Para uma ontologia paradoxal do corpo, por Eduardo Prado Coelho: introdução
Encontrará vários post, este é o primeiro, sobre uma célebre conferência sobre o corpo.
Os conferencistas foram Eduardo Prado Coelho e José Bragança de Miranda.
Estive presente com a companhia do editor do blogue. Já dei nota, pelo menos aqui e aqui, desse dia inesquecível no auditório da Faculdade de Motricidade Humana.
"Que em Auschwitz
as paredes não se rebelassem,
que o gás não se "arrependesse",
é o escândalo do silêncio de Deus,
mas também uma falha no humano."
José B. de Miranda,
Queda sem fim.
O lume brando a que os modelos neotayloristas, como o da avaliação de professores, sujeitavam os seus destinatários, fazia parte do metabolismo pré-negocial das centrais sindicais e dos partidos políticos do passado - as massas ficavam sempre prontas a protestar -.
O problema é que os tempos recentes desnudaram a hipocrisia e o cinismo e não raramente os seus autores foram apanhados em situações de flagrante e juvenil embaraço. E é bom que se diga que estávamos a lidar com situações requintadas que maltrataram as relações profissionais num nível inédito.
Assistimos a um de virar de página.
Não haja ilusões. Como dizem Taylor e Saarinen, criou-se uma mediatrix por uma espécie de revolução despercebida. Dizem os autores de Media Philosophy: "Velocidade, velocidade e mais velocidade. Seria possível uma revolução ter lugar tão rapidamente que ninguém desse por ela?".
“Para isso é preciso partir da experiência, não daquela que se confunde com o precipitado do “real” na memória dos indivíduos, mas da experiência que está cristalizada no estado de coisas existentes.”
Miranda, J. (1997:32).
Política e modernidade. Linguagem e violência
na cultura contemporânea.
Lisboa: Edições Colibri
“(...) mais do que partir de uma resposta preparada historicamente para todos os casos, mais do que fazer como se nada soubéssemos, que é a posição dos racionalistas, trata-se de agir com tudo o que possamos dispor “aqui e agora". (...)”.
Miranda, J. (1997:11). Política e modernidade.
Linguagem e violência na cultura contemporânea.
Lisboa: Edições Colibri
Após um início de inspiração ultraliberal, vamos assistindo a uma desorientação programática com ingredientes impensáveis que se apoderaram do Governo neste momento de emergência nacional. É grave e triste, mas é assim. Grassa a irresponsabilidade e o mais vil oportunismo e isso alastra-se.
Do estado de permanente campanha eleitoral de Portas até à organização administrativa do Estado supervisionada por Relvas e passando pela partilha com o Pingo Doce do consultor António Borges ou pelo academismo estratosférico e laboratorial de Vitor Gaspar, o primeiro-ministro só podia apresentar a demissão.
E interroguei-me: para onde será a próxima fuga? Lembrei-me, de novo, de José Bragança de Miranda e da Queda sem fim, seguido de Descida ao Maelstrom de Edgar Allan Poe.
Passos Coelho garante que está a fazer uma "revolução tranquila"
Por me interessar por várias coisas ao mesmo tempo, percebi que tinha de me organizar e dediquei-me à construção de bases de dados para os mais variados assuntos. A dos ficheiros secretos tem várias entradas e algumas incluem resumos de conferências.
Andava à procura dumas questões que apresentei a Eduardo Prado Coelho e encontrei as que coloquei a Bragança de Miranda na mesma conferência sobre corporeidade, em 7 de Novembro de 1997, na Cruz Quebrada.
Muito obrigado. Vou colocar duas questões e gostaria que estabelecesse uma relação entre elas, partindo de três categorias: ideologia, responsabilidade e dor.
Primeira questão: considerando o conceito de ideologia, que por aqui estabelecemos, como um conjunto de interesses inconfessáveis (e pensei no consenso manufacturado de Chomsky e na comunidade que vem de Agamben) quais são os interesses inconfessáveis da ideologia do corpo? Segunda questão: se a responsabilidade das ligações são de cada um dos corpos organológicos, e se o primeiro movimento da responsabilidade é a dor, como será a responsabilidade de um corpo sem dor e a que ideologia isso interessa?
A resposta de Bragança de Miranda, depois de sorrir e pensar um bocado, foi sábia: o mundo passa mais pelas palavras do que pela fisiologia.
“Para isso é preciso partir da experiência, não daquela que se confunde com o precipitado do “real” na memória dos indivíduos, mas da experiência que está cristalizada no estado de coisas existentes.”
Miranda, J. (1997:32).
Política e modernidade. Linguagem e violência na cultura contemporânea.
