Ouvi ontem na TSF uma parte, que incluiu o sistema escolar, do muito apaudido discurso de Francisco Assis no congresso do PS. O deputado elogiou o legado de Maria de Lurdes Rodrigues e, para não variar, apontou o dedo às dificuldades criadas pelas corporações. Já cansa. Era bom que Assis revisse o conceito de corporações e talvez concluísse que é mais corporativo do que os acusados.
Tem razão quando acusa a direita de ter cavalgado a onda das contestações. Mas esquece-se de dizer que a direita só lá chegou em 2008 (a um ano de eleições), porque antes aplaudia silenciosamente, e que a justa contestação foi iniciada por cidadãos das mais variadas ideologias e convicções. Francisco Assis devia evidenciar essa onda quase heróica (estou a pesar bem) e não se remeter a um exercício de revisionismo.
Mas quando se fala em legado de defesa da escola pública fala-se exactamente de quê?
Antes de mais, é importante sublinhar que os dirigentes do PS misturam nesse argumentário a ciência e o ensino superior. Francamente: o que de muito positivo os governos do PS fizeram nessas áreas foram políticas conduzidas por Mariano Gago. Tenho sérias dúvidas que esse ex-ministro subscreva o legado infernal de má burocracia, a forma obcecada como se tentou impor uma monstro de avaliação de professores ou, já em fim de ciclo, se decretou uma gestão escolar contra tudo e quase todos.
É evidente que o actual Governo prolongou a agonia da escola pública e acentuou-a em áreas determinantes. É verdade que sim. Está agora mais em causa o regresso a níveis impensáveis de abandono escolar e ouve-se muitas vezes o elogio das novas oportunidades. Como sempre se disse, a certificação de competências nestes níveis de escolaridade é um imperativo num país como o nosso. Mas foram os governos do PS que deram cabo da ideia com a febre da propaganda misturada com uma descarada manipulação de dados. Também aí estão por provar os elogios ao legado.
Ouvi na TSF a parte final discurso de José Seguro. Dizia o jornalista que já há uma atmosfera de regresso ao poder. Não sei se a aposta é na interrupção do tempo de legislatura, mas, e como sublinhou o desajeitado consenso implorado pelo indizível Cavaco Silva, a antecipação de eleições legislativas está há muito dependente do pé-dentro-pé-fora de Paulo Portas. É até impressionante como um pequeno partido que já foi anti-Europa-e-sei-lá-mais-o-quê e que tem fornecido inenarráveis quadros neste milénio para as acções governativas, o sistema escolar que o diga, adquire esta importância.
Como Seguro pediu uma maioria absoluta mas prometeu um Governo coligado, tudo indica que o almoço secreto que teve com Portas em Agosto de 2012 pode finalmente antecipar o tão desejado, e naturalmente unânime dentro do PS, regresso ao acesso directo ao orçamento de Estado. Dá ideia que Portas é um expert em fugas de informação que alimentem a sua condição de incontornável. São também estes incontornáveis exercícios, dos maiores e dos menores destas coligações, que nos empurraram para um perigoso estado de descredibilização da representação política.
Sem ter a pretensão de enunciar uma análise de conteúdo com acentuado valor empírico, detecto nas forças políticas que têm exercido o poder um léxico comum. Tem sido assim nas últimas décadas.
Quando o exercício da oposição está longe do regresso ao Governo, as pessoas e o estado social têm uma frequência cimeira. Logo que se acentua o perfume do acesso directo ao orçamento de Estado, as empresas e as famílias ocupam esse lugar. Dá ideia que as pessoas e o Estado social ficam arrumadas num voto estruturado à esquerda, mesmo que com uma ou outra nuance, e que a aspiração da maioria absoluta parte em busca das famílias e das empresas. São uma espécie de empreendedores retóricos e "encostados" e que não inovam.
Nem sei se é uma cartilha que os aparelhos vencedores inculcam desde cedo nas universidades de verão.
Para além de ser um pouco cómico, ou trágico, claro, que as pessoas não façam parte das famílias e das empresas, também é risível que o estado social não tenha qualquer relação com as famílias e mais ainda com as inúmeras empresas que se alimentam da sua intocável gordura.
É ainda mais trágico perceber que é a panóplia de grandes escritórios de advogados, de grupos elaboradores de relatórios especializados, de autênticos especialistas em benesses ilimitadas e de interesses PPP´s e swaps que orientam os imutáveis discursos obesos. No que foi dito, o tal de centrão não se distingue.
A comunicação social vai dizendo que a disputa no PS anda à volta da trágica herança dos governos chefiados por Sócrates. Como há muitos socráticos, mesmo que com disfarces de última hora, o jogo de sombras baralha as impressões. Há cenários diversos, mentes a fervilhar e riscos de ingovernabilidade.
O surgimento desta crise terá alguma relação com os 4 mil milhões da refundação? Quem está mais próximo da maioria que governa? São muitas as interrogações que se podem fazer.
Olhando a partir do sistema escolar, o PS tem sido falho em programas e em execução. A paixão de Guterres foi "traída" pelos megalómanos do eduquês e da má gestão financeira e o exercício de Sócrates assumiu o segundo passo neoliberal em Portugal (Barroso deu o primeiro) acompanhado de uma engenharia social importada do Chile e que mais parecia da velha Albânia.
Este enfraquecimento de António Seguro e António Costa lá terá os encantos que exigem uma última interrogação: ainda há quem aspire pelos regressos de Sócrates e Lurdes Rodrigues?
Passos Coelho mentiu na campanha eleitoral. Disse, por exemplo, que era um disparate falar-se em cortes nos subsídios e foi o que se viu. Fê-lo também em relação ao sistema escolar e cavalgou, a exemplo de Nuno Crato no plano inclinado, a onda de contestação que os professores a muito custo sustentaram.
