo em conta a importância da reputação num banco sistémico, é impossível viver com a sensação de que valia a pena a polícia abrir uma dependência dentro do BES, tendo em conta o tempo que passa a investigar o banco. Daí a importância simbólica do gesto do Banco de Portugal – é um enorme passo em frente na transparência do nosso sistema financeiro e, sobretudo, um motivo para termos esperança de que fazer negociatas à moda antiga venha a ser, no futuro, muito mais difícil."

 

 



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Sábado, 22.03.14

 

 

 

"A sociedade de mercado" é o título da crónica de Vasco Pulido Valente no Público. Dá ideia que este outrora deputado pelo PSD acordou para a realidade ao  interrogar os leitores se "Já leu o livro “O que o dinheiro não pode comprar” (não sei se está traduzido em português)? Se não leu, leia. O livro é de Michael J. Sandel, professor de Harvard e, segundo dizem, “o maior filósofo vivo”. A tese de Sandel é simples e coincide com o espírito do tempo: há valores que o mercado diminui ou perverte.(...)"

 

É exactamente essa perversão que os privados da Educação que se financiam no Estado não param de executar, com o habitual chico-espertismo, através da “(...)promessa de soluções milagrosas para o insucesso escolar dos filhos e de os preparar para o exame de inglês do Cambridge, utilizando técnicas de marketing irresistíveis, os pais assinam quase de cruz um contrato de fidelização de 36 meses(...)".

 

 

 



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Sexta-feira, 28.02.14

 

 

 

 

Estou a ver o expresso da meia-noite na SICN onde se faz um rescaldo do congresso do PSD. A jornalista (?) Maria João Avillez faz uma defesa acérrima do Governo e resolveu apresentar dados sobre pessoas. Disse-o assim para enaltecer as preocupações humanistas do seu governo. Foi taxativa: "o consumo de automóveis subiu 12% em 2013, o que significa que 12% de pessoas se sentiram em condições de comprar um automóvel novo". Esta inenarrável conclusão estatística deve ser influenciada pelas aprendizagens com o livro sobre Gaspar (o premiado pela relação entre os erros em excel e o empobrecimento inapelável de populações pouco numerosas e com excesso de automóveis).

 

Para compensar, aconselho a crónica de Pedro Xavier Mendonça, no expresso online, "O automóvel como centro do mundo".

 

 

"O automóvel é todo um mundo. Não só cria uma cultura e uma economia, como novos códigos de ação e mais aprofundadas esferas ocultas. Passo a explicar.

Cria uma cultura porque surge no centro das cidades. Alarga o espaço urbano para nele melhor caber, como parecia prever o Marquês de Pombal. É ícone do progresso industrial e da liberdade individual, basta ver a América. Mostra diferenças sociais e conquistas pessoais - "o meu carro é melhor do que o teu". Concentra nos seus diferentes tipos e acrescentos um elogio à tecnologia como poder, performance e estilo, como é exemplo a subcultura tuning.(...)"

 

 

 



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Terça-feira, 11.02.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os drones e a guerra higiénica

Pedro Xavier Mendonça
Sexta feira, 7 de fevereiro de 2014
 

"A guerra é uma questão de sangue. De muito e pouco. Muito, porque quer-se o sangue dos outros; pouco, porque procura-se poupar o próprio. A tecnologia surge precisamente neste duplo de destruição e proteção. Ao longo dos séculos, podemos ver nas armas a pretensão de destruir com mais precisão ou com maior massificação o inimigo, ao mesmo tempo que se tenta aumentar o nível de segurança do guerreiro. Umas armas tendem mais a um aspeto do que ao outro, mas têm-nos implicitamente no seu modo de ser. Uma espada é mais destruidora do que protetora e um escudo vice-versa. Uma bomba atómica destrói mais em massa do que um veneno, mas ambos, ao destruírem, protegem. As bombas atómicas lançadas pelos EUA no Japão na II Guerra Mundial foram um meio de destruição em massa que evitou que mais soldados americanos morressem. Diferentemente, na I Guerra Mundial, a inadaptação dos generais às novas máquinas de guerra lançou soldados para mortes estúpidas frente a um novo poder de fogo. Hoje, isto é cada vez menos provável.