Lisboa: Edições Colibri
Portugal entrou num processo de queda sem fim? Os sinais começam a evidenciar o que em 16 de Abril do ano passado escrevi aqui. A obstinação dos governos com o modelo de avaliação de professores, colocando-o como ponto central da governação do país, só podia servir de cortina de fumo para algo preocupante. Não se perdoa aos que perpetraram a farsa, mas também aos que fizeram um coro comprometido. Sabiam que era outra a verdade, mas estavam acomodados aos mesmos privilégios.
No estado em que estamos, é difícill inverter a queda e manter o sistema que a originou. Exige-se uma qualquer refundação e recordo um parágrafo de um texto de José Bragança de Miranda.
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal."
"Que em Auschwitz
as paredes não se rebelassem,
que o gás não se "arrependesse",
é o escândalo do silêncio de Deus,
mas também uma falha no humano."
José B. de Miranda,
Queda sem fim.
Miranda (1997, p.11), “(...) mais do que partir de uma resposta preparada historicamente para todos os casos, mais do que fazer como se nada soubéssemos, que é a posição dos racionalistas, trata-se de agir com tudo o que possamos dispor “aqui e agora". (...)”.
Miranda, J. (1997). Política e modernidade.
Linguagem e violência na cultura contemporânea.
Lisboa: Edições Colibri
"Que em Auschwitz
as paredes não se rebelassem,
que o gás não se "arrependesse",
é o escândalo do silêncio de Deus,
mas também uma falha no humano."
José B. de Miranda,
Queda sem fim.
"(...)A certa altura a jornalista pergunta a Bragança de Miranda se ele nunca quis ser artista. O entrevistado diz uma série de coisas sobre o seu percurso pessoal e profissional e termina assim: "Felizmente, veio a Revolução que acabou com todas essas ilusões." Porquê, diz a jornalista?: "Porque a Revolução era bem mais importante. E foi um momento fantástico que só quem o viveu pode verdadeiramente perceber. Quem não teve a sorte de ter vivido o 25 de Abril tem que se contentar com os mundiais de futebol."(...). Daqui.

"Queda sem fim, seguido da Descida ao Maelstrôm, de Edgar Allan Poe" é o último livro de José Bragança de Miranda, professor de Teoria da Cultura, Cibercultura, Arte e Comunicação e Teoria Política.
Acompanho-o, lendo os seus livros, desde meados da década de noventa. Comecei a interessar-me pelos seus escritos quando assisti a uma conferência sua sobre corporeidade. José Bragança de Miranda, tem duas excelentes obras iniciais: "Analítica da Actualidade" e "Política e Modernidade".
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal"".
(Não é a primeira vez que faço
um post com esta citação).
Nunca se poderá acusar os professores de não terem avisado. Talvez até nem se esperasse que a sua capacidade de resistência, de argumentação e de desconstrução fosse a que foi. A história registará.
Foram tantos os diplomas legais nefastos que a dado momento tornava-se difícil focar a argumentação. Talvez fosse essa a intenção dos adversários do poder democrático da escola.
Há algum tempo que os professores (não escrevo sempre e também educadores por poupança compreensível) se dirigem em primeiro lugar à avaliação do desempenho, porque esse diploma encerra um quase fascismo por via administrativa e a sua queda pode projectar uma qualquer abrangência.
Quando vi dois ex-presidentes que respeito, Jorge Sampaio e Ramalhos Eanes, elegerem a avaliação de professores como a principal causa da nossa bancarrota, não tive qualquer hesitação em considerar que era por aí que devíamos avançar. Ao lembrar-me de Bragança de Miranda (Política e Modernidade, página 23), reforço essa ideia: "(...) há na política moderna uma afinidade com a questão do nihilismo (que impede a manifestação do político enquanto tal) e do totalitarismo que está verdadeiramente por pensar. Dissemos já que a ideia de política, sendo potencialmente a acção de muitos em absoluta liberdade, não pode ser realizada de uma vez para sempre (...)"
Estamos num caminho importante e que deve levar à queda deste modelo. É como encontrar uma agulha num sítio como o da imagem, que pode também ser sinónimo de bullshit.
O lume brando a que os modelos neotayloristas, como o da avaliação de professores, sujeitavam os seus destinatários, fazia parte do metabolismo pré-negocial das centrais sindicais e dos partidos políticos do passado - as massas ficavam sempre prontas a protestar -. O problema é que os tempos recentes desnudaram a hipocrisia e o cinismo e não raramente os seus autores foram apanhados em situações de flagrante e juvenil embaraço. E é bom que se diga que estávamos a lidar com situações requintadas que maltrataram as relações profissionais num nível inédito.
Assistimos a um de virar de página. Não haja ilusões. Como dizem Taylor e Saarinen, criou-se uma mediatrix por uma espécie de revolução despercebida. Dizem os autores de Media Philosophy: "Velocidade, velocidade e mais velocidade. Seria possível uma revolução ter lugar tão rapidamente que ninguém desse por ela?".