A ideologia radical do actual Governo tem adeptos que não saem do mundo das ilusões. Da ilusão ao radicalismo vai um pequeno passo.
Quando se pensa no futuro, imaginam-se as alternativas. O PS deu hoje um sinal que espera por isso a curto prazo. A polémica sobre a ADSE parece dividir o partido da rosa. Já li especialistas a fazerem laudos ao sistema e outros, como Beleza e Correia de Campos, no sinal contrário. Não consigo situá-los em relação ao trágico legado de Sócrates no sistema escolar (que tem algumas semelhanças com o que se passa na saúde). O que intuo é que a citada herança demora a ser engavetada de vez. É uma teimosa ilusão que se assemelha à que sustenta a tragédia em curso.
Por vezes, e por mais que se evidenciam os efeitos, o fanatismo partidário e os interesses que o movem não permitem ver para além disso e constroem um desastroso cimento.
Daniel Kahneman (2011:39), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, tem uma explicação.
Gravei o debate presidencial norte-americano desta madrugada e vi-o há pouco. A política externa era o mote e a Europa esteve ausente. Obama esteve melhor que Romney e espero que seja reeleito.
O mais curioso aconteceu a meio da interessante conversa. Romney tentou levar o debate para a economia doméstica e a Educação veio à tona. Obama defendeu o programa em curso, advogou a contratação de mais profissionais e declarou que conversa muito com professores. Diz que concluiu, ao contrário de Romney, que a redução do número de alunos por turma é determinante. O republicano passou à frente. Foi pena.
Desfez-se o enigma. Os achamentos de Nuno Crato devem ser inspirados nos empirismos de Romney que, espera-se, venham a ser publicados.
A Alemanha está há muito em campanha eleitoral e o seu sistema bancário deve estar num estado de arrepiar. Se o euro acabasse, a economia alemã sofreria muitíssimo e abriria portas ao regresso dos tempos que elegeram Hitler.
Paulo Portas é um político hábil e disse inverdades em campanha eleitoral em relação às políticas do sistema escolar. Está em campanha eleitoral contra o PSD - que é o espaço onde pode capatar mais votos - com quem forma Governo e partilha com o primeiro-ministro e com o ministro das finanças do mesmo espaço ideológico.
Tenho a sensação de que o que acabei de escrever tem uma relação muito directa com os últimos avanços e recuos no sistema escolar. É óbvio que os cortes "estruturais" que se verificaram, e que continuam inamovíveis, também têm o dedo dos achamentos do ministro da Educação.
Funcionários públicos vão ser mais penalizados do que os do privado
"O princípio de que a austeridade deve recair mais sobre os trabalhadores do Estado, que tem sido defendido por Paulo Portas, é partilhado pelo primeiro-ministro e pelo ministro das Finanças, e deverá enformar o Orçamento do Estado para 2013.(...)"
Reforcei a sensação de que os norte-americanos não são grande coisa em geografia e desconfio que também em economia. Joe Biden, o vice-presidente de Barack Obama, relatou-me a emoção que se gerou na sala oval com a vitória do estado de saúde do presidente dos EUA. Já o saudei, com sinceridade e não apenas por cortesia, e espero que isso contribua para a vitória eleitoral.
Confesso que tenho estranhado tanta atenção por parte da Casa Branca, que chegou ao ponto dos relatos íntimos.
Apenas não anuí ao pedido de um donativo de três dólares. Lá lhe expliquei que por aqui circulam euros, não tarda serão cavacos que competirão com os dracmas dos irmãos gregos, com as pesetas dos parceiros ibéricos (o Joe terá pedido uma assessoria para decifrar a minha explicação?) e por aí fora.
Aproveitei a soberana oportunidade para transcrever um pedaço de Gilles Châtelet (1998:69) sobre a democracia-mercado:
"(...)Jovens nómadas, amamos-vos! Sede ainda mais modernos, mais móveis, mais fluidos, se não quereis acabar como os vossos antepassados nos lamaçais de Verdun. O Grande Mercado é o vosso conselho de revisão! Sede ligeiros, anónimos, flexíveis, precários como as gotas de água ou as bolas de sabão: é a verdadeira igualdade, a do Grande Casino da vida! Se não fores fluidos, transformar-vos-ei rapidamente em pacóvios. Não sereis admitidos na Grande Explosão do Grande Mercado... Sede absolutamente modernos.(...)"
O email dizia assim:
Paulo.
Yesterday I shared an emotional moment with Barack in the Oval Office after he learned health reform had been upheld.
Barack Obama is a man who refused to give up. No matter how politically unpopular it was, he knew it was the right thing to do.
Tomorrow is the biggest fundraising deadline of this election so far. Romney and the Republicans may outraise us again -- you can bet they'll have a whole slew of special interests who want to see Romney make good on his promise to repeal Obamacare on Day One.
But they can't beat us if we pull together. Our grassroots movement is unstoppable when we put our minds to it.
Please donate $3 or more today, before the critical deadline:
https://donate.barackobama.com/June-Dead
Thanks,
Joe
Diz-se que os norte-americanos não são grande coisa em geografia e talvez isso explique o email que recebi de Michelle Obama. Já respondi e agradeci. Pensei que era uma mensagem de solidariedade por causa do assalto que o Governo português nos anda a fazer. Mas não.
Era um convite, que declinei, para jantar (não sei se a viagem ficava por minha conta) e este mês, depois dos cortes nos subsídios, e pela enésima vez nos salários, e dos acertos no IRS, também não estou em condições para donativos. Já me chegam os supermercados portugueses, os toques na campainha cá de casa e qualquer passagem por um centro urbano em Portugal (escrevi, na resposta, várias vezes o nome do nosso país). Desejei-lhes sorte para as eleições, já que um republicano com as rédeas norte-americanas seria sei lá o quê.