 

A tendência para este binómio tem crescido. É visível o aumento da destruição ou da precisão da mesma e simultaneamente uma cada vez maior proteção do guerreiro. Os drones são o expoente máximo disto. São dispositivos robóticos que podem ser comandados à distância por terra ou ar. Destruindo com exatidão e por vezes em massa, protegem completamente o piloto, que fica no conforto do gabinete a conduzir o artefacto. Na lógica da segurança, atinge-se a despersonalização total do guerreiro. E uma desumanização ainda maior da guerra. Esta transforma-se numa espécie de jogo de computador, em que o sangue e a dor alheios são realidades tão distantes que se transformam em índices de ação em lugar de fatores de sentimento.

 

Ironicamente, a democracia favorece este tipo de guerra. Os soldados, em geral, neste regime, são mais preciosos do que numa ditadura. O comandante das forças armadas tem que responder perante os cidadãos. Veja-se o pudor que há nos EUA com os corpos dos militares mortos quando chegam a território americano. Explicar essas mortes não é fácil. Então passa a ser quase tão importante salvaguardar a vida do soldado como é destruir a do inimigo. É em democracia que o equilíbrio entre a necessidade de matar e a de proteger é maior. Por isso, ela favorece a dita despersonalização e uma perversão muito específica: apela-se aos direitos humanos na proteção do militar amigo ao mesmo tempo que esses direitos são desprezados no inimigo, por vezes de forma brutal. Basta ver como os atentados terroristas no Iraque são tratados como banalidades pelos media ocidentais comparando com a excecionalidade dos que ocorrem dentro das portas do ocidente. Por isso, para sair para a guerra há que ter a higiene da distância. A vitória mede-se nos ecrãs."

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 02.01.14

 

 

 

 

Um abraço aos professores portugueses

 

 

 

Encontra o texto no blogue referido e também na edição do Público donde tirei o seguinte:

 

 

 

 



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Sábado, 14.12.13

 

 

 

 

 

 

 

 

"Mandela: ritual televisivo.

 

Um meio de transmissão como a TV é tudo menos apenas um meio de transmissão. Se o fosse, seria um instrumento de comunicação de mensagens que esgotaria a sua função na emissão de um conteúdo, a dado momento recebido por um recetor. Mas não é. Na realidade, além de ser um veículo de informação, entretenimento e por vezes de usufruto estético, a TV é também uma máquina de ritualização da existência.

O caso da morte de Nelson Mandela é um exemplo. Todos sabemos que este homem exemplar morreu. A notícia da sua morte foi transmitida. A partir daí, pouca informação relevante se acrescentou, sobretudo comparando com o tempo de transmissão. E isso mostra a televisão como performance e não como media.(...)"






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Sábado, 07.12.13

 

 

 

"Esperemos pelo PISA 2023" é um texto de São José Almeida no Público de hoje. Concordo com alguns argumentos, embora se note que a jornalista está muito afastada, naturalmente, do real.

 

As decisões das pessoas que governam o MEC são fundamentais. Nalguns casos, como se tem comprovado, a impreparação ou o fanatismo ideológico podem ter efeitos devastadores que levam décadas a recuperar. Esta coisa de reivindicar os resultados PISA já aborrece um bocado. É evidente que há governantes que têm feito mais pela escola pública e pela igualdade de oportunidades do que outros. É verdade que sim. Também se sabe que 2003 (o país da tanga e do tudo "está mal na escola pública") marcou uma viragem negativa no esforço que se vinha a fazer, mas quem governou daí para a frente obedeceu sempre, com uma ou outra nuance em sentido contrário, ao mesmo plano inclinado.

 

É importante que se atribuam méritos aos progressos da nossa sociedade e ao enorme esforço da escola pública que tem resistido a tanto pato-bravismo.

 

 

 

 



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Domingo, 17.11.13

 

 

 

 

 

Se o texto que vai ler tivesse sido publicado há uns anos num jornal local da zona centro do país com o título "Golpe", o seu autor seria considerado um perigoso sei lá o quê que talvez não estivesse no seu perfeito juízo. Actualmente não é assim. Há quem pegue na "verdade inconveniente", embora não se leia uma voz dos partidos do arco da governação sobre o assunto. Estes não se chocam. Aplicaram tantos choques (o fiscal, o tecnológico e por aí fora) que se tornaram anti-choque.

