Em busca do pensamento livre.

Terça-feira, 21.03.17

 

 

 

A Finlândia incluiu mais competências transversais nos currículos nacionais (o processo iniciou-se em 2012 e apenas em 2016 deu os primeiros passos). E porquê a transversalidade? Por causa dos futuros profissionais, mas principalmente pelo tédio dos alunos (até nas raparigas que têm melhores resultados em todas as literacias). A ligeira quebra nas avaliações internacionais terá acelerado a recuperação da antiga interdisciplinaridade; ou melhor: da sua institucionalização. O processo tem cinco anos, não muda com a queda de um Governo (Crato&Rodrigues seriam impossíveis) e regista o pessimismo de 34% dos professores; 21% registaram benefícios. Toda esta sensatez num sistema com escolas com uma dimensão civilizada, descentralizada e autónoma. Não existem exames (mas existe avaliação), não existe avaliação do desempenho (do desempenho, sublinhe-se) dos professores e não existem serviços de inspecção (os sistemas bem sucedidos constroem a confiança): ou seja, estão há muito a contrariar as variáveis determinantes da escola-indústria (nunca li, nos inúmeros relatos do sistema finlandês, uma referência ao excesso de burocracia).

Em Portugal, parece que se queria recuperar a flexibilização institucional do currículo, e logo de 25% da carga horária, quase de supetão. Dizem que parou por causa das eleições autárquicas e da vontade do Presidente. Que não se conte este ridículo fora de portas e que se repita: para além do tempo, "isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia - o inferno acentuou-se (1998-2000) na anterior experiência de gestão flexível do currículo - num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de flexibilização curricular".

A imagem é de um pintor finlandês: um Anjo, mesmo que ferido como é o caso do escolar finlandês, justifica todos os cuidados e merece que se lhe dê tempo para encontrar outros caminhos.

 

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Hugo Simberg.

"O anjo ferido"

Museo de Arte Ateneo.

Galería Nacional.

Helsinski. 

Finlândia. 



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Terça-feira, 14.03.17

 

 

Há muito que se sabe que a nuclear gestão da informação das escolas está na "idade da pedra"; nos últimos anos, e com as plataformas digitais, o sistema escolar inaugurou a "idade da pedra digital". É uma atmosfera reconhecida pelas diversas equipas ministeriais antes de o serem. As campanhas eleitorais acusam a infernal hiperburocracia (a analógica e a digital) como a primeira responsável pelo burnout dos profissionais. Mas não passa de retórica. Os exercícios governativos agravam o fenómeno. Não revelam uma ideia sobre o modo de o atenuar. Até os simplex's são intuídos em sentido contrário. As plataformas digitais em que mergulham as escolas padecem de duas "patologias sem sala de aula" na fase de análise e programação: legisladores e empresas comerciais de software escolar.

 

PS: desculpe os anglicismos, caro leitor; mas até ficam bem no ambiente digital do post.

 

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Quinta-feira, 23.02.17

 

 

 

É preferível a coragem de eliminar as retenções dos alunos nos anos não terminais de ciclo (nos terminais ficaria para mais adiante), do que andar há mais de duas décadas a culpar, exclusivamente, os professores e as escolas pelo insucesso escolar instituindo um inferno de má burocracia que se evidencia em reuniões de agenda repetida e documentos de "copiar e colar". Aconselho a leitura deste post do Paulo Guinote.

 



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Quarta-feira, 22.02.17

 

 

 

 

"92% dos professores defendem menos poderes para os directores e a mudança do modelo de gestão das escolas", é uma das conclusões de um inquérito que envolveu 25 mil professores.

Contra a avaliação do Ministério da Educação, e contra quase todos, Lurdes Rodrigues impôs a mudança do modelo de gestão da escolas (querem ver que, também aqui, declarará o seu arrependimento) com a ideia confessada de anestesiar os professores na "guerra" que lhes moveu e de fazer das escolas um "balcão de atendimento" do ministério. Foi apoiada pelo arco governativo de então uns "momentos" antes da entrada da troika. Era já uma associação de tragédias.