Paulo.
I'm sad to say this is probably the last dinner with supporters that Barack and I will be able to host together before the election.
Today's the last day you can chip in to be automatically entered for the chance to join us - and I hope you will. You can donate all the way up to midnight tonight, when the campaign will randomly select the winners:
https://donate.barackobama.com/Meet-Us-f
Thanks for everything you're doing. Every little bit makes a difference.
Hope to see you at dinner,
Michelle.
Passos Coelho disse um rol de coisas em campanha eleitoral que não cumpriu. Até arrepia ouvir as declarações sobre os cortes nos vencimentos ou nos subsídios. Fez o contrário num registo que se pode considerar de inverdades e está a exercer de um modo semelhante ao seu antecessor. Lá terá as suas justificações e os últimos dias têm sido férteis em desculpas que não convencem e que só pioram a circunstância movediça.
Perdeu-se a possibilidade de liderança demasiado depressa. A mentira é fatal e agrava-se quando nem o mais elementar erro é reconhecido. As lideranças afirmam-se num exercício corajoso nos momentos mais difíceis. Os cortes em subsídios, por exemplo, não são tão difíceis de tomar como se quer fazer crer. O que começa a evidenciar-se é o princípio ideológico tout court e a desorientação sobre o resultado que se vai obter. A situação pode mesmo agravar-se se a oposição mainstream não tiver qualquer credibilidade e se, por exemplo, as greves gerais e as grandes manifestações nao passarem de exercícios de faz de conta.
(Já usei este texto noutro post; adaptei-o, apenas)
Italo Calvino foi sage quando incluiu a leveza nas seis propostas para o milénio que agora começou. Lembrei-me dessa premonição a propósito da mediatização de uma petição a pedir a demissão do presidente da República. Entendi a iniciativa como um momento de humor - género que deve sempre ser levado a sério - e de leveza e que evidencia o que sempre me pareceu: o actual presidente espalha-se quando o "ponto" não está de serviço. Já são tantas as "gafes" que nem é para levar a sério. O senhor é impagável e ponto final.
Não me satisfazem as derrotas de quem quer que seja; prefiro os desfechos optimistas. Mas há dois momentos na nossa jovem democracia que me deixaram muito satisfeito: a derrota de Cavaco Silva nas presidenciais de 1995 e a recente de Sócrates. O "cavaquismo" foi nefasto e pensei, nessa altura, que nos tínhamos livrado da coisa. Ressurgiu anos mais tarde com a promessa habitual: um "não-político" que ia pôr as contas em dia; é o que se está a ver. Se não são essas as funções presidenciais, então que não se tivesse usado o argumento em campanha eleitoral ou criado o monstro por causa dos votozinhos e de outras coisas mais que vamos conhecendo.
Querem ver que Sarkozy tem disfarçado e é um perigosíssimo esquerdista radical e despesista?
O presidente francês Nicolas Sarkozy assegurou hoje no final da cimeira do G20 que os países com paraísos fiscais que constem de uma lista que vais ser publicada, serão “banidos da comunidade internacional”.
A supressão curricular tem na EVT uma elucidação: termina uma disciplina para nascerem duas. A educação visual e tecnológica dá lugar à educação visual e à educação tecnológica. Esta redução invertida da dispersão é um eufemismo e um regresso ao passado. É obrigatório ouvir Passos Coelho e Paulo Portas. Há uns meses, poucos, eram acérrimos defensores da EVT e do par pedagógico.
Receber 12 ou 14 vencimentos pode ser quase irrelevante se o produto anual for semelhante. O primeiro-ministro avança com a manutenção dos cortes nos subsídios até 2014, ano de eleições, mas diz que a recuperação não será automática. Enfim. O que se evidencia é que já são poucos os que acreditam nas suas declarações.
Passos Coelho disse um rol de coisas em campanha eleitoral que não cumpriu. Nem adianta refutar. Pior: fez o contrário num registo que se pode considerar de inverdades e está a exercer de um modo semelhante ao seu antecessor. Lá terá as suas justificações e os últimos dias têm sido férteis em desculpas que não convencem e que só pioram a circunstância movediça.
Perdeu-se a possibilidade de liderança demasiado depressa. A mentira é fatal e agrava-se quando nem o mais elementar erro é reconhecido e se tenta passar o "odioso" para outro elemento da organização. Era preferível assumir a mentira ou o erro. As lideranças afirmam-se com um exercício corajoso nos momentos mais difíceis. Os cortes em subsídios, por exemplo, não são tão difíceis de tomar como se quer fazer crer. O que começa a evidenciar-se é o princípio ideológico tout court e a desorientação sobre o resultado que se vai obter.
A uma semana das eleições, o presidente do PS faz tábua rasa de tudo o que disse até agora e sobrepõe-se às directas, aos congressos partidários, à vontade dos militantes e descarta o chefe do governo de gestão. São uns desorientados, deixaram o país num estado semelhante e fazem tudo para continuarem sentados à mesa da governação.
‘Se Sócrates perder não ficará líder’, Almeida Santos
"Almeida Santos, presidente do PS, diz ao SOL que se o partido perder as eleições Sócrates quererá sair, até «para simplificar uma solução de Governo».(...)"
O ex-ministro Correia de Campos anda, pelo menos desde 2005, a cavalgar cheio de bonomia a agenda política da direita e a classificar de radicalismo tudo o que vem dos sectores que se situam à esquerda no nosso mapa partidário e não só.