 

 

 

 

Daqui.

 

 

"Primeiro passo - Abra um colégio privado. Se possível, em zonas onde há escolas públicas. Assim, tem a certeza que tem alunos. Dê um saltinho à zona de Coimbra que lá sabem bem como se faz. Forneça todos os serviços que a escola pública não consegue fornecer e que lhe permitem dizer que o seu colégio se diferencia pela qualidade. Comece pelo transporte privado e acabe nas aulas de karaté. Para assegurar que corre tudo bem, diversifique o risco. Não, não, não. Não ligue a quem lhe diz que não pode ter uma clínica agregada ao colégio e que também não pode vender cafés. Iniciativa privada é iniciativa privada. Portanto, pode tudo. Só não pode não ser empreendedor educativo.  


Segundo passo - Celebre um contrato de associação com o Estado para que este lhe pague pelos alunos que a escola pública não tem lugar. Agora, pergunta "Mas eu abri o colégio privado numa zona com escolas públicas meio vazias?". Você de facto não percebe nada disto, pois não? Ainda bem que comprou este Manual que foi especialmente escrito para si. A ideia é que o colégio privado substitua a escola pública. Você quer ou não quer ter rendas? Se lhe perguntarem porque é que tem um colégio numa zona com escolas públicas meio vazias, responda com serenidade e olhar compungido: "Os meninos têm direito a ser muito bem tratados como são aqui no nosso colégio". Se não conseguir dormir à noite com esta ilegalidade, contrate um alto funcionário do Ministério da Educação como consultor para dormir mais descansado.


Terceiro passo - Selecione cuidadosamente quem admite no colégio. Outra pergunta: "Mas não é suposto eu admitir toda a gente?" Você é quase um caso perdido. Acha que lhe interessa admitir alunos com dificuldades ou com um enquadramento social problemático ou com garantias que não vão ter boas notas? Pois é, não interessa nada. Admita um ou outro com ação social escolar, quando muito. E não se esqueça dos exames e dos rankings. Os jornais ordenam as escolas pelos resultados de alguns exames sem ter em conta outros factores como o contexto social e cultural. Portanto, carregue na preparação desses exames e esqueça tudo o resto.


Quarto passo - Aguarde que um Ministro declaradamente contra a escola pública tome posse. Deixe passar uns anos a marinar. Espere que se instale o debate sobre o cheque-ensino. Dê entrevistas e aprenda a dizer liberdade de escolha a uma velocidade de meia sílaba por segundo. Passa bem na televisão. Aguarde serenamente a entrada em vigor do novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo, o que até já aconteceu no passado dia 5 de novembro. Com este novo Estatuto, o Estado passa a poder celebrar contratos de associação sem restrições, quer haja escolas públicas na zona, quer não. 

Já viu como o colégio que abriu em flagrante violação da lei já está legal? Agora que já dorme descansado, também já pode despedir o alto funcionário do Ministério da Educação contratado como consultor.


Quinto passo - Com o seu colégio legalizado pode abrir mais colégios à medida que forem fechando escolas públicas. Terá que admitir alguns alunos com o cheque-ensino mas serão sempre poucos, pois já se sabe que o seu colégio não tem lugares ilimitados. Mantenha os critérios de seleção descritos no terceiro passo. Para celebrar novos contratos de associação e abrir novos colégios, readmita o alto funcionário do Ministério da Educação como consultor.Previna o futuro e tenha a seguinte cábula à mão para debitar com um ar indignado para jornalista anotar: "Fiz avultados investimentos para ter este colégio a funcionar e agora querem acabar com o contrato Vivemos num Estado totalitário sem liberdade de escolha. Se o contrato acabar, o colégio vai ter que fechar e é a educação destas crianças que fica posta em causa". Goze bem as suas rendas por muitos e bons anos. E não se preocupe se o Estado acaba por gastar muito mais para ter piores resultados.   