Há quem se interrogue sobre o que realmente se passa. O factor fundamental para a rejeição estará, na minha modesta opinião, na seguinte conclusão: "Abuso do poder e medo: 71% dos inquiridos consideram que o sistema aumentou as situações de abuso do poder, o clima de insegurança e de medo e o alheamento em relação aos assuntos da vida escolar". O modelo em curso possibilitou que sentimentos menores de favorecimento tomassem conta do processo de decisão e se afirmassem atitudes de assédio moral à volta da distribuição de serviço, da ocupação de cargos e da avaliação do desempenho. Geraram exaustão e medo; isto é, burnout. É mesmo impressionante e motivo de vergonha, mais ainda porque falamos de professores e de escolas. E depois, há tudo o resto que se pode ler numa notícia com um rol de conclusões muito desfavoráveis e que pode servir de aviso para o seguinte: o avanço da municipalização, e da gestão flexível do currículo, acentuará o clima muito negativo sem a alteraração do modelo de gestão.

 

Inquérito promovido pela Fenprof.

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 Vila Nova de Cerveira. Julho de 2016.



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Domingo, 19.02.17

 

 

 

O "Governo vai mudar o currículo das escolas" contrariando decisões muito desfavoráveis aos alunos, principalmente aos mais jovens, promovidas por Crato com o empobrecimento curricular. É o passo seguinte depois do questionamento saudável a uma variável da mesma família: a indústria dos exames. É mais um motivo de esperança no sentido da moderação e da sensatez. Mas não chega. É preciso eliminar o que resta dos procedimentos da "guerra" aos professores, e à organização das escolas, da autoria de Lurdes Rodrigues.

A "nova" gestão flexível dos currículos eleva a exigência da escola (se a municipalização se abstiver). Não bastará disseminar directrizes centrais. Será preciso mais estudo, mais autonomia e mais responsabilidade, para que se afirmem valores de liberdade, maturidade e transparência. E tudo isto apela a profissionais não preenchidos por burnout e sentimentos de "fuga", precarizados ou rodeados de má burocracia num clima de desconfiança na democracia. Estas componentes criticas são mesmo os riscos a contrariar num ambiente de mudança curricular.

 

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Quinta-feira, 26.01.17

 

 

 

O ambiente no país melhorou com o novo Governo, mas é inquestionável, e com todo o realismo, que se mantêm as componentes críticas da vida profissional de milhares de professores. Temos o dever de o sublinhar. E nem todas têm implicações financeiras; algumas melhoravam a capacidade volitiva, atenuavam o burnout e reduziam a despesa.

É a 4ª edição desta curta radiografia. A 1ª é de 5 de Novembro de 2015, a 2ª de 10 de Junho de 2016 e a 3ª de 20 de Novembro de 2016. Vou repetindo o post enquanto se justificar, sem esquecer boas intervenções em variáveis importantes (por exemplo: concursos BCE, prova de acesso e rede escolar).

Há uma legião de professores contratados sujeita a um inimaginável processo de desprezo profissional. O desinvestimento na escola foi brutal também nos seus profissionais. E os professores do quadro? Estão há anos com a carreira congelada, para além, obviamente, dos cortes transversais e da aposentação retardada. As imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), divisões na carreira, mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que o sentimento de "fuga" se afirme com tantos murros na dignidade. Importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores e o "tudo está mal na escola pública".

 

 

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 Faces, Picasso



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Quarta-feira, 04.01.17

 

 

 

Os "franceses já podem ignorar emails fora do horário de trabalho". Não é o único país a legislar com a preocupação no burnout de profissionais, que é um flagelo resultante do desconhecimento vigente sobre ciências da administração associadas aos sistemas informacionais dos diversos domínios de actividade. As escolas portuguesas, onde a desconfiança nos professores é a causa de um inferno de informações inúteis, repetidas e redundantes, aderiram às plataformas digitais de empresas comerciais. Quando a sensatez francesa atingir o território nacional, a escola portuguesa ficará finalmente centrada no essencial: aulas, com as respectivas classificações de alunos.