Há tempos fiquei estupefacto com a sua falta de rigor e com o seu populismo. Num debate televisivo, Correia de Campos estava eufórico com os últimos resultados PISA e disse que o novo modelo de gestão escolar tinha uma grande responsabilidade na melhoria. Como se sabe, os testes foram realizados em Abril de 2009 e o modelo de gestão só entrou em vigor em Maio do mesmo ano. No mínimo, a responsabilidade seria do modelo que este PS terraplenou. Incluiu uma série de argumentos que me convenci que também tomou, em pequeno, doses industriais de cereais-headmaster.
Não admira, portanto, que em plena campanha mude de agulhe e avance com propostas que demonstram o desespero deste PS-da-grande-oportunidade-perdida.
A estratosfera é tramada. Há pessoas muito sofisticadas. Dá a sensação que leram vezes demais "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel e que se baralharam. Para tudo tem de existir a dose adequada, que raio. Não é preciso advogar um qualquer estatuto especial para perceber que este PS será "varrido" eleitoralmente. As últimas declarações do presidente do PS são risíveis.
"(...)Os professores saberão, por eleição, escolher os melhores e mais conhecedores para governar as escolas.(...)", é uma frase, talvez surpreendente, do último livro de Santana Castilho. Na apresentação do livro, o candidato do PSD a primeiro-ministro, e que prefaciou a obra, disse que ia rever o programa eleitoral que tem um registo muito afastado da frase que escolhi.
Quem está nas escolas todos os dias conhece a razão que levou à frase de Santana Castilho. A história da gestão escolar em Portugal é inequívoca na defesa desse aspecto; e a democracia também. O desafio que se coloca é simples: qual é a força política que se apresenta a estas eleições com uma frase parecida (para não ser muito excêntrico)?
É muito difícil, por muito dedicados que sejam os assessores de imagem e da estratégia comunicacional, não dizer ao que se vem na política. Só os mais oportunistas é que não se preocupam com os efeitos históricos dos seus comportamentos; acreditam que tudo se manipula: até o tempo.
Pedro Passos Coelho segue um caminho com alguns riscos: deixar o CDS quase à vontade e tentar captar votos do centro para a esquerda para vencer o PS. Pretende uma maioria para governar e não se queixa, pelo contrário, por não conseguir uma maioria absoluta.
As recentes polémicas à volta do programa do PSD para Educação são um exemplo do que acabei de escrever. Se Pedro Passos Coelho não estiver a ser autentico, terá um destino parecido ao do actual primeiro-ministro e durará ainda menos tempo; nos mandatos e na voz.
Se acontecer essa falta de autenticidade, a queda de um próximo governo dependerá do peso da trágica herança de José Sócrates. Ou há alternativas autenticas no PS ou a democracia não perdoará o que se passou nestes últimos anos.
A mentalidade de exército partidário que se sobrepõe aos interesses do país foi fatal para o PS e terá um incalculável tempo de duração. José Sócrates e Lurdes Rodrigues pediram desculpas aos professores antes das legislativas de 2009. Estavam a mentir. O PS tem de pedir desculpas autenticas (com actos políticos): pela Educação e pelo estado do país; não pode continuar na estratosfera e num registo clubista e de insensibilidade à dor.
É claro que a economia continua no topo das causas. Se não correr mal nesse domínio, o próximo governo respirará e a tal herança do PS pesará toneladas.
Quem está atento à campanha eleitoral na área das políticas da Educação, percebeu que, para além dos caminhos sugeridos pelo arco da governação ou pelos partidos da esquerda, há um debate interno no PSD que se pode resumir assim: um grupo que desenha a continuidade das más políticas do PS e que podemos classificar de neoliberal ou de testa de ferro da privatização de lucros e um outro que construiu o seu discurso na contestação às políticas dos últimos anos e que se diz defensor de um clima de confiança nos professores e de recuperação do poder democrática da escola.
Digamos que o primeiro grupo assenta que nem uma luva ao arco governativo que nos conduziu à bancarrota e que o segundo se apresenta de forma algo surpreendente de fora desse registo, com um discurso sem laivos de má burocracia ou de eduquês e sensível ao que os investigadores mais atentos têm diagnosticado: a escola precisa, em nome da igualdade de oportunidades no acesso ao saber, de se desamarrar de um incomportável caderno de encargos e de se libertar para o ensino.
É o que estes actores (os que escreveram e os mencionados) estão a disputar na área do PSD: uns no primeiro grupo e outro no segundo.
Talvez não seja ousado afirmarmos que não é possível identificar escolas de gestão escolar. Apesar destas organizações serem estudadas, e de a forma como organizam a sua oferta estar no centro do debate político das sociedades actuais, podemos inscrever uma lógica de desconhecimento quando pretendemos conhecer quais as filosofias de gestão e as culturas organizacionais que estão em confronto.
Há caminhos diversos quanto há forma como as redes escolares se vão estruturando, mas o reconhecimento das escolas como organizações com características próprias é um universo de estudo que começa a dar os primeiros passos.
São cada vez mais os investigadores que referem o elevado caderno de encargos da escola como a componente essencial da crise actual da instituição. Se lhe associarmos o escasso tempo que as famílias dedicam à educação das crianças e dos jovens, encontramos um problema que não respirará melhor com um debate político minado pela propaganda, pela manipulação e pelas receitas de analistas que sabem-de-tudo-e-de-mais-alguma-coisa.
Não compreendo como é que Ferro Rodrigues, e outras pessoas do género, se metem na campanha deste PS, dizia-me um simpatizante do partido da rosa murcha que só sabe que não votará PS. Longe de ter certezas nestas coisas, adiantei algumas pistas.
