Em busca do pensamento livre.

Sábado, 15.04.17

 

 

(1ª edição em 21 de Janeiro de 2009)

 



 
 
Quem se mete na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e concentra-se no tratamento da informação.

 

Podia optar por "sistema escolar por blocos", mas o conceito de bloco da precaução reforça duas ideias: é o que mais asfixia o privilégio de ensinar e contamina de modo decisivo os outros dois blocos: o do ensino e o da organização escolar.
 
Importa estabelecer duas questões prévias:
 
A função primeira da escola é o ensino. Sabe-se muitas maneiras de ensinar, mas pouco sobre o modo como cada um aprende. Se em relação à forma como cada cérebro processa as suas aprendizagens a palavra-chave é ignorância, então é avisado não se hierarquizar, sem evidências objectivas, os métodos de ensino. Esse atrevimento selectivo, docimológico e algo dogmático, tem provocado inúmeras polémicas;
 
Os critérios determinantes para os sistemas de suporte à tomada de decisões, obedecem à hierarquização de três categorias sobre o seu tratamento: delimitar, obter e fornecer. Deve ser feita uma análise aturada que estabeleça a informação que é estruturante para, depois, a obter e fornecer em tempo real, com o recurso a novas tecnologias, e com o imperativo de produzir conhecimento (estruturante das organizações).

 

 

Situemos a argumentação e façamos a caracterização dos três blocos.

 

O bloco do ensino é o lugar que determina a actvidade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seu alunos.

 

O bloco da organização escolar é o espaço que cria as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência da produção de conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.

 

O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe porque está determinado de modo central através das invenções técnico-pedagógicas do MEC. E é aqui que encontramos um elenco de má burocracia: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, definição de objectivos com variadas designações, e por aí fora numa lista interminável.

 

A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do MEC e alastra-se à organização de muitas das escolas.

As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitas organizações escolares. E isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.

Este bloco, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia na gestão da informação escolar, é difícil de derrubar.

 

O porvir de um muro é tão diverso quanto o propósito da sua edificação. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, o obstáculo acaba por ceder e cai. O que mais impressiona nas quedas é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: começaram por crer nas virtudes dos dogmas, sustentarm as suas vidas na acomodação aos cinzentos privilégios dos funcionários dessas sociedades e acabaram como defensores acérrimos de burocracia monstruosa e desprovida de qualquer sentido libertador da condição humana.

 

A situação dos professores portugueses pode explicar-se deste modo: imersos num tentacular assombro burocrático da cinco de Outubro e da restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") ficam atónitos, surpresos, mas ainda esperançosos: têm, em quem governa o MEC, um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas.

 

Contudo, foi possível identificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do seu arrastamento insuportável. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor.

 

Também por precaução se deixou de falar nisso.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 16:00 | link do post | comentar | ver comentários (24) | partilhar

Sábado, 02.08.14

 

 

 

1ª edição em 2 de Julho de 2009.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho ideia que foi por altura da greve de professores de Janeiro de 2009 que uma jornalista do jornal Público entrou em contacto comigo para conversarmos mais uma vez sobre o tema. A conversa foi parar a um texto que tinha publicado neste bloque: o bloco da precaução, aqui.

 

A jornalista manifestou interesse em publicá-lo na edição impressa do jornal mas numa versão que eu teria de reduzir de modo substancial. Ao fim de umas duas ou três versões, construídas em tempo reduzido e apressado, o texto foi parar às cartas ao director na edição do dia seguinte à greve, julgo eu.

 

Pode ler agora ou voltar a ler se for caso disso (mas pode também usar o link referido e dar uma vista de olhos pela edição completa, digamos assim).

 

O muro que asfixia as escolas e os professores.

 

Quem quer que se meta na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e concentra-se no tratamento da informação.

Podia optar por "sistema escolar por blocos". Mas o conceito de bloco da precaução torna mais inteligível o que quero exprimir e reforça duas ideias: é, como espero que se veja, o bloco que mais asfixia o privilégio de ensinar e contamina de modo decisivo os outros dois: o do ensino e o da organização escolar.

Este bloco da precaução, que foi construído paulatinamente e que criou um muro de burocracia na gestão da informação escolar, é quase tão difícil de derrubar como o muro de Berlim.

O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe porque está determinado de modo central através das invenções técnico-pedagógicas do ministério da Educação. E é aqui que encontramos um imenso elenco de invenções burocráticas: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, definição de objectivos com variadas designações de acordo com os gostos e os feitios dos promotores de ocasião. A lista é interminável.

A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do ministério da Educação e alastra-se de modo quase acéfalo à organização de muitas das escolas. As invenções burocráticas devidamente preenchidas são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino; isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.

Só assim foi possível verificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do arrastamento insuportável desta coisa sem pés nem cabeça. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor. Também por precaução se deixou de falar nisso.


 



publicado por paulo prudêncio às 11:50 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 24.06.10

 

 

 

 

Um dos argumentos que o Ramiro Marques utiliza, aqui, a favor dos mega-agrupamentos - "de como os mega-agrupamentos podem reduzir o controlismo sobre os docentes e as funções burocráticas e administrativas" - tem a minha discordância. Embora quem acompanhe o discurso do Ramiro Marques a propósito desta questão encontre uma forte carga irónica nos seus textos, desta vez a pertinente formulação que levanta está longe de ser provada.