 

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Terça-feira, 06.12.16

 

 

 

Os alunos portugueses, com 15 anos em 2015, "obtiveram os melhores resultados de sempre nos testes PISA". Apesar das "reformas" perpetradas por Lurdes Rodrigues, Crato e afins, das causas do burnout e dos professores portugueses serem a classe profissional mais devassada pela comunicação social na última década, os alunos portugueses estão, pela primeira vez, acima da média da OCDE com elogios à ambição escolar dos encarregados de educação e à capacidade dos professores (elogiada também pelos seus alunos): "são os melhores a adaptar as aulas aos alunos". Conclui-se que as salas de aula vão sobrevivendo aos "reformistas" radicais de sinal contrário.

 

Nota: os testes PISA "valem o que valem" (como as sondagens) e há críticas fundamentadas a este modelo de análise de dados (uma espécie de subprime destes assuntos). Concluem-se dois dados gerais: estamos nos três últimos lugares no insucesso escolar e os tais países dos arautos da privatização afundam-se. Como dado humorístico, sublinha-se que os alunos testados desde 2000 (Portugal subiu quase sempre em cada triénio) nunca fizeram exames no quarto ano e, provavelmente (só mesmo os que reprovaram três vezes até ao sexto ano), só uma pequena parte da última amostra fez no sexto ano; e sobreviveram.

Legenda das linhas do gráfico: ciências a verde (a maior subida), leitura a vermelho e matemática a azul (uma estagnação); dados desde 2000 referentes a Portugal.

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Segunda-feira, 05.12.16

 

 

 

O DN diz que o "Ministério queria injetar sangue novo nas escolas, mas não tem como fazê-lo" por questões financeiras. É um assunto discutível e com muitas variáveis. Repito o que tenho escrito: há uma legião de professores em burnout. Basta olhar para os números (mais de 40% dos professores tem mais de 50 anos de idade) e conhecer horários e a generalidade das burocracias. Pelos vistos, nada vai acontecer brevemente. Há, desde logo, inutilidades horárias e burocracia cuja eliminação reduzia a despesa.

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Segunda-feira, 24.10.16

 

 

 

Há mudanças imperativas no domínio legal. Não vai lá doutro modo. Há procedimentos a eliminar com urgência. A má burocracia corporizada em amontoados de grelhas, ou em modo de repetição em plataformas digitais, anula o indivíduo sem acrescentar atributos cooperativos e gregários. Institucionaliza a inutilidade. Sobrecarregar o indivíduo com burocracia exclui a dignidade e impede qualquer veleidade à inovação, à inteligência e ao primeiro atributo do conhecimento da razão: a liberdade. A má burocracia prolongada é o principal motor da desmobilização, da saturação e do burnout

 

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Quinta-feira, 20.10.16

 

 

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A notícia do Expresso de 12 de Março de 2016 sublinhava que a Finlândia era "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só aconteciam de 10 em 10 anos, em que todos participavam na discussão e em que a expressão-chave era a confiança nos professores".

E é isto. 

Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as avaliações externas centradas na produção de papelada medida às resmas e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado. Acrescentaram-se programas informáticos de empresas comerciais a dirigir modelos organizacionais. E depois, queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout).



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Quarta-feira, 19.10.16

 

 

 

 

É intemporal a crítica à escola-industria e raramente as escolas escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É uma crítica fundamental, mas está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda". Uma análise séria exige muitos caracteres. Dividi esta discussão em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que é uma evidência preocupante na escola portuguesa. Mais entre os professores, mas também, e de acordo com OMSáude, entre os alunos adolescentes.

 

Nos últimos dias mediatizou-se a experiência da escola de Carcavelos que pensa "fora da caixa". Conheço pouco do fenómeno em concreto e já ouvi opiniões divergentes. Salienta-se, desde logo, a vontade de reflectir. Na Educação, as mudanças (falar de revolução neste domínio é manifestamente exagerado) devem ser progressivas, paulatinas, discutidas e pensadas. A escola é, quase por definição, uma instituição em crise. Os caminhos "fora da caixa" exigem coragem, vontade, moderação, sensatez e amor à liberdade - também de ensinar e aprender -.

 

Importa, desde logo, mudar detalhes. Coisas aparentemente pequenas. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos, podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Deslocar o intervalo, por exemplo, para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional.

