Em busca do pensamento livre.

Quarta-feira, 08.03.17

 

 

 

Após catorze anos de carreiras congeladas (2003 é a data inicial), muito antes, portanto, da troika, é natural a hipersensibilidade ao tema. Fala-se de retroactivos na ordem dos 500 milhões de euros. Mesmo que a quantia seja, por exemplo, um oitavo dos 4 mil milhões do Estado (o anterior Governo até prometeu lucros) que voaram no Novo Banco, ponderam-se os objectivos orçamentais no adiamento com carácter definitivo (para ser brando). Mas exigem-se explicações.

O que torna o assunto menos aceitável, é que não se posicionem as pessoas em 2017, 2018 e 2019 no escalão referente aos seus requisitos legais.

O que é inaceitável é o anúncio, não desmentido, "que para subir na hierarquia do Estado vão ser precisos prémios e promoções". Assiste-se com perplexidade ao regresso do pesadelo kafkiano do mérito-para-as-massas. Bem sei que António Costa anunciou o simplex dois com um animal a voar, mas mesmo que se goste muito de Marc Chagall (um mestre nos seres vivos voadores) não há atenuantes: as pessoas estão saturadas deste género de voo.

 

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Marc Chagall.

 Albertina museum. Viena. Agosto de 2015.



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Terça-feira, 07.03.17

 

 

 

Os totalitarismos estabelecem-se através de leis. Desde logo, com as que são impossíveis de cumprir. Com a velocidade legisliva, é natural que os destinatários se interroguem com a vigência. Faz tempo que o direito abandonou a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso". Nesse sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam a ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.

 

Importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "presença" (nem que seja por alheamento) da maioria das pessoas. As sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e como foi dito, pela construção de leis impossíveis de cumprir, mas também por práticas anti-democráticas. Podemos pegar em muitos exemplos. São casos de "impossibilidade" que criaram um estado de sítio legislativo. Em muitos casos, só o fingimento permite o "cumprimento" legal.

 

Para a partilha no facebook acrescentei:

 

Estranhei o conteúdo inocente na SIC (nem sabia e recorri à box). Um juiz tão naïf? E esta mediatização agora? Este nonsense? Acabei de ler a entrevista ao Expresso (dada antes da outra) e percebi muito mais. "Querem afastar-me de tudo; estou cercado; sou escutado; tenho manuais de espiões à porta; decidi falar; são alocados tostões à justiça e milhões à recuperação bancária". Sim; o Juiz Carlos Alexandre pode ser acusado de estar aos papéis em alguns processos, e daí a mediatização, mas a sua narrativa é tão interessante. Sei lá: aconselho a obra maior de Laurence Sterne (e da literatura), "A vida e opiniões de Tristram Shandy". Nota: quando, e durante meses, ou anos, a fio, ligamos a determinados amigos (mais ainda se forem bloggers) e as chamadas são ruidosas e difíceis, e não raramente vão parar ao voice mail, significa que estamos a ser escutados? E anda uma pessoa a trocar de telefone e a dizer mal do hardware:)

Usei parte deste texto noutro post.

1ª edição em 16 de Setembro de 2016.

 

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Segunda-feira, 06.03.17

 

 

 

Diz o Público que "a reestruturação da função pública vai ter limites às progressões e que para subir na hierarquia do Estado vão ser precisos prémios e promoções". A ideia arrepia e compreende-se a apreensão dos que falam do regresso da cultura Lurditas D´Oiro. Por favor: isso não! O "dividir para reinar" com um suposto mérito-para-as-massas é aterrador. Dá ideia que a patologia kafkiana (para ser brando) passou dos bastidores para a primeira linha. Se há pessoas com memória curta, obriguem-nas a ver o "Eu, Daniel Blake".