Epílogo: Quando reparar que as verbas para o ensino especial diminuem e as verbas para os seus colégios aumentam, pestaneje. Não é nada consigo.

 

osdiasuteis@gmail.com

 

PS: Este Manual foi parcialmente baseado na reportagem da TVI sobre este assunto transmitida no passado dia 4 de novembro."







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"Recentemente, uma organização não-governamental holandesa, Terres des Hommes, identificou um conjunto de pedófilos através de uma menina virtual, de nome Sweetie, que se fazia passar por real. Digo bem, real. E foi-o de tal modo que, ao mesmo tempo, despertou desejo em alguns indivíduos com quem interagiu na internet e espoletou culpabilização social. Não sendo uma menina real, foi real e humana em quase tudo o que há para o ser: no desejo e na justiça. Aqueles internautas envolveram-se e a instituição culpabilizou. Vamos ver o que faz a polícia com esta informação, que é em si polémica.(...)"







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Domingo, 10.11.13

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 07.11.13

 

 

 

 

Um texto de António Câmara aqui.


 

"Vivi dez anos nos Estados Unidos da América estudando e trabalhando em universidades de primeiro plano. Perguntam-me frequentemente se não tenho saudades desses tempos.

Prefiro viver em Portugal, mas sinto a falta de três características únicas dessas universidades:

- O ambiente de fronteira. No MIT, por exemplo, sentimos que fazemos parte do grupo de exploradores que está a descobrir o futuro.

- A informação por osmose. Numa universidade americana de topo não é necessário ler artigos de revistas. Através de contactos com colegas recebemos, sem esforço, a informação sobre os avanços decisivos no nosso campo.

- E finalmente, o sistema de referenciação. Se conseguimos resultados novos, existe uma rede informal que nos recomenda aos líderes da área e, em alguns casos, a clientes e até investidores.

Nas últimas décadas, Portugal aproximou-se da fronteira e de um ambiente de conhecimento distribuído. Mas continuamos com uma enorme dificuldade em reconhecer o talento dos outros."






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Quinta-feira, 31.10.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A lição de Filosofia de Manuel Maria Carrilho



 

Várias gerações, sobretudo depois de o positivismo do séc. XIX se ter afirmado no campo do pensamento, entenderam que a educação, a ciência, a cultura e o conhecimento em geral tornariam as pessoas e as sociedades melhores. A cada conquista educacional, mais uma luz brilharia sobre as trevas. O mal não era algo em si mesmo, como de certa forma defendera Santo Agostinho, mas a consequência da rarefação do bem.

Mais tarde, sobretudo com a II Guerra Mundial, os trabalhos de Hannah Arendt e romances como o de Primo Levi ('Se Isto é um homem') colocaram o mal noutro domínio. Haveria nele uma banalidade, uma possibilidade aberta a qualquer homem. Recentemente, as teorias sobre a convicção, em que trabalhou afincadamente talvez o melhor filósofo português dos últimos 50 anos e precocemente falecido Fernando Gil (irmão do também filósofo José Gil), voltaram a recentrar a questão: por que motivo duas pessoas com a mesma formação e a mesma vivência geram convicções e comportamentos diferentes? Fernando Gil, com quem tive o privilégio de privar, por via do também já falecido comum amigo José Gabriel Viegas (que foi crítico literário no Expresso), fazia-nos e fazia-se várias vezes esta pergunta. O seu livro a 'A Convicção' (de 2000, infelizmente mais conhecido em França) ensaia também respostas a esta pergunta.

Ora Manuel Maria Carrilho é filósofo, tendo sido aliás colega de Fernando Gil como professor na Universidade Nova e ultimamente adversários no campo das ideias. Carrilho também é doutorado em Filosofia, e como Gil também está traduzido em francês. Vem de famílias com conhecimentos e rendimentos elevados (o seu pai foi Governador Civil de Viseu e Presidente da Câmara da cidade). É um favorecido. Conhece o bem e o mal, há muito que deveria estar num estado civilizacional avançado. E, no entanto, as coisas que vai dizendo da sua ex-mulher Bárbara Guimarães (independentemente das razões que possam assistir a qualquer dos lados) são próprias de um primitivo ignaro. São lamentáveis.