"Que em Auschwitz
as paredes não se rebelassem,
que o gás não se "arrependesse",
é o escândalo do silêncio de Deus,
mas também uma falha no humano."
José B. de Miranda,
Queda sem fim.
Portugal entrou num processo de queda sem fim? Os sinais começam a evidenciar o que em 16 de Abril deste ano escrevi aqui. A obstinação do governo com o modelo de avaliação de professores, colocando-o como ponto central da governação do país, só podia servir de cortina de fumo para algo preocupante. E isso é imperdoável. Não se perdoa aos membros do executivo que perpetraram a farsa, mas também aos que fizeram um coro comprometido. Sabiam que era outra a verdade, mas estavam acomodados aos mesmos privilégios. Até os famigerados 400 milhões atribuídos aos professores começam a supor outros destinos.
Já passei por um momento zero em que fiquei desprovido materialmente. Não é experiência que queira repetir. Há, todavia, qualquer coisa de positivo que começa a emergir. No estado em que estamos, é quase impossível inverter a queda e manter o sistema que a originou. Exige-se uma refundação. Nestes momentos, lembro-me deste parágrafo de um texto de José Bragança de Miranda.
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal""
Pode saber mais aqui.
"No jardim, uma rapariga com aquela idade indefinida em que ainda é criança e começa a deixar de o ser, passeava convictamente um cão. Estava a trautear uma melopeia repetitiva, desengraçada. Percebi que estava à espera... sem saber bem do quê! Já tinha visto esta imagem vezes sem conta. O tempo custa a passar porque se repete demasiado... e não avança."
De José Bragança de Miranda,
Algures no ciberespaço.

"Queda sem fim, seguido da Descida ao Maelstrôm, de Edgar Allan Poe" é o último livro de José Bragança de Miranda, professor de Teoria da Cultura, Cibercultura, Arte e Comunicação e Teoria Política.
Acompanho-o, lendo os seus livros, desde meados da década de noventa. Comecei a interessar-me pelos seus escritos quando assisti a uma conferência sua sobre corporeidade. José Bragança de Miranda, tem duas excelentes obras iniciais: "Analítica da Actualidade" e "Política e Modernidade".
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal"".
(Não é a primeira vez que faço
um post com esta citação).
"Por alturas do mundial de futebol a crise acaba" dizia a pessoa que estava sentada na mesa ao lado.
A propósito, recorro a um post que publiquei em Fevereiro de 2009:
A edição do JL (jornal de letras, artes e ideias), de 14 a 27 de Janeiro de 2009, tem uma interessante entrevista com José Brangança de Miranda. A certa altura a jornalista pergunta a Bragança de Miranda se ele nunca quis ser artista. O entrevistado diz uma série de coisas sobre o seu percurso pessoal e profissional e termina assim: "Felizmente, veio a Revolução que acabou com todas essas ilusões." Porquê, diz a jornalista?: "Porque a Revolução era bem mais importante. E foi um momento fantástico que só quem o viveu pode verdadeiramente perceber. Quem não teve a sorte de ter vivido o 25 de Abril tem que se contentar com os mundiais de futebol."

"A parábola do cego"
de Pieter Brueghel
"À modernidade deve opor-se a actualidade enquanto tensão que atravessa a relação entre o existente e o possível, entre o histórico e o elementar, entre o visível e o invisível.
A política joga-se nessa tensão.
O que está em causa é o agir livre, que se efectiva no combate entre o existente e o possível, entre o presente e o actual".
"Queda sem fim, seguido da Descida ao Maelstrôm, de Edgar Allan Poe" é o último livro de José Bragança de Miranda, professor de Teoria da Cultura, Cibercultura, Arte e Comunicação e Teoria Política.
Acompanho-o, lendo os seus livros, desde meados da década de noventa. Comecei a interessar-me pelos seus escritos quando assisti a uma conferência sua sobre corporeidade. José Bragança de Miranda, tem duas excelentes obras iniciais: "Analítica da Actualidade" e "Política e Modernidade".
"A imagem da queda é das mais profundamente incrustradas na cultura ocidental, tendo uma remota origem teológica, mas também correspondendo ao desejo milenar de escapar às forças gravitacionais que fazem cair todos os corpos para a terra. A queda era então um momento, talvez dramático mas provisório, da ascensão ou elevação. Na modernidade a imagem da queda sofreu uma mutação considerável. A leitura do conto de Poe, Descida ao Maelstrõm, serve de pretexto para apreender tal metamorfose, cuja compreensão se torna mais imperativa no momento em que se vai impondo uma cultura da "imaterialização" ou do "incorporal""


"A parábola do cego"
de Pieter Brueghel
"À modernidade deve opor-se a actualidade enquanto tensão que atravessa a relação entre o existente e o possível, entre o histórico e o elementar, entre o visível e o invisível.