 

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Sexta-feira, 10.02.17

 

 

 

Os resultados dos alunos melhoram em proporcionalidade directa com os aumentos da escolarização da sociedade e do número de pessoas da classe média (ou da redução de pobres), num processo que exige tempo. Este princípio elementar é confirmado por Portugal nos resultados PISA, de 2000 a 2015, que testa alunos de 15 anos em competências (e não nos tradicionais conteúdos disciplinares) de leitura, ciência e matemática. Mesmo que as principais políticas educativas dos diversos governos tenham sido (em regra e reconhecido pelos próprios) inaplicáveis, inexequíveis, com radicalismo ideológico, contraditórias ou incoerentes, a ambição escolar das famílias, associada à capacidade dos professores na adaptação das aulas aos alunos (os professores portugueses são os melhores da OCDE neste requisito), assegura o progresso dos resultados.

A Europa "concluiu" a massificação escolar no período em que Portugal a iniciou: a década de setenta do século passado. Em 2003, já iniciávamos uma recessão escolar coordenada pelos ministros que se vêem na imagem, com excepção do moderador, Marçal Grilo, que é do tempo expansionista. Esse despovoamento a eito do território, em modo de mega-escala desconhecida no mundo estudado, foi a linha condutora entre os ministros (como nestes assuntos os resultados são a médio e longo prazos, o INE acaba de anunciar que o abandono escolar precoce aumentou em 2016, depois de 13 anos em queda, com saliência para o número de jovens que não concluiu o 12º ano; desde 2002 que isso não acontecia). A jornalista do Público titulou a notícia do encontro de ministros com mais um momento de delírio revisionista: "Maria de Lurdes Rodrigues diz que a avaliação de professores terminou em Portugal". É difícil ler o texto sem abanar a cabeça ou sorrir e a culpa não será da jornalista.

 

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Terça-feira, 13.12.16

 

 

 

É natural que apareça um "manifesto que pede menos poder para os directores escolares", que é uma forma de defender a alteração do que existe e o "regresso da democracia às escolas". Foi em 2008 que Lurdes Rodrigues impôs, com a ajuda obstinada de Sócrates e o apoio fervoroso do arco governativo da altura, o modelo vigente, que é uma espécie de "pilar" sobrevivente. Os outros - professores titulares, estatuto do aluno-cliente e avaliação dos professores - caíram por inaplicabilidade (isto para ser brando), embora o último mantenha um estado deplorável de faz de conta ajudado pelo congelamento eterno das carreiras. Estes quatro "pilares" dilaceraram a atmosfera relacional nas escolas, que foram de seguida flageladas pelo além da troika apimentado com dois devaneios cratianos: indústria de exames e afunilamento curricular. Pergunta-se: mesmo assim os resultados dos alunos melhoraram? Claro que sim; até dos menos favorecidos. Há muito que se sabe que cerca de 60% do sucesso escolar se deve à sociedade (com destaque para a ambição escolar das famílias). Os restantes 40% (a organização das escolas e o desempenho dos professores) beneficiaram da capacidade de resiliência dos segundos como os estudos internacionais não se cansam de sublinhar (são os melhores dos países da OCDE a adaptar as aulas aos alunos).

 

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Sábado, 19.11.16

 

 

 

Escrevi assim em 30 de Março de 2011:

 

Vi ontem um debate na TVI24, moderado por Constança Cunha e Sá, com a participação de Medeiros Ferreira, Santana Lopes e Fernando Rosas. Santana Lopes introduziu a avaliação de professores para condenar a oposição. Medeiros Ferreira foi taxativo: o problema estava no modelo. Uma coisa que nasce errada acaba por cair, mesmo que tarde e de forma errada. Fernando Rosas concordou.

 

A moderadora alegou com a cedência às corporações. Medeiros Ferreira voltou a ser taxativo: para além dos partidos e dos sindicatos, há outras forças na sociedade e não concordo que se possam classificar como negativas; pelo contrário, têm é de ser ouvidas. Medeiros Ferreira mostrou, mais uma vez, estar atento e informado.