Qualquer casal desavindo tem os seus exageros, mas ninguém tem o direito de arrastar publicamente o nome do outro (dos pais do outro - avós de seus próprios filhos) pela lama. Ninguém tem o direito de dizer o que ele disse sobre a vida íntima da ex-mulher. E ele, filósofo, ex-deputado, ex-ministro da Cultura, ex-embaixador, sabe bem a distinção entre o bem e o mal. Opta pelo mal, provando que este também é banal, demonstrando que existe a possibilidade de ele se inscrever em pessoas por mais demãos de camadas de verniz tenham em cima. A lição de Filosofia de Carrilho é que os nossos antepassados podem estar errados. Podem não bastar a civilização e o conhecimento para um homem (ou uma sociedade) praticar o bem.

Cada ser tem as suas possibilidades abertas e o livre arbítrio de escolher um caminho. O caminho de Carrilho, mais do que condenável é lastimoso. Apenas merece aquela compaixão devida aos que já estão condenados por crimes graves.






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Domingo, 27.10.13

 

 

 

 

 

 

 

 

"(...)Temos então saudade de um cérebro desligado, de acesso restrito, mais lento e reflexivo, que se demorava em leituras e olhares em imagens singulares e isoladas. Um cérebro que se esforçava num lugar, aquele lugar, onde se deixava ficar, fixando as suas rugosidades. Certamente que não perdemos este cérebro. Encontramo-lo quando saímos da rede durante algum tempo, que tem que ser muito, ou quando aprendemos a viver em dois mundos. Resta saber guardar o mais importante."







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Sábado, 26.10.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"(...)Nunca compreenderei como é que seis anos de passeio narcísico possam merecer absolvições e indulgências, tantos os casos justiciários mal ou nada explicados para onde o seu nome resvalou. Poucos políticos sem vida profissional própria ostentaram tanto como ele e se pavoneiam tão descaradamente quanto ele, o que, no estrito plano moral, e tendo em conta a miséria para que milhões de portugueses foram atirados, não deixa dúvidas a ninguém. E se o assunto dos assuntos, em 2010, era o PlayBoy então no Governo, convém recordar de que provocatório e obcecado consigo mesmo foi feita a intervenção pública desse actor literal. É profundamente anormal que se investiguem Primeiros-Ministros em casos sucessivos e todos tenham sido arquivados, sendo os arquivadores amigos e devedores de favores do alvo da matéria arquivada: Pinto Monteiro foi o Procurador Geral Restrito e Privativo de Sócrates. Há portanto uma causa directa para que sobre o hoje Manequim Político das Esquerdas terem abundado notícias de pequenos, médios, monstruosos, casos, de forma tão insistente sem qualquer esclarecimento: nunca um Primeiro-Ministro em Portugal foi tão agressivo como o actual Ayatola das Esquerdas, Sócrates. Nada da sua vida intima, do património da sua família, do seu percurso profissional e académico, na forma como exerceu os seus cargos políticos anteriores foi, depois de escrutinado, esclarecido e, depois de esclarecido, justificado. Nada.(...)"







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Segunda-feira, 14.10.13

 

 

 

 

Dá ideia que o Tribunal Constitucional impede o derrube definitivo da democracia. Nem sei se há governantes deliquentes, mas é seguro que há gente a sacar ao Estado ao ritmo de sempre. Ainda hoje se soube que o Hospital da Cruz Vermelha sacou ao Estado o triplo do necessárioE o que fez o ministro da pasta? Renovou o contracto por um terço.

 

Voltando ao constitucional, o Público de hoje tem uma crónica muito pertinente.

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sábado, 05.10.13

 

 

 

 

 

 

 

 

...e Steve Balmer chorou



"Os gurus da tecnologia adquirem com o tempo e o sucesso uma aura que vai para lá da imagem do empresário bem sucedido. Aquilo que fazem quando inventam novos produtos informáticos em particular não é só da ordem do consumo e da economia. Marca uma posição no espectro das possibilidades de estar-no-mundo. Isto é, diz respeito à forma como construímos uma existência, no que está implicada a política, mas também as imagens que projetamos do futuro que supostamente queremos ter.