 

Um exemplo da mesma família, que é, sem dúvida, um retrocesso a caminho da escola-indústria, é a calendarização a eito de todos os testes, de todas as turmas e em todos os anos de escolaridade. Condicionar deste modo a abordagem didáctica diferenciada a cada turma, só mesmo num modelo contraditório e conceptualmente perdido que advoga em simultâneo o ensino individualizado e diferenciado (para além do cultivo precoce do retrógrado "estudo para o teste" ou aquele mais "reivindicativo": só respondo a um conjunto de questões por dia). Olhando para a imagem, aquele pico de aprendizagem teria, se existisse, alguma explicação.

 

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Quarta-feira, 12.10.16

 

 

 

"Há escolas que querem lançar na plataforma digital as actas das eleições dos delegados de turma e dos representantes dos encarregados de educação. Fazem isto porquê e para quê?", dizia-me o impaciente programador de uma empresa de software escolar. E tem razão para a saturação. Este é um bom exemplo, entre dezenas, da falta de confiança na palavra dos professores que gera hiperburocracia e burnout. Durante décadas houve delegados de turma e representantes dos encarregados de educação (há menos tempo no segundo caso), indicados pela palavra do professor que procedia à eleição e não consta que houvesse qualquer problema. Este exemplo demonstra que o digital só por si não simplifica; trata-se de eliminar, como no desenho, os procedimentos burocráticos. E a digitalização de todas as actas escolares, devidamente parametrizadas e sem repetições ou redundâncias, é assunto para uns posts.

 

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Sábado, 08.10.16

 

 

 

 

Regressa à agenda, até pela degradação do que existe, a necessidade de um "modelo transparente e de normalidade democrática, e livre da partidocracia, na administração das escolas" e, com surpresa, "a Fenprof  defende o fim da figura dos diretores das escolas, advogando a gestão por um órgão colegial com participação efectiva dos professores.O neoliberalismo escolar começou com Sócrates e Rodrigues, embora Barroso e Justino abrissem as portas. A invisibilidade política e comunicacional das escolas do não superior, que, até à queda da banca, eram os sorvedouros da nação, e a diabolização dos sindicatos, pressupunha a terraplenagem. Não foi totalmente assim porque os professores resistiram ao "projecto global". Derrotaram a divisão da carreira, os mentores da avaliação de professores foram "obrigados" a classificarem-na como "fascismo por via administrativa", a prova de acesso saiu da agenda, os concursos civilizaram-se este ano, a industria dos rankings foi questionada, a rede escolar voltou a respirar, mas há um caminho a percorrer para a normalidade, e modernidade, curricular, para a eliminação de horários ao minuto, para um razoável número de alunos por turma e para a dignidade na profissionalidade dos professores sendo a confiança no seu exercício a condição essencial para a eliminação da hiperburocracia e do burnout. Mas nada se construirá com o organograma dos actuais agrupamentos e muito menos associado ao modelo de gestão que Sócrates e Rodrigues impuseram. O fim da história carecia, mais uma vez, de fundamento.

 

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Sexta-feira, 30.09.16

 

 

 

 

Passar do eduquês I (escola a tempo inteiro com afectos) para o eduquês II (escola a tempo inteiro com exames) é "suportável" uma vez. A rotatividade "eterna" (temos décadas de alternância) explica o burnout de professores e os persistentes números de insucesso e abandono escolares.

 

Centremos o debate no seguinte ângulo de análise: o importante estudo do cérebro continua a concluir que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o seu funcionamento; António Damásio, por exemplo, sublinha-o no sentido do texto na imagemO ensino, a aprendizagem e os desenhos curriculares não escapam a isso. O alargamento curricular tem fundamentos e só em discussões ideológicas datadas é que se advoga o regresso ao back to basics (ler, escrever e contar). Quando um sistema escolar está "tão avançado" que se dá ao luxo de cortar investimentos, o conhecimento exige que o faça por igual nas diversas áreas.