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Sexta-feira, 30.09.16

 

 

 

 

Passar do eduquês I (escola a tempo inteiro com afectos) para o eduquês II (escola a tempo inteiro com exames) é "suportável" uma vez. A rotatividade "eterna" (temos décadas de alternância) explica o burnout de professores e os persistentes números de insucesso e abandono escolares.

 

Centremos o debate no seguinte ângulo de análise: o importante estudo do cérebro continua a concluir que é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento sobre o seu funcionamento; António Damásio, por exemplo, sublinha-o no sentido do texto na imagemO ensino, a aprendizagem e os desenhos curriculares não escapam a isso. O alargamento curricular tem fundamentos e só em discussões ideológicas datadas é que se advoga o regresso ao back to basics (ler, escrever e contar). Quando um sistema escolar está "tão avançado" que se dá ao luxo de cortar investimentos, o conhecimento exige que o faça por igual nas diversas áreas.

 

É precisamento por isso que a humildade é inalienável. Quando se decide nestes domínios, avalia-se o estado em que se encontra essa qualidade imprescindível a um sistema escolar. Nuno Crato e Lurdes Rodrigues eliminaram-na, embora a "rotatividade" eduquesa tenha raízes anteriores. É o espaço de fusão entre as duas versões do eduquês que parece, fatalmente, de pedra e cal. Os deputados do PS que o digam a propósito da avaliação da sua produtividade.

 

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Daniel Kahneman (2011:73), "Pensar, Depressa e Devagar", Temas e Debates, 

Círculo de Leitores, Lisboa.



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Quinta-feira, 11.08.16

 

 

 

O Paulo Guinote escreveu um parágrafo muito certeiro:

 

"(...)Está por fazer o cálculo completo dos que abandonaram a profissão nessa mesma década, por aposentação ou rescisão, voluntariamente, mesmo com elevados cortes na remuneração, só para fugir ao manicómio em que se transformaram algumas escolas a partir do momento em que o discurso da add meritocrática e titularizada se impôs e passámos a ter a única profissão cronometrada fora do desporto. Curiosamente, com o apoio de gente que defende muita liberdade pedagógica e salas sem portas ou paredes."

 

Será que os opinadores e comentaristas não sabem que as carreiras estão há mais de oito anos congeladas e que há milhares de professores com salários líquidos pouco acima dos 1200 euros que não beneficiam de qualquer reposição salarial? O que a actual execução orçamental começa a comprovar é que não há qualquer caos com a redução de impostos para pequenos empresários e com a reposição de salários e pensões. Mas isso não esconde o que falta fazer e o Governo sabe-o muito bem. Para além disso, as imagens alojam-se e inscrevem os acontecimentos mais significativos que continuam por reverter: anos a fio com a avaliação do desempenho kafkiana (salva-se a inutilidade), mais turmas com mais alunos em horários ao minuto, inutilidades horárias, hiperburocracia, espectro de horário zero até para professores com mais de cinquenta anos e mais de trinta anos de serviço, professores contratados com anos a fio de serviço e megagrupamentos com um modelo de gestão "impensado" que transportou a partidocracia para dentro das escolas. É natural que a indignação cresça quando se apela ao silêncio.

 

(Este parágrafo não é inédito, mas a repetição é um dever. Reescrevi-o.)



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Segunda-feira, 25.07.16

 

 

 

 

"90% dos alunos considera que o sucesso escolar se deve mais ao seu esforço do que aos professores. Apenas 10% considera que ser bem sucedido se deve aos professores". Ora aí está um estudo que a plêiade de especialistas em Educação, de governantes da última década a comentaristas profissionais e passando por sei lá quem mais, tudo fará por ignorar. Tenho insistido neste algoritmo, construído com elementar bom senso, que vai no sentido do estudo mas que "desempregava" toneladas de burocratas escolares. Como se observa no desenho, os alunos reconhecem a autoridade escolar dos professores.