O desenvolvimento de produtos Apple ou Microsoft, por exemplo, criou autênticos estilos de vida e mesmo formas de organização que tiveram grandes implicações em termos materiais e simbólicos. Materiais, porque lançou tecnologias que trouxeram para o dia-a-dia modos de agir que antes não existiam: o computador pessoal, as janelas no ecrã, o ecrã-computador (tablet). Simbólicas, porque forjou visões do mundo que geraram identificações específicas em massa: uma vida original e de vanguarda, um uso distintivo, ainda que comum. Os conteúdos que enformaram estas construções são variáveis dependendo do produto e do público de que estejamos a falar.


A personagem de Steve Jobs da Apple é claramente o melhor exemplo de um guru que incentiva esta dinâmica. Mas, claro, de uma forma diferente, também o são Bill Gates da Microsoft e Mark Zuckerberg do Facebook. Qualquer um deles impressiona porque enriqueceu de uma forma rápida a partir de muito trabalho e do sucesso comercial, mas também de uma visão que projeta novas vivências. Portanto, esse enriquecimento liga-se a uma ideia para o futuro. Muitas vezes tratam-se de pequenas coisas na história da humanidade; contudo, no presente difundem-se em massa e dão notoriedade tremenda a uma perspetiva que começa por ser de imaginação. Recentemente, Steve Ballmer anunciou a sua saída da Microsoft. Foi suficiente para que uma comunidade o ouvisse na sua última prédica emocionado. Também um discurso de Steve Jobs na universidade de Stanford teve efeito semelhante. Sobretudo depois da sua morte, quando esse mesmo discurso fazia uma catarse da vida.

Há aqui uma relação direta entre utopia, tecnologia e economia, confluindo numa espécie de existencialismo tecnofílico. Diz respeito a indivíduos que se destacam por se empenharem em encontrar para os outros novas configurações tecnológicas, recebendo em troca reconhecimento e dinheiro. Este esforço vê na tecnologia uma salvação individual, como negócio, e coletiva, como produto de massas. Projeta-se na máquina o homem que a inventa, não como imitação, mas como continuidade partilhada. Há muito que está lançada a "grande transformação" ou a "mobilização total". Está nas mãos das empresas e de inventores-empresários que passam bem por sacerdotes."






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Domingo, 22.09.13

 

 

 

Na sua crónica intitulada "O que fará Merkel com a sua vitória?", Teresa de Sousa escreve assim:

 

"(...)O SPD ainda não conseguiu ultrapassar uma votação medíocre (26 por cento), que regista desde que Schroeder decidiu que a Alemanha tinha de fazer profundas reformas para se tornar competitiva, que colidiam com as regalias dos trabalhadores (a histórica base de apoio do SPD) e com a generosidade do Estado social. A sua “Agenda 2010”, que está na base da transformação da Alemanha de “homem doente da Europa” numa economia altamente competitiva, ainda não foi perdoada.(...)".


Repare-se no preciosismo da cronista, "(...)Alemanha de “homem doente da Europa” numa economia altamente competitiva(...)", que parece concluir: a devastação ultraliberal, que absorveu os sociais-democratas alemães, leva as sociedades de doentes a competitivas. Mesmo que as pessoas sofram, que o desemprego seja enorme, que proliferem os mini-jobs de 450 euros mês, o que interessa é o "competitivo" em favor de uma minoria que se dedica ao casino financeiro. De certa forma, os sociais-democratas, e perante a vitória eleitoral de Merkel, querem puxar para si o mérito da devastação europeia. A esquerda capitulou mesmo.




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Terça-feira, 03.09.13

 

 

 

 

Por Alfredo Barroso.

 

 


"O PS português é, nesta perspectiva, um reflexo bastante fiel da rendição do socialismo democrático ao neoliberalismo.



O PARTIDO SOCIALISTA (PS) português parece ser, hoje, um dos vários partidos da Internacional Socialista (IS) que anda na política por ver andar os outros. O socialismo democrático está em crise porque abdicou há muito de elaborar um pensamento político próprio, autónomo, genuinamente social-democrata. E porque julgou que se modernizava e actualizava incorporando nos seus programas eleitorais ideias e propostas dos seus rivais de direita, adeptos do neoliberalismo e da mundialização sem regras.