A política joga-se nessa tensão.
O que está em causa é o agir livre, que se efectiva no combate entre o existente e o possível, entre o presente e o actual".
A edição do JL (jornal de letras, artes e ideias), de 14 a 27 de Janeiro de 2009, tem uma interessante entrevista com José Brangança de Miranda.
A certa altura a jornalista pergunta a Bragança de Miranda se ele nunca quis ser artista. O entrevistado diz uma série de coisas sobre o seu percurso pessoal e profissional e termina assim: "Felizmente, veio a Revolução que acabou com todas essas ilusões."
Porquê, diz a jornalista?: "Porque a Revolução era bem mais importante. E foi um momento fantástico que só quem o viveu pode verdadeiramente perceber. Quem não teve a sorte de ter vivido o 25 de Abril tem que se contentar com os mundiais de futebol."
(Reedição. 1ª edição em 14 de Março de 2009)
Já por aqui dei conta, diversas vezes, do meu agrado com a leitura dos textos de José Bragança de Miranda.
Encontrei um texto sobre a história que nem justifica palavras de circunstâncias.
Talvez a escrita até esteja um pouco descuidada (um espaço a mais aqui ou ali, uma gralha aqui ou acolá). Devo dizer que isso acontece amiúde no site de José Bragança de Miranda, mas os temas são sempre muito interessantes.
Ora leia.
"História.
Falou-se demais do «fim da história». A haver um fim, será o de uma certa imagem da história, que perdeu força e se tornou mesmo prejudicial às finalidades por ela prescritas.
Depois da primeira Guerra desaparece a ideia de civilização, depois da segunda, com o morticínio operado tecnicamente e em que sistemas racionais geriam o transporte em massa dos deportados e a sua aniquilação por químicos cientificamente doseados, desapareceu a própria ideia de uma razão impoluta e levando à «paz eterna». É certo que o problema estava mais na palavra «história», que pressupunha uma narrativa relativamente coerente e que encenava ela própria o seu happy end. Contra esta visão temos a fantástica frase de Pasternak, ele que estava metido até aos cabelos no problema: «A história não é feita por ninguém, não é possível vê-la, tal como não se vê a erva a crescer».
Mas é evidente que, de repente, vemos que a erva cresceu, ou que um filho cresceu, fez-se história sem ninguém a fazer. Não entendo que Pasternak esteja a defender que tudo ocorre espontaneamente, sem saber. Nada disso, a frase citada é uma forma de dar a ver o imperceptível de onde emerge tudo, e também a história.
A primeira vez que li esta frase foi no exergo a L’Herbe de Claude Simon, onde as personagens são habitadas por forças anónimas que fazem surgir coisas que nenhuma preparou nem produziu. Como apreender este crescer que passa pela materialidade das coisas, mas que não repousa em nenhuma delas? E que é bem mais radical do que a erva que, sem tudo o mais, a terra, a água, as raízes em concorrência brutal, seria possível ver crescer, bastando dar tempo ao olhar? O imperceptível onde se faz a história tem de ser apanhado aqui e agora, como o olhar que vê a erva e não vê a sua mudança. Ela escapa à instantaneidade do olhar. A escrita de Simon torna-se na erva que cresce sem se ver, complicando-a labirinticamente. Na totalidade dos momentos vê-se que cresceu, mas em cada um deles, não. Mas a potência da escrita advém-lhe da afinidade com o estranho poder da fotografia: «Nenhum espírito humano consegue guardar na memória o que foi abraçado pelo olhar numa dessas incessantes fracções de segundo que o tempo faz sucederem-se a uma velocidade de tal modo vertiginosa que mal eu traço a última letra de uma palavra, se tornou passado o gesto do minha mão a desenhar a anterior».
Percebe-se porque não é possível ver o movimento no momentâneo, é que as mudanças imperceptíveis perdem-se incessantemente, caindo numa espécie de «buraco»deixado pelas coisas a mudar. Algo fica sempre para trás, sem deixar vestígios, e que apenas a fotografia pode reter, insinuando-se no espaço ínfimo que está entre o que ainda não existe e aquilo que deixou de existir. Este tipo de história é primeiramente literário, ou poético. Estando em causa a totalidade dos tempos, das coisas e dos actos, cada traço feito pela escrita da luz, entra num jogo e sombras, de reflexos, de clarões, através dos quais se faz história.
Elimina-se, então, a estranheza de não existir em nenhum lado, de ninguém a fazer, mas de estar sempre a ocorrer".
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