 

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Sexta-feira, 08.07.16

 

 

 

"Aceitei estar aqui, mas tem de me deixar explicar tudo", disse MdCR, em representação da ministra Lurdes Rodrigues, para Fátima Campos Ferreira num prós e contras da RTP1 no auge da guerra da avaliação de professores (2008). E explicou: "pela primeira vez há uma avaliação com rigor: pontuação de 1 a 10 e quotas. Criámos 4 dimensões na avaliação. Para cada uma há 5 domínios (20 no total). Tudo pontuado de 1 a 10. Aplicam-se as quotas. O resto é com as escolas."

 

E o que era o resto? Para cada domínio (20 no total), havia 5 indicadores (100 no total). Para cada um dos 100 indicadores, existiam 10 descritores (1000 no total) para cumprir com rigor a pontuação de 1 a 10.

 

Este sumário do inferno encontra sinais de um qualquer retorno? É bom avisar antes que seja tarde quando se começa a perceber o programa para o sucesso escolar. E era uma pena, convenhamos que era. O pior eduquês tem tendência para começar na estratosfera central e ganhar asas até nos locais mais recônditos.

 

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Antero 



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Quarta-feira, 08.06.16

 

 

 

 

Os problemas da escola pública não se esgotam, obviamente, na importante questão dos "privados" e uma qualquer manifestação em sua defesa tem que ter mais pontos de agenda. É que há vida para além das finanças. Há, por exemplo, a democracia.

 

"O director de turma deve ser avaliado, com pontuação rigorosa e cotas, pelo abandono escolar dos alunos". A frase que escolhi, dita com convicção por Lurdes Rodrigues, sintetiza um conjunto de "Novas Políticas de Gestão Pública" que se tornou fatal para a escola pública. 

 

Se desconstruirmos a frase, encontramos: desresponsabilização da sociedade, escola a tempo inteiro, crianças-agenda e jovens-vigiados em simultâneo com o estatuto do "aluno-rei", transformação da carreira de professores em "agentes recreativos" e modelo taylorista de gestão escolar com sobreposição da lógica, "impensada" em educação, do "cliente-tem-sempre-razão".

 

Não satisfeitos, novos governantes acrescentaram: mais alunos por turma, mais turmas por professor, indústria de exames, divisão curricular em disciplinas estruturantes e outras, degradação da imagem do professor e da organização da escola pública. Com uma década assim, que resultados se esperariam? Não faltam, portanto, pontos fundamentais para agendar.

 

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Terça-feira, 12.04.16

 

 

 

Já passei os olhos pelo Plano Nacional de Reformas e pelo Plano Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, e olhem que não foi fácil, e nem uma linha sobre a avaliação de professores que mantém o regime de farsa porque as carreiras há muito que "congelaram de vez". Será que o Governo sofre de esquecimento ou o legado de prestação de contas de Sócrates e Rodrigues é exemplar e intocável?

 

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Antero



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Terça-feira, 08.03.16

 

 

 

Foi comovente ouvir a unanimidade dos jovens adultos emigrados (a maioria contra a vontade) na exaltação da escola pública das últimas décadas (e apesar da descida dos últimos dez anos). Imagina-se a irritação das "elites"; e não só, claro. O "prós e contras" da RTP1 já tem história e o de ontem não foi pioneiro na presença simultânea de Ramalho Eanes e Jorge Sampaio que não se cansaram de sublinhar e reforçar as exaltações referidas. Recordo este post de 18 de Outubro de 2010, também com a presença dos dois ex-Presidentes, em que escrevi assim:

"Quando vejo dois ex-Presidentes elegerem a avaliação de professores como um dos principais exemplos do coma financeiro que atingiu o país, convenço-me que não temos solução. É falência pela certa. Não sei o que Ramalho Eanes e Jorge Sampaio sabem de avaliação de professores, mas sei que a avaliatite situou-se no primeiro lugar das duas ou três causas com que retratam a pré-bancarrota.(...)"