Ficarem bem vistos pelas bases da família para a etapa que esperam que se siga, pode ser uma hipótese. Também têm uma dívida de gratidão com o actual chefe que se bateu com denodo pelas políticas educativas que o núcleo do ISCTE desenhou. Ferro Rodrigues, Vieira da Silva e filhos, Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e por aí fora, convenceram-se que a igualdade de oportunidades na Educação passava pela proletarização dos professores através de uma férrea burocracia de prestação de contas (modelo bebido numa visita presidencial de Jorge Sampaio ao Chile) que os poria a laborar 50 horas por semana (epifania que iluminou o cérebro de Jorge Sampaio numa rápida visita a um país nórdico).
O que estas mentes solidárias, e sem dúvidas, não esperavam, é que o laboratório de políticas sociais da sub-família que integram produzisse um monstro de quase fascismo por via administrativa. Disfarçam o peso na consciência porque se habituaram ao convívio com a oligarquia dominante, donde recebem as migalhas que fazem com que se sintam acima dos humanos, insensíveis à dor e ainda elegíveis.
Os nossos analistas políticos nunca vacilam quando alguém apresenta uma proposta favorável à condição profissional dos professores: perde votos no país, é a sentença. Chega a ser risível este atestado de inferioridade aos eleitores. Para estes seres exímios a perscrutar cérebros em multidão, político que diga acreditar nos professores do seu país é reprovado pelos cidadãos que, e segundo os estudos sobre a confiança dos portugueses nas classes profissionais, colocam os docentes no lugar cimeiro.
São estranhos estes analistas, mas devem conhecer bem o país de que fazem parte.
O ainda primeiro-ministro fez do desdém pelos professores a sua obstinada arma eleitoral. Começou em 2005 com a maior maioria absoluta do PS e em silêncio em relação aos professores e ao poder democrático da escola. Depois foi a obstinação que se sabe e com resultados eleitorais sempre a descer.
Resiste no seu partido, mas com as juras "secretas" de que o querem ver bem longe. Os analistas continuam a elogiar a sua capacidade para dizer inverdades e para fingir que nunca muda de opinião. Aliás, nesta democracia mediatizada não se pode ser humilde, ter dúvidas ou sequer afirmar que se evoluiu no pensamento ou que se errou.
Talvez se voltem a enganar a propósito do desempenho mental dos votantes.
Não me comoveram. É mais do mesmo em quase todas as políticas. Reafirmaram a candidatura a primeiro-ministro, o que se pode considerar natural se se olhar para quem exerce actualmente essa função. Se Paulo Portas fosse eleito nessa condição, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa teriam motivos para impugnarem os resultados com base em irregularidades sub-aquáticas e dados objectivos para alegarem incompreensão pelo facto dos eleitores portugueses não olharem os extremos de forma ambidestra.
Hoje, 12 de Maio, às 18.30, na Sala Porto do Tiara Park Atlantic Lisboa, decorrerá o lançamento do livro de Santana Castilho, "O ensino passado a limpo". Depositam-se curiosidades acrescidas pelo facto de Pedro Passos Coelho prefaciar o livro e a apresentação pública do mesmo. São vários os bloggers que afirmam que o PSD anda a duas velocidades nas ideias para a Educação, uma vez que o conteúdo do livro entra em contradição acentuada com o programa eleitoral desse partido político. Vou estar atento aos desenvolvimentos.
Sabemos que a diplomacia internacional se exerce no espírito das guerras. Podemos dizer o mesmo de algumas campanhas eleitorais e das desavenças entre os estados e os movimentos armados que se classificam como terrorismo.
A eleição de Obama foi um momento histórico inesquecível. O pragmatismo das campanhas eleitorais lá fará as suas exigências, mas não gostei de ver tanto regozijo pela morte de um ser humano; mesmo que se tratasse de Bin Laden.
Os professores portugueses andaram anos a fio a democratizar o acesso ao ensino com parcos recursos de gestão. Para além disso, desdobraram-se em tarefas de substituição das famílias, dos serviços sociais, dos serviços de saúde e de sei-lá-de-mais-o-quê. Os indicadores da respeitabilidade das classes profissionais junto dos portugueses colocam os professores no lugar cimeiro e em destaque; lá saberão o porquê.
Todavia, os governantes dos últimos anos designaram os professores do seu país como a classe maldita.
Por outro lado, o governador do Banco de Portugal (BdP), quase ignorado nas agendas mediáticas, disse ontem, que eu vi, que os governantes e os administradores públicos têm de ser responsabilizados pelo estado miserável das contas do país.
Dito isto, é com perplexidade que leio o chefe do governo de gestão em campanha considerar a avaliação de professores como uma das prioridade do seu programa de governo para a Educação. Quem conhece o estado das nossas escolas só pode confirmar o estado de perigosa alienação deste governante. Mas mais: no mesmo dia, a ex-ministra ML Rodrigues vem sentenciar que a suspensão da avaliação de professores foi um episódio sem significado no curto prazo. Parafraseando o governador do BdP: esta gente tem de ser responsabilizada mesmo; desde logo pelo voto, que raio.
Nem os brutais sinais da France Telecom ou as opiniões de quem estudou mesmo o modelo de avaliação dos professores portugueses conseguem incluir sensatez e modernidade nos raciocínios do grupo "mais sociedade". Estes proponentes da direita portuguesa são uns fanáticos da medida: humanos e parafusos são recursos da mesma categoria empresarial. Usam uma linguagem bem-pensante e tão sedutora como qualquer ideia totalitária. Resguardam-se na irrefutabilidade de tudo o que é falso.
No caso da justiça portuguesa, não escrevem sobre o inenarrável citius que ridiculariza o sistema de informação dos tribunais através da repetição e redundância de dados ou sequer responsabilizam a incapacidade política para que a gestão dos mesmos não se situe ao nível da traquitana do Estado. Também não se lê uma vírgula sobre a comprovada falta de qualidade da legislação. A panaceia é simples: medir os juízes em quantidade e qualidade. Estão-se mesmo a ver os resultados. Têm a palavra os juízes e os políticos que defendem sem tibiezas a democracia e a liberdade.