Para alcançar o poder a qualquer preço, o PS português e outros partidos da IS adoptaram paulatinamente o pragmatismo sem princípios, transformando-se pouco a pouco numa variante social- -democrata do neoliberalismo, seguindo, aliás, os exemplos do «thatcherismo» e do «reaganismo», que já se tinham transformado, no Reino Unido e nos EUA, respectivamente, em variantes neoliberais do conservadorismo.

Parafraseando (a contragosto do próprio) o que recentemente escreveu (noi) um membro da actual direcção do PS, é verdade que o PS português e outros partidos da IS "deixaram-se devorar por dinâmicas reaccionárias e conservadoras". Abdicaram, por exemplo, dos sete pilares da social-democracia: liberdade, igualdade, justiça social, desenvolvimento, solidariedade, universalidade e soberania popular. Revelando uma total ignorância histórica, o mesmo dirigente do PS sustenta que a esquerda é defensora do liberalismo e do individualismo, sem sequer distinguir o liberalismo filosófico e político do liberalismo económico e financeiro (e do neoliberalismo, que nem sequer é liberal). Diz também que "a esquerda nasceu contra o Estado", mas "inventou a burocracia" (produto do Estado) "para defender o indivíduo". Além disso, imaginem, "inventou o simplex". Este delírio descabelado e hilariante é oriundo da cabecinha de um dos mais importantes dirigentes do PS?.

É evidente que os partidos da IS, sobretudo os europeus, foram contaminados, no final do século XX, pelas ideias veiculadas pela chamada "Terceira Via" - defendidas, sobretudo, por Tony Blair (que criou o "New Labour") e pelo seu sociólogo de serviço, Anthony Giddens (autor do conceito de "Terceira Via" entre a esquerda e a direita), mas também pelo então líder do SPD alemão Gerhard Schroeder (adepto do chamado "Novo Centro"). Giddens chegou mesmo a decretar, expressamente, o "arcaísmo da esquerda" face à "revolução neoliberal", assim como o carácter ultrapassado do Estado perante a "ideia fulcral e incontornável" da mundialização. Disse ele: "A política da terceira via deve adoptar uma atitude positiva em relação à mundialização. Os governos social-democratas já não podem utilizar os métodos tradicionais de estímulo à procura e do recurso ao Estado, porque os mercados financeiros não o permitiriam".

Na cabeça dos dirigentes que abraçaram a "Terceira Via", impôs-se rapidamente a ideia de que os seus verdadeiros "inimigos" eram "os extremistas de esquerda" (ou seja, os sindicalistas e as classes trabalhadoras tradicionais). Por isso, era preciso "recentrar" os seus partidos (isto é, situá-los no "centro do centro") e procurar, sobretudo, conquistar as "novas classes médias". O PS português é, nesta perspectiva, um reflexo bastante fiel da rendição do socialismo democrático ao neoliberalismo.

Os novos dirigentes dos partidos da Internacional Socialista levaram a cabo uma verdadeira campanha de despolitização do espaço público, que se saldou pelo triunfo da forma (de comunicação) sobre o conteúdo (das políticas). Os próprios políticos foram transformados em produtos de marketing num contexto em que as suas personalidades e os seus sorrisos se tornaram trunfos no mercado mediático. A "Terceira Via" inseriu-se, de facto, num movimento geral europeu de convergência ideológica dos partidos da IS em direcção àquilo que muitos designam por "social--liberalismo", e que, na realidade, não passa de uma versão atenuada do neoliberalismo. Situados bem no "centro do centro", o PS português e outros partidos da IS não conseguem ser mais do que alternativas de gestão do statu quo neoliberal imposto pelos governos de direita.