As sociedades seriam bem diferentes se os humanos "perdessem" um minuto a colocarem-se, como na imagem, no lugar do outro antes de sentenciarem o que quer que fosse. Bastavam até duas elementares interrogações: e se fosse ao contrário? E se fossem os outros, por exemplo, a acusarem os ex-Presidentes pelo estado em que estamos?

 

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Terça-feira, 26.01.16

 

 

 

 

Os totalitarismos estabelecem-se através das leis. Desde logo, com a produção de leis impossíveis de cumprir (ou de evidente má qualidade). Mas com a velocidade com que se legisla, é natural que os destinatários do direito se interroguem com a vigência. Faz tempo que o direito abandonou a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso". Nesse sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam a ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.

 

Lançados alguns argumentos, importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "vontade" da maioria das pessoas. As sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e como foi dito, pela construção de leis impossíveis de cumprir, mas também por práticas anti-democráticas ou corruptas.

 

No caso do sistema escolar, podemos pegar em muitos exemplos. São casos de "impossibilidade" que criaram um estado de sítio legislativo. Em muitos casos, só o fingimento permite o "cumprimento" legal. Não podemos acusar de premeditação totalitarista os seus inventores, mas temos de dizer-lhes que não nos temos cansado de avisar.

 

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Quarta-feira, 30.09.15

 

 

 

Não é rigoroso, e é até pior do que isso, generalizar a ideia: não querem é ser avaliados.

 

Como a "prestação de contas" foi a expressão-chave mais repetida no que levamos de milénio pelos que a exigiam aos outros, o esmagamento das classes média e baixa usou essa formatação burocrática em clima de totalidade enquanto a classe de casino se movimentava na libertada engenharia financeira. Foram poucos os que resistiram (não queriam ser avaliados, claro), e não era mesmo nada fácil, e sofreram com isso. 

 

As administrações públicas foram alvos semelhantes às empresas, com uma analogia mais evidente com as de grande escala. A avaliação de desempenho burocrática, com fuga aos "olhos nos olhos", foi o método de controle escolhido que se transformou em "tormento". Está comprovado que os processos administrativos de avaliação não introduziram aumentos na produtividade. A robotização, que consegue, grosso modo, que uma pessoa produza o mesmo que três é uma discussão cada vez mais presente e aumentam as vozes que "exigem" aos robots descontos para a segurança social. Mas isso já é tergiversar e nada tem a ver com a avaliação burocrática.

 

Por outro lado, a redução de salários foi um objectivo plenamente conseguido; mas não foi o único aspecto negativo.

 

A democracia foi desaparecendo das organizações. A possibilidade da pergunta de proximidade foi substituída pela burocracia numa engrenagem diabólica que favoreceu o controle como método relacionado com o temor. A atmosfera relacional intoxicou-se e a produção reduziu-se desde logo pelo tempo gasto em registos repetidos e inúteis pomposamente designados pelo vocabulário da má burocracia. As organizações abandonaram os ideais de inovação e simplificação e deram lugar ao controle mútuo das pessoas. A cooperação foi substituída pela obsessão individualista associada aos fenómenos mais conhecidos do mundo do trabalho actual: desesperança, saturação, fuga, burnout out e medicação excessiva e sem controle.

 

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Sexta-feira, 11.09.15

 

 

 

Há, desde logo, uma questão de financiamento, e de conceitos, a rever: a lei é clara: a escola pública, financiada integralmente pelo Estado, pode exercer-se em dois modos de gestão: directamente pelo Estado ou através de cooperativas de ensino. As segundas, que por princípio normativo só podiam existir nas zonas onde não chegava a rede de escolas públicas geridas directamente pelo Estado, adulteraram a sua função. Com a chegada ao sistema dos descomplexados competitivos vocacionados para a privatização de lucros através do orçamento de Estado, as escolas geridas pelas cooperativas afirmaram-se como privadas numa concorrência também desleal para esse tipo de ensino financiado integralmente com as propinas dos utentes. Ou seja, deixou de fazer sentido a designação de dois tipos de escolas públicas financiadas pelo Estado e isso deve ser legalmente revisto.