 

Quando discuto modelos de gestão tenho sempre o cuidado de afirmar que há pessoas que funcionam bem em qualquer modelo e que as boas práticas têm uma relação directa com a cabeça que as utiliza.

 

Nesta caso, trata-se de perceber se a maior dimensão favorece a redução de procedimentos de má burocracia. Como já deixei implícito, defendo a tese contrária. Inscrevo nesse aumento a necessidade de generalizar instrumentos de obtenção da informação sem que o seu alcance no processo de tomada de decisões seja devidamente analisado. São os riscos da ausência de proximidade: nas relações humanas, mas também na mobilização dos diversos actores para a construção dos sistemas de informação. Sem esta última asserção, nunca se verificará uma cultura organizacional diferenciadora. E não esqueçamos: estamos a discutir à volta de uma organização que se dispersa (não usei o verbo no futuro, porque elas já existem; desgraçadamente) por vários edifícios.

 

Em regra, e num sistema muito dependente do poder central, a lógica de maior dimensão tende a tornar-se numa mera correia de transmissão informativa. Pretenderá introduzir procedimentos de má burocracia apenas para arquivo. A intenção primeira será a de garantir uma aparência de controle que satisfaça os requisitos da avaliação externa. No caso português será uma tragédia.



publicado por paulo prudêncio às 22:09 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 23.05.10

 

 

Foi daqui

 

 

 

Quem quer que se meta na aventura de reflectir sobre o estado do sistema escolar português pode escolher os mais variados pontos de partida. A minha opção navega na história mais recente e encontra no tratamento da informação o seu desígnio primeiro.

 

Podia optar por outra designação: "sistema escolar por blocos". Mas a ideia de bloco da precaução tem duas vantagens: é o bloco que mais asfixia o privilégio de ensinar e pode tornar mais inteligível o que quero exprimir.

 

Importa estabelecer duas questões prévias:

A função primeira da escola é o ensino. Mas mais: sabe-se muitas maneiras de ensinar mas pouco sobre o modo como cada um aprende. Se em relação à forma como cada cérebro processa as suas aprendizagens a palavra-chave é ignorância, então é avisado não se hierarquizar os métodos de ensino. Esse atrevimento selectivo, docimológico e algo dogmático, tem provocado inúmeras polémicas;

Os critérios determinantes para os sistemas de suporte à tomada de decisões, obedecem a três categorias sobre o tratamento da informação: delimitar, obter e fornecer. Deve ser feita uma análise aturada que permita estabelecer a informação que é estruturante para, depois, a obter e fornecer, em tempo real, com o recurso a novas tecnologias e com o imperativo de produzir conhecimento (estruturante das organizações).

 

Consideremos três blocos e caracterizemo-los então.

 

O bloco do ensino é o lugar que determina toda a actividade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seu alunos.

 

O bloco da organização escolar é o espaço que se destina a criar as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência que produza conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.

 

O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe por dois motivos: ou porque está determinado de modo central, muitas vezes com a supervisão das auditorias externas (vulgo Inspecção-geral da Educação) dos serviços centrais do ministério da Educação, ou porque emergiu das invenções técnico-pedagógicas em que se transformaram o ministério da Educação e as escolas de formação de professores. E aqui encontramos um inumerável elenco de invenções burocráticas: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, programas educativos individualizados, documentos definidores de objectivos com designações variadas de acordo com os gostos e os feitios dos promotores de ocasião, e por aí fora numa lista que podemos considerar como quase interminável.

 

Este bloco da precaução, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia no exercício da gestão da informação escolar, é tão difícil de derrubar que essa tarefa só é comparável à queda do muro de Berlim.

Sobre o muros dos professores portugueses escrevi, em tempos, assim:


“há muros por tantos lados que o seu porvir é tão diverso quanto os propósitos das suas edificações. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, e por muito consistente que seja a argamassa que as compõe, o obstáculo acaba por ceder e cai de modo drástico e estrondoso. 

O que mais impressiona nas quedas, e remeto-me para a do muro de Berlim, é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: em muitos casos, começaram por crer nas virtudes dos dogmas; depois, sustentaram as suas vidas na acomodação aos manipulados e "cinzentos" privilégios dos funcionários médios e superiores dessas sociedades; por fim, acabaram como defensores acérrimos de burocracias monstruosas, repetitivas e desprovidas de qualquer sentido libertador da condição humana.

A situação dos professores portugueses pode explicar-se do mesmo modo: imersos num tentacular assombro burocrático, que começa no "muro" da 5 de Outubro para alastrar-se à restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") estão atónitos, mas ainda esperançosos: têm, nas equipas que têm governado o ministério da Educação, uma força de vanguarda e um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas, trabalhadas árduamente durante décadas.”

 

A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do ministério da Educação e alarga-se de um modo “impensado” à organização da maioria das escolas. A sua operacionalização através dos recursos humanos que requisita é responsável por um custo financeiro que tem tanto de volumoso como de ineficaz.

 

As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitos estabelecimentos de ensino. E isso retira sentido de autonomia, de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência, de medo e de despesismo financeiro

 

Só assim foi possível verificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do arrastamento insuportável desta coisa sem pés nem cabeça. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor. Também por precaução se deixou de falar nisso.



publicado por paulo prudêncio às 17:00 | link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar


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Autor:
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