 

É precisamento por isso que a humildade é inalienável. Quando se decide nestes domínios, avalia-se o estado em que se encontra essa qualidade imprescindível a um sistema escolar. Nuno Crato e Lurdes Rodrigues eliminaram-na, embora a "rotatividade" eduquesa tenha raízes anteriores. É o espaço de fusão entre as duas versões do eduquês que parece, fatalmente, de pedra e cal. Os deputados do PS que o digam a propósito da avaliação da sua produtividade.

 

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Daniel Kahneman (2011:73), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, 

Círculo de Leitores, Lisboa.



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Quinta-feira, 23.06.16

 

 

 

Elogia-se a coragem informada do Governo no caso cooperativas ilegais e redundantes, mas a defesa da escola pública não se esgota aí; obviamente. E não é preciso recuar muito para o que é "consensual" mudar. Há questões com implicações orçamentais e outras não: "apenas" de reposição democrática.

 

Alunos:

 

Quando é que se contraria o afunilamento curricular (que começou em 2003 com a "reforma" do secundário) de Crato, sem ser apenas na mudança de provas finais para aferição?

 

Quando é que se reduz alunos por turma?

 

Profissionais:

 

Quando é que se descongelam carreiras (praticamente congeladas no que levamos de milénio)?

 

Quando é que se repõe a decência na avaliação do desempenho (o congelamento de carreiras é que silencia o desmiolo)?

 

Quando é que se encara de vez a elevada média etária, e o burnout, dos professores (tão discutida em campanhas eleitorais), nomeadamente revendo o seu estatuto de modo a impor decência (sem empurrar pessoas para reformas com indecentes penalizações) na redução da componente lectiva por idade e tempo de serviço e na distribuição do serviço docente?

 

Quando é que se confia nos professores e se elimina a hiperburocracia (em modo digital também)? No primeiro simplex, o MEC de então acelerou em sentido contrário. Como será no simplex dois? O "escola a 360 graus" não é animador.

 

Organização das escolas:

 

Quando é que se altera o modelo de gestão no sentido de esclarecer três variáveis: municipalização, agrupamentos e democracia interna das organizações?

 

Quando é que se requalificam as escolas não abrangidas pela parque escolar?

 

E podíamos ficar horas a elencar componentes críticas ou em detalhes técnicos (que explicariam a execução de algumas das medidas referidas com os meios existentes). Mas um pequeno post é suficiente para sublinhar que a defesa da escola pública tem exigências que não são marcianas.

 

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Sábado, 11.06.16

 

 

 

"(...)Entre as tarefas que desviam os professores da sua “missão essencial”, figuram “a sobrecarga de reuniões e de múltiplas tarefas de natureza burocrática”, como por exemplo o preenchimento de aplicações instaladas em plataformas electrónicas, que “poderiam ser desenvolvidas por assistentes técnicos”, destaca o CNE num parecer sobre a condição docente.(...)". Digamos que a hiperburocracia está há muito identificada e que a passagem para o digital torna ainda mais ridícula a ausência de estratégia informacional. Aos sucessivos discursos governamentais com promessas de eliminação da praga, corresponde sempre mais burocracia. Conclui o CNE, que acorda tardíssimo, mas acorda, que “nos últimos anos, as condições de trabalho dos docentes nas escolas têm vindo a tornar-se mais difíceis”, o que contribui para que se registem “processos de stress e burnout [exaustão]".

 

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Sábado, 04.06.16

 

 

 

O tempo real é um sinal da aceleração do tempo nas sociedades actuais. Mas é também o principal indicador de um sistema de informação de uma organização. O tempo entre a obtenção e o fornecimento da informação é real ou não é transparente. Por paradoxal que pareça, a optimização do tempo real desacelera o tempo das pessoas.

 

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Domingo, 01.05.16

 

 

 

Precisamente por ser muito difícil apresentar conclusões na investigação em Educação, exige-se ponderação, sensatez, mudança gradual, equilíbrio e testagem em pequenos universos antes de generalizar em qualquer área da política educativa. Se o período de Crato foi de radicalismo ideológico com cortes a eito (não apenas financeiros), exige-se a quem se segue que recentre. Contudo, o actual Governo nunca poderá esquecer que o período de Lurdes Rodrigues foi também de ruptura radical através de uma confessada guerra aos professores da escola pública. E o que se vai percebendo nalguns dos documentos são esses tiques lurdianos que fizeram do sistema escolar um grande primeiro ciclo recheado de políticas de infantilização da educação, de hiperburocracia e inutilidades e de generalização da síndrome de burnout.