 

Mas há um discurso que remete para a exaustão com as mudanças, apesar do que levamos de milénio marcar o sistema escolar por descidas mais do que comprovadas: cortes curriculares a eito, mais alunos nas turmas, modelo, mega, de gestão escolar sem paralelo no mundo civilizado, perda de autonomia das escolas, rede escolar com desperdícios financeiros inadmissíveis, teias burocráticas (analógicas ou digitais) consumidoras de energias vitais, péssimo modelo de avaliação de professores, concursos de professores pejados de injustiças e irregularidades, estatuto da carreira dos professores completamente desestruturado e por aí fora. Afirmar que nada disto deve ser mudado porque as gerações que governam estão acomodadas, cansadas ou desiludidas, é manifestar uma desistência perigosa para a democracia e caracteriza uma sociedade que parece caminhar para uma convulsão com data anunciada.

 

 

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Quarta-feira, 05.08.15

 

 

 

"O CEO da Covey Leadership Center e líder do Global Speed of Trust Practice já integrou a lista dos 25 americanos mais influentes da revista Time e esteve em Lisboa para a Happy Conference, onde falou sobre a importância vital da confiança no poder das organizações."

 

A confiança é a moeda essencial para a economia. Nos sistemas escolares é a palavra chave desde há muito. A confiança nos professores é decisiva para eliminar a má burocracia. A palavra de um professor vale menos do que um qualquer relatório, mesmo que seja um "copiar e colar". A quebra de confiança reflecte-se na disciplina na sala de aula. A constante degradação mediática da imagem dos professores só é superada pelas políticas que os desacreditam nas organizações escolares. É um ranking ensandecido. Tudo começa no estatuto do aluno, passa pelo dos professores e pela sua avaliação e prossegue nos modelos de gestão escolar. Se para Stephen Covey é esse o caminho que existe, para o sistema escolar trata-se de o recuperar. Quanto mais tarde o fizermos, mais depauperada ficará a democracia.



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Terça-feira, 21.07.15

 

 

 

 

Não há país do euro, e julgo que nem da União, que avalie o exercício dos professores com pontos e percentis (quotas). Na maioria nem sequer há avaliação, havendo quem pratique as inspecções pedagógicas que validam, ou não, a continuidade do exercício.

 

Em Portugal continua em vigor um desmiolo que pontua com percentis e com base em relatórios de três páginas. Há mais umas coisas insanas que não "estalam" porque as progressões na carreira estão congeladas e porque grande parte dos professores já só contam os dias que faltam para a "fuga".

 

Para além disso, qualquer pessoa medianamente sensata levaria as mãos à cabeça com a incompetência do legislador e com as toneladas de horas que professores avaliadores e assistentes administrativos gastam à volta de uma farsa que, aqui e ali, dá murros na dignidade das pessoas. É um bom exemplo de improdutividade que explica o que escrevi no título e que nos deixa isolados na Europa (julgo que só os gregos têm produtividades assim; e mesmo assim).

 

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Domingo, 24.05.15

 

 

 

A carreira dos professores tem como ponto central a sala de aula. Tudo o resto existe, ou deve existir, para criar as melhores condições para essa realização. Em qualquer patamar da carreira, os professores podem exercer o mesmo serviço, leccionar a mesma turma ou o mesmo programa. A idade conjugada com o tempo de serviço deve proporcionar a redução do exercício lectivo.

 

Os últimos governos portugueses traçaram um objectivo: dividir os professores; quebrar a "massa". Convencidos que essa "massa" era dirigida pelo partido comunista, estabeleceram três instrumentos para o "massacre" (palavras de António Nóvoa e que foram, no caso do PS, confessadas por António Costa e por uma dirigente que se referiu à "massa que quebra"): estatuto da carreira, avaliação do desempenho e gestão escolar.