O grupo "mais sociedade" propõe que o recurso ao subsídio de desemprego deve reduzir o valor da reforma. Estes proponentes afectos aos partidos da direita eliminaram, como se sabe, a pobreza dos seus raciocínios. Nunca têm pensamentos de outro tipo nem duvidas.
Vamos lá lançar uma proposta alternativa: gestores públicos e privados que recebam prémios anuais de desempenho (PAD), prescindem do valor anual das reformas (VAR), na lógica de um VAR por cada PAD.
O PSD continua admirador inconfesso do chefe do governo de gestão.
Impressiona ver o chefe do governo de gestão a propagandear despesa como se o financiamento fosse seu. Há obra da parque escolar comprovadamente escusada e a factura continua a subir.
Não sei se é da vergonha com a presença da troika, mas as nossas "elites" têm andado um bocado desvairadas. O candidato ao lugar supremo da monarquia e um ex-presidente que exerceu o cargo que nem um monarca, apareceram hoje em jornais de referência a tranquilizar a população e a darem uma mãozinha a dirigentes oriundos do PSD. Se no primeiro caso podemos acreditar na autenticidade de quem se esforça por demonstrar que a nossa agricultura biológica tem futuro, no segundo ficamos com receio que o que está em causa é o futuro do seu partido e da respectiva família.
Não temos salvação e nem sou pessimista. A sério: se Paulo Portas declara que os portugueses sabem que o CDS é o partido seguro, o que é que podemos fazer para além de constatar que falimos?
Dizia um militante do PS: aprecio Teixeira dos Santos e Luís Amado. Conheço melhor o primeiro e tenho ideia que é honesto, competente, dedicado e que dá tudo pelo país.
Talvez seja.
O ministro das finanças do governo de gestão sempre me impressionou por estar do lado dos amendoins. Há tempos escrevi assim sobre duas coisas do seu exercício: "(...)dava a vida pelas contas públicas (disse-o(...)na parte final de um programa na RTP1) e que os cortes financeiros (fim dos governos civis, diminuição de autarquias, redução do pessoal de gabinetes, não recurso do estado a escritórios de advogados e mordomias ilimitadas) eram amendoins e que o que era importante era reduzir funcionários e cortar nos salários (dito no expresso da meia-noite)(...)".
Juntando as impressões e sabendo-se do abalo severo do motor mais potente das sementes comestíveis, não admira que os donos se comecem a desfazer, sem piedade e depois de bem mastigados, dos passageiros de ocasião. Querem ver que daqui a uns tempos até a avaliação de professores era mesmo um modelo de quase fascismo por via administrativa e que a obstinação era doença do ministro das finanças, dos amendoins e da Educação?
Liderados por Pacheco Pereira e Santana Lopes, os se-não-for-eu-ou-os-meus-não-é-ninguém começam a ver os resultados da sua acção.
O chefe do governo de gestão garantiu a F. Nobre o voto de metade dos ministros do seu governo nas eleições para presidente da República. É espantoso tudo isto. O grau zero da nossa vida política. Saiba mais detalhes, aqui, sobre as nobres disputas dos partidos do centrão.
Até para o antigo presidente da República, e histórico fundador do PS, foi difícil reconhecer o desastre dos últimos seis anos. O seu partido cometeu erros de uma ordem de grandeza ainda por apurar. Na Educação foi devastador, mas a clubite parece que desagrega o raciocínio da inteligência.
"Mário Soares aplaudiu o silêncio do CDS-PP na negociação da ajuda externa. No artigo de opinião do Diário de Notícias, o ex-presidente da República revela que "o PP tem estado, sabiamente, calado. Não percebeu ainda, com razão, de que lado correm os ventos. E como quer um pouco de poder, não sabe ainda com qual dos dois principais partidos se poder vir a aliar".
Já o PS e o PSD precisam, no entender do responsável, de se entender. "Precisam absolutamente de se entender, abandonando por agora, as querelas eleitorais". Soares vai mais longe e afirma "quem mais propaganda eleitoral quiser fizer, neste período, mais perde".
Para o ex-presidente da República, os partidos da esquerda radical (PCP e Bloco) "auto-excluíram-se do jogo do poder". De acordo com o mesmo, "nunca apreciaram o projecto europeu. São partidos de mero protesto. O eleitorado não percebe o que querem"."
Temendo-se pela crise do pão, e seguindo a tradição que vem da Roma antiga, a população portuguesa tem direito a cenas circenses (com todo o respeito pelo verdadeiro circo). Fernando Nobre foi taxativo: é óbvio que em termos humanísticos e sociais sou de esquerda. Ou seja, o candidato a deputado, apenas em três dos sete dias da semana, considera que os partidos da direita não têm essas preocupações e candidata-se à casa da democracia por um partido político dessa área.
Sabia-se que o PS acolhia uma mistura que vai de oriundos do pior PSD/PPD até a um naipe de tortuosos maus burocratas que detestam a classe média de que fazem parte, passando por um apreciável número de jotas que se inscreveram onde a oportunidade parecia mais favorável.
Não admira, portanto, que se passe por um local público e se veja a televisão de serviço a nomear Basílio Horta como candidato a deputado por Leiria, o distrito onde voto. Este PS é assim: gosta de mostrar o seu lado mais direito, como fez com Freitas do Amaral.
Vou achar piada à argumentação dos meus amigos militantes e simpatizantes clubistas do PS, e que votam no distrito leiriense, quando defenderem o voto no partido da rosa. Já se sabe: os deputados contam pouco e fazem parte da coreografia que vai arruinando a democracia. O bloco central continua gémeo: a nobre opção teve uma resposta à altura.