 

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Segunda-feira, 18.04.16

 

 

 

Não é apenas consensual a necessidade de um programa especial de aposentações para professores. O que também já se percebeu, é que a profissionalidade docente exige reduções da componente lectiva com a idade. Esta segunda variável, assumida até durante a ditadura, foi "esquecida" na última década: redução máxima apenas aos 60 anos (no primeiro ciclo, e julgo que também no pré-escolar, a aposentação antecipada desapareceu), aumento da componente lectiva e a componente não lectiva recheada de inutilidades que acentuam o desgaste profissional.

 

Discordo das classificações de corporativismo baseadas nos excessos que ocorreram. Os excessos eliminam-se sem baixar o nível e estão associados a todas as profissões. O discurso ainda mais difícil de perceber tem origem em professores mais jovens que discordam que um professor acima dos 50 anos de idade (e aos 27 anos de serviço, como era o caso) leccione 14 aulas por semana e beneficie de redução da componente lectiva para o exercício de cargos. Acham que isto é corporativo e escrevem-no como um acto de coragem que fará sorrir a malta envolvida no Panamá Leaks. Mudarão de opinião quando a sua idade avançar e talvez nessa altura compreendam o número elevado de baixas médicas que se regista há anos a fio e entendam o clima de burnout que se generalizou numa classe profissional com uma elevada média etária.



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Segunda-feira, 04.04.16

 

 

 

Têm-me solicitado que explique melhor os mais 750 milhões de euros por ano motivados pela redução de alunos por turma.

 

Imaginemos que, em 2013, Nuno Crato não era ministro e se candidatava a director de uma escola. Com o modelo em curso, Nuno Crato, para quem "uma turma com 30 alunos pode trabalhar melhor do que uma com 15. Depende do professor e da sua qualidade", teria todo o apoio do MEC, e bastava-lhe o de uma minoria da "comunidade escolar", para constituir turmas com esse número; e até por excesso e nunca por defeito, naturalmente. Beneficiaria de todas as possibilidades legais para "obrigar" os professores às suas descobertas. É precisamente por causa de casos destes, em que Portugal é fértil, que deve existir um limite máximo legal de alunos por turma.

 

A estimativa de custos da página 45, os tais 753.290 milhões, do estudo do CNE, carece, desde logo, da observação de uma passagem de Adam Smith (2010:80) em Riqueza das Nações: alunos não são alfinetes.

 

Se usássemos uma regressão linear múltipla e se considerássemos os alunos por turma a variável dependente e incluíssemos o número de salas, de escolas, de professores por turma, de alunos por escola e por ano de escolaridade, de professores com insuficiência de serviço e por aí fora como variáveis independentes, verificaríamos da complexidade de se chegar a conclusões numéricas como as que são apresentadas no estudo do CNE.

 

O estudo tem a virtualidade, da página 30 à 41 no capítulo 5, de explicar a sensatez que é reduzir gradualmente o limite máximo de alunos por turma e até de acordo com o parágrafo da página 6, da autoria de David Justino, que é mais avisado do que as conclusões da página 45: "(...)A manutenção do controlo burocrático e centralizado da constituição de turmas deveria naquele contexto dar lugar a um critério mais geral de distribuição de recursos cuja afetação seria da inteira responsabilidade das escolas e agrupamentos, em função das características dos seus alunos e das opções de desenvolvimento educativo consagradas nos seus projetos educativos(...)".

 

A lei em vigor estabelece um limite máximo que não é cumprido pela maioria das turmas dos diversos ciclos, como é o caso que apresento no gráfico que acompanha o post. Se Nuno Crato, por absurdo, dirigisse todas as escolas do país, usaria a metodologia do estudo do CNE, encheria as turmas de acordo com a lei que fez aprovar, cortaria mais uns 10 a 20% no depauperado orçamento da Educação e teria direito a umas belas férias no Panamá financiadas pelas farmacêuticas da área da burnout.