De facto, o "centro do centro" corresponde essencialmente àquilo a que o grande constitucionalista e politólogo francês Maurice Duverger chamou o "juste milieu". E hoje continua a ser evidente que ele tinha razão quando escreveu, em 1967, no seu livro "La Démocratie sans le peuple", o seguinte:

"O centrismo favorece, regra geral, a direita. Aparentemente, as coligações do 'juste milieu' são dominadas, ora pelo centro-direita, ora pelo centro-esquerda, seguindo uma oscilação de fraca amplitude. (?) Estas aparências mascaram, todavia, uma realidade completamente diferente. Por trás da ilusão desse movimento pendular, o centro-direita domina quase sempre. (?) Em vez de implicar uma transformação lenta mas regular da ordem existente, a conjunção dos centros desemboca no imobilismo, ou seja, no triunfo da direita".

O "centro do centro" é, portanto, um terreno propício às mais variadas renúncias ideológicas e abdicações políticas. Regra geral, invoca-se, como justificação para quase todas as suas políticas, a defesa de superiores interesses da Nação, do País e do Estado - ou mesmo da "comunidade internacional", quando se trata de justificar a invasão de outros países por "razões humanitárias".

Antonio Gramsci dizia que "a crise é quando o que é velho está a morrer e o que é novo não consegue nascer". Estamos a assistir à agonia do capitalismo financeiro, que pode ser longa e ter consequências ainda mais devastadoras, mas os partidos da IS e, concretamente, o PS português, continuam em estado de letargia ideológica e política, quando seria legítimo esperarmos deles a formulação de programas bem diferentes, com propostas inovadoras claramente distintas do neoliberalismo vigente.

Resta-lhes aguardar que o poder lhes caia no regaço, por exclusão de partes, à medida que os diversos governos de direita forem apodrecendo."





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Quarta-feira, 21.08.13

 

 

 

 

 

 

 

O denominado arco do poder empurrou a democracia portuguesa para uma encruzilhada. Só por fanatismo é que alguém pode defender a exclusão governativa, acusando-as de radicalismo, das outras forças partidárias com lugar no parlamento. Os resultados são concludentes e nem necessitamos de enunciar os casos de corrupção associados aos aparelhos partidários que têm governado.

 

Dá mesmo para sorrir quando lemos as acusações de esquerdismo do quarto poder. Portugal tem sido governado mais à direita do que à esquerda e o fenómeno tem uma relação directa com a História do país e com a escuridão do século XX. As amarras da ditadura são profundas e quem sonhou com um "homem novo" após 40 anos de democracia deve andar baralhado, como sempre aconteceu aos que acreditaram nas mudanças de mentalidades sem uma escolarização plena. Não é por acaso que o tal arco de poder se "cansa" depressa com os investimentos no sistema escolar.

 

A divisão eleitoral da esquerda chega a ser incompreensível e alarga-se aos diversos concelhos nas eleições autárquicas. A crónica de André Freire no Público de hoje é incisiva (é longa e não dá para colar por aqui). Os destaques dizem assim:


 

 

 



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Domingo, 18.08.13














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Terça-feira, 13.08.13

 

 

 

 

"A direita continua a odiar a escola pública" é o titulo da crónica de José Vítor Milheiros que termina com o parágrafo que escolhi para imagem. Mas o grave desinvestimento que se está verificar na escola pública não tem sido perpetrado apenas pela direita e isso é que é ainda mais preocupante.

 

Há muita gente de esquerda, aquela esquerda que viveria sem qualquer incómodo na ditadura e que se habituou a depenar o Estado através dos aparelhos partidários, que tem um ódio "de direita" só que mais secreto. Há ainda uma esquerda "aristocrata", mais adepta de fundações e de outras benesses ilimitadas, que não podemos dizer que viveria sem problemas na ditadura, mas que revela, e também em segredo, um profundo desprezo pelo povo em simultâneo com o mais ávido desejo pela vida dos salões que dão acesso às oligarquias.

 

Este conjunto, que vive da oportunidade e em grande parte do chico-espertismo, jamais perdoará o financiamento dos impostos que fez da "escola pública, em Portugal e no mundo, o mais bem sucedido empreendimento humano, tendo sido central no combate à ignorância, à pobreza e à injustiça e na construção da democracia, da cultura e da ciência modernas(...)". Quando muito, usarão argumentos semelhantes, em campanhas eleitorais, por exemplo, que esquecerão no momento seguinte.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 22:00 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar


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