Tal como Albertine se deixou aprisionar pelo ciúme doentio de Marcel no penúltimo volume da monumental obra de Proust, também algumas esquerdas estão condicionadas pela provável vitória da direita e nem sabem como lidar com as críticas que devem ser feitas ao chefe do governo de gestão.
Pela minha parte é simples: como professor e cidadão desejo a derrota eleitoral seguida duma viagem para o caloroso centro da terra ao ainda chefe do PS; considero que a crise que vivemos tem uma forte componente internacional; reafirmo que existiu um desvario corrupto interno que temos de reprovar e combater e que vai das PPP´s ao financiamento partidário passando pelas benesses ilimitadas "oferecidas" a um vasto conjunto de ingénuos e de distraídos.
Dito isto, importa sublinhar que a democracia deve funcionar e sem os detestáveis maniqueísmos. Apontar o dedo às agências de raiting não é defender o governo de gestão e podia ficar aqui horas a debitar exemplos.
Há, todavia, um dado seguro: até no aprisionamento da esquerda e num qualquer triunfo da direita mais gananciosa podemos responsabilizar o PS e o seu aclamado chefe. Quem não se lembra da gabarolice socialista com os elogios de Sarkozy, em 2007 salvo erro, a propósito das políticas educativas e das mudanças na segurança social? O chefe francês achou-se à esquerda de J. Sócrates e o pessoal dos comícios rejubilou. Agora aguentem-no até ao fim e também para lá disso. O país é que não merecia tamanho vexame.
Que me desculpem as pessoas que têm militado de forma bem intencionada nas juventudes partidárias, mas o espectáculo a que estamos a assistir entre os dois grandes partidos políticos é indecoroso. Só se ouvem acusações de mentiras e de sei lá mais o quê quando o país se está afundar em plena bancarrota. Dá ideia que se institucionalizou um jogo de jotas que têm vivido de favores e de troca de cadeiras. Esta gente não se preparou para as funções que exerce. Esse ambiente estratosférico empurrou Portugal para um buraco de saída muito difícil.
Deixem-me sorrir e desculpem-me de novo. Estão a noticiar que o país será o único no mundo em recessão em 2012. Temos de fechar para obras. Desculpem-me localizar, mas quando em 2009 vi o que se fez em muitas escolas por causa das eleições, com aumentos salariais, benesses de horas para tudo e mais alguma coisa e destituições abusivas de Conselhos Executivos, vi logo, e escrevi, que só podia acabar em tragédia. Precisamos mesmo de um reset sério.
Francamente: não me surpreenderam as apresentações de Ferro Rodrigues como primeiro da lista do PS para Lisboa e de Fernando Nobre no mesmo lugar no PSD. Aliás, por este caminho será possível que disputem os votos na capital com Carlos Carvalhas pelo CDS, com Santana Lopes pelo PCP, com Ricardo Salgado pelo BE ou com José Policarpo pelo PCTP/MRPP. A situação é de bancarrota e todos os esforços no sentido da união são insuficientes.
Defendo que a questão dos independentes é conjuntural e acontece por ausência de identidade na relação com os partidos políticos ou por dificuldade em se obedecer à disciplina partidária. Não é um crime passar-se de uma condição para outra. A militância e a dependência são coisas diferentes. Há militantes independentes e não militantes dependentes e por aí fora.
Às tantas, o que está mais em causa é o facto das candidaturas ao parlamento estarem reservadas aos partidos políticos. A forma como se fazem listas também não ajuda nada, desde logo por nem sempre se garantir a identificação dos candidatos com os distritos por onde concorrem. E depois, já se sabe: a democracia é imperfeita por definição e as pessoas e os seus exemplos fazem toda a diferença.
Bem se podem esforçar Manuel Alegre e Ferro Rodrigues. Para além de sabermos que o poder é um forte cimento e que já está em curso o dia seguinte à derrota do chefe do governo de gestão, o facto de se deixarem usar como supostas armas para acantonar eleitoralmente os partidos à esquerda do PS associado ao fervor como dizem disparates sobre as políticas educativas, já não salvam o homem que vai ter mesmo de ir a votos.
Dito isto, fica muito mal aos dirigentes do PS descerem da estratosfera e culparem as corporações e os radicais populistas pela derrota de instrumentos quase fascistas por via administrativa.
Há dirigentes do PS que só agora é que acordaram para o facto do poder político do seu partido estar submetido ao poder financeiro. Mas mais: dizem que a constatação só aconteceu com o recente pedido de ajuda externa.
Razão têm os que dizem que são apenas mais episódios de uma falência anunciada.
É estranho como o PS se submeteu ao actual secretário-geral. É, pelo menos à superfície, um eucaliptal de uma árvore apenas. Bem sei que faço um exercício de indução, uma vez que parto do desastre que se assistiu na Educação. Mas se a Educação é propalada como a primeira prioridade de um país, a minha questão tem sentido.
Apenas atenua a perplexidade o facto de raramente ter encontrado um militante ou simpatizante do PS que criticasse abertamente as políticas educativas do ainda primeiro-ministro. Dava a ideia que estavam rendidos a uma agenda escolar com tiques de quase fascismo por via administrativa. Não acredito que fosse por desconhecimento e só pode ter sido por convicção, pela manutenção de um qualquer lugar ou por medo.
O PCP e o bloco parece que se vão apresentar como alternativas de governo. Fazem bem. Tendo em conta as circunstâncias, talvez seja melhor continuarem com programas e listas autónomas. Parece-me que há um aspecto que deve ficar claro: não aceitam governar com o actual PS. Se há alguma ideia de união das esquerdas na situação actual, perderão votos de forma acelerada.