 

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Segunda-feira, 21.03.16

 

 

 

É antiga a crítica à escola-industria e muito raramente as escolas que conhecemos escapam à normalização de horários, de currículos e por aí fora. É um assunto muito interessante, que está sempre à mercê de "cíclicos inventores da roda" e que exige muitos caracteres. Decidi dividir em capítulos a partir da síndrome de boreout (tédio no trabalho) que atinge os profissionais da Educação mas também, e de acordo com OMSáude, os alunos com particular incidência os adolescentes portugueses.

 

Nos últimos dias mediatizaram-se boas experiências de escolas que eliminaram as tradicionais campainhas. É uma decisão que conheço bem e com muito bons resultados. Tem um alcance que influencia uma série de variáveis, a começar pela responsabilidade associada à autonomia e à elevação do clima de confiança. Se pensarmos no que existe em Portugal, com aulas de noventa minutos (a experiência, também a que vivi, iniciou-se em 1998, mas era possível nas tradicionais "aulas de 50 minutos"), podemos questionar: estão todos os anos de escolaridade nas mesmas condições para este tempo de aula e mesmo as diversas disciplinas de um mesmo ano ou todas as aulas do mesmo professor a uma determinada turma? É certo que não. Eliminar toques e deslocar o intervalo para a conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor tem as vantagens que se queira imaginar para além de suscitar uma quebra de rotinas e uma "abertura" para a integração de novas ideias didácticas sem "beliscar" a leccionação dita mais tradicional. Olhando para a imagem, os picos de aprendizagem distribuem-se e o ambiente escolar elimina os momentos de saturação nos diversos serviços; a segunda variável tem resultados garantidos.

 

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publicado por paulo prudêncio às 09:43 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 20.03.16

 

 

 

A já muito falada síndrome de burnout provoca doenças, deprime e leva mesmo ao suicídio como aconteceu com a tragédia da France Telecom. Muito menos falada é a síndrome de boreout (tédio no trabalho) mas que tem uma incidência mais comum do que a burnout. No nosso sistema escolar, a boreout já atingia os professores com as inutilidades, os horários ao minuto, as mega-organizações e a hiperburocracia mas também contaminou os alunos que aumentaram o desânimo com a escola derivado ao retrocesso nas possibilidades de escapar à secular escola-industria. Voltarei ao assunto em próximos posts.

 

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publicado por paulo prudêncio às 10:36 | link do post | comentar | partilhar

Quinta-feira, 17.03.16

 

 

 

Percebo pela blogosfera que há professores algo sobressaltados com uma ou outra notícia. Vamos acreditar que são os tablóides que desvirtuam a informação para efeitos comerciais. Recordo um desenho do Antero, o genial cartoonista da defesa da escola pública, que me parece adequado e que me levou ao título do post.

 

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publicado por paulo prudêncio às 10:38 | link do post | comentar | partilhar

Sábado, 12.03.16

 

 

 

A notícia do Expresso sublinha que a Finlândia é "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só acontecem de 10 em 10 anos, em que todos participam na discussão e em que a expressão-chave é a confiança nos professores". Nem por acaso, um dos editores do blogue "ComRegras" (muito dinâmico nestes primeiros 15 meses), o Alexandre Henriques, informa que o seu trabalho de investigação sobre a indisciplina escolar atingiu o momento mais mediático da história do blogue.

 

E é isto.

 

Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as "aulas inovadoras" como quem inventou a roda e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde até ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado: um pensa e muitos executam; por cá acrescentaram-se os programas informáticos (software) de empresas comerciais (outsourcing), em "parceria" com programas de avaliação externa anteriores à sociedade da informação e do conhecimentoa dirigir os modelos organizacionais. E depois queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout) dos profissionais.

 

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publicado por paulo prudêncio às 17:08 | link do post | comentar | partilhar


Inauguração do blogue
25 de Abril de 2004
Autor:
Paulo Guilherme Trilho Prudêncio
Discordâncias:
Mais até por uma questão estética, este blogue discorda ortograficamente
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