É interessante observar as reacções à tentativa de entendimento entre o PCP e o bloco. Os do arco da governação levantam o fantasma do caos se essas forças chegarem ao poder. A questão que se coloca é simples: mas afinal quem é que nos trouxe à falência onde estamos?
Apesar dos programas para a Educação destes dois partidos de esquerda terem muita da má burocracia que tanto temos combatido, é no mínimo revigorante para a democracia que se entendam e que se apresentem ao eleitorado com uma proposta de governo sem este PS.
Foi de tal modo dilacerante que o temor empurrou a alegria para fora do universo profissional dos professores. Mesmo depois da queda do mais terrível dos monstros, as vozes sufocaram-se na apreensão com o que se vai passar a seguir. Como se fosse possível descer ainda mais fundo, como se a mais dura vitória que os professores conseguiram não encerrasse uma qualquer lição para o mainstream.
Os do poder a desmoronar-se que mais apelam à organização de um centrão, são as lapas que habituaram os lúcidos a seguir o contrário do que dizem. O único "sucesso" que podem reivindicar ao fim de mais de 30 anos, é a transformação do PS na central com mais poder financeiro e influência do país. Os resultados estão aí. Se associarmos essa evidência às mais valias do irmão gémeo, temos explicada a causa da bancarrota: a santa aliança do BPN com o BCP.
É essa a encruzilhada que se coloca aos professores. Como ter a certeza que o monstro passou ao histórico das insanidades e qual o caminho a seguir. Há, desde logo, uma primeira objectividade que passa pela fácil identificação do que não se quer com toda a certeza. E isso já é um primeiro passo para o retorno da alegria e para que as vozes saiam do fundo e espreitam de novo uma qualquer esperança.
E a dada altura do discurso de campanha, o chefe do PS pôs a mão no peito e disse: eles vão dar cabo da escola pública e do seu poder democrático.
Se o ainda primeiro-ministro é o único candidato nas internas do PS, é natural que o também ganancioso PSD vença as próximas eleições legislativas. Naturalmente, o meu voto não irá para qualquer dos beligerantes imobiliários. Será um em não sei quantos milhões.
Quantifico de forma imprecisa o número de portugueses e receio que depois do dia 21 de Março o continuarei a fazer. O Censos 2011 apela a essa data para o recenseamento na rede e desconfio que a coisa entupa. Mas isso são manias minhas, que teimo em ser céptico em relação a um país que se tornou pato-bravista em hardware, porque essa coisa do software dá um bocado de trabalho.
O diabo que escolha.
Os professores têm aguentado muito, mas há uma consequência da queda deste governo que rejeitam liminarmente: se a direita vencer as próximas eleições, o ataque ao poder democrático da escola que se vai continuar a verificar é uma responsabilidade de quem ocupou lugares de governo nos últimos anos e não de quem combateu as nefastas políticas. A mudança será apenas uma passagem de testemunho.
O PCP poderá apresentar uma moção de censura ao governo. No jogo político-partidário, e em plena campanha para as legislativas, o PCP nada tem a perder; com este PS ou com a direita a sua luta é a mesma. Manterá o seu fiel eleitorado e só poderá beneficiar com o murro na mesa. O tacticismo da direita, que consiste em esperar por dias melhores, levará um abanão, o bloco de esquerda pagará caro o facto de querer uma esquerda grande em coabitação com este PS e os tacticistas do PS podem ter de esperar mais de uma década como castigo para a sua falta de convicção na possibilidade de fazer diferente do chefe actual.
Por incrível que possa parecer, os bloquistas apelam à esquerda do PS para que não seja crítica de Sócrates de modo a que não se entregue o poder à direita. É espantoso tudo isto.
O chefe do governo escolheu a Educação e os professores para alimentar o lumpen e os votozinhos. Enquanto na saúde cedeu aos primeiros protestos, na Educação fez gala da sua obstinação para satisfação política da direita e da cooperação estratégica. Os resultados estão aí. O castigo supremo conseguiu ser superior às forças dos professores e veio dos maiores aliados do arco da governação: o sistema bancário e as lavandarias dos offshores.
Dá ideia que vão sair de cena sem honra nem vaidade.
O plano tecnológico, já o escrevi vezes sem conta, tem muito hardware (os eurozinhos fáceis) e zero de software. Quando recebi o cartão de cidadão impedi a anulação do de eleitor, uma vez que o número não constava do novo registo.
Quando hoje fui votar encontrei de imediato a mesa de voto. Alguns dos meus familiares, os que permitiram a recolha do de eleitor ou os que já não tiveram direito à sua receção, estiveram horas para o fazer. Eram muitas as pessoas nessa situação. Os computadores da junta de freguesia não acediam à base de dados e o número de telefone 3838 curto-circuitou. Intolerável tudo isto. Valeu-lhes a simpatia de quem estava nas mesas de voto, que se deu ao trabalho de pesquisar o nome numa lista ordenada por número. Um país de modernaços, sem dúvida, que vive às custas da traquitana do estado.
Devemos anotar as declarações de Cavaco Silva. Não sei se vai ser reeleito, mas se isso acontecer tem de ser confrontado com as afirmações da campanha. Já o vimos ufanar-se com este orçamento, dizendo que foi a sua magistratura de influência que o conseguiu.
Este orçamento tinha como medida principal o corte nos salários.
A dois dias do acto eleitoral, o candidato da direita todinha (ai se fosse um candidato que incluísse a esquerda toda; e ainda há quem levante o fantasma do frentismo de esquerda) diz que se devia taxar os altos rendimentos em vez de se cortar nos salários da classe média para baixo. Não há paciência para tanta demagogia.
Será que, e como já se previa, os números de Cavaco Silva começam a fraquejar?
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