 

"(...)O fenómeno mais importante que se desenrola no seio da massa é a descarga. Antes disso, a massa não existe propriamente, é a descarga que, realmente, a constitui. É o momento em que todos aqueles que dela fazem parte se libertam das suas diferenças e se sentem como iguais.

Entre essas diferenças, há que pensar, sobretudo, nas que são impostas do exterior, distinções de categoria, de classe e de posses. Os homens, enquanto indivíduos, estão sempre conscientes dessas distinções, que pesam seriamente sobre eles e os obrigam, com muita severidade, a distanciar-se uns dos outros.(...)"

 

Canetti, Elias, (2014:16). "Massa e Poder". Cavalo de Ferro. Lisboa.



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Quinta-feira, 07.05.15

 

 

 

Custa muito a crer que as políticas educativas da última década não tenham sido desenhadas para destruir a escola pública. Sim, dito assim sem tibiezas. O desrespeito pelo esforço da elevação organizacional da escola em plena massificação da escolaridade acentuou-se poucos anos depois da mudança de milénio. Mandatos escolares sem tempo legal e concursos de professores recheados de ilegalidades, permitiram a regência em roda livre de políticos de arrepiar.

Enquanto isso, os Donos Disto Tudo saciavam-se com as obras públicas e só a aproximação da bolha imobiliária os fez derivar para a Saúde. A Educação era ainda uma coutada livre para os modelares-GPS. Os yuppies do arco governativo desprezavam a Educação.

Conclusão: a impreparação tomou conta da máquina escolar. Avaliações kafkianas, estatuto da carreira terraplenado, modelo de gestão escolar "impensado", escolas amontoadas, turmas com mais alunos, professores com mais turmas, inutilidades informacionais como serviço não lectivo, burocracia em regime bacteriano e podíamos ficar aqui uma boa hora a elencar causas de uma fuga anunciada. Já são muito poucos os professores que não interiorizaram o flagelo. Não é estranho, portanto, que tantos professores desejem uma rescisão, que queiram mudar de escola convencidos que assim concretizam a fuga ou que tenham como conversa mais comum a ideia de reforma.

Não é estranho também que a CG de Aposentações ande às aranhas com tanto reformado e que a discussão económica do país fique aprisionada por esta variável. No caso dos professores, tudo foi feito ao contrário. Os aumentos dos horários foram estabelecidos a eito e com preconceito e os programas de "reformas a tempo parcial", que são exigentes e dão muito trabalho a construir, já levam mais de uma década de atraso porque os Donos Disto Tudo tinham o tempo ocupado pelos fundos de alto risco, pelas PPP´s e pelos swap. E a perplexidade maior começa a desenhar-se: será que se preparam para outra vaga?



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Quarta-feira, 06.05.15

 

 

 

 

Os números confirmam que concorreram muitos professores, mesmo com mais de cinquenta anos de idade, dos quadros (de agrupamento e de escola) do ensino não superior. Quem domina as razões é peremptório: estão saturados das escolas onde leccionam. Os números não são ainda mais elevados porque os quadros estão sem vagas com tantos cortes a eito.

 

Existe um preocupante, e reconhecido, sentimento de desesperança neste grupo profissional.

 

Depois de anos a fio sujeitos a uma avaliação do desempenho kafkiana, expostos a divisões brutalmente injustas na carreira, sobrecarregados com turmas com mais alunos, com mais serviço lectivo e não lectivo e com hiperburocracia analógica e digital, atirados para megagrupamentos regulamentados por um modelo de gestão escolar "impensado" e que transportou a partidocracia local, com os conhecidos "assaltos ao poder", para dentro das escolas, é natural que as atmosferas relacionais se tenham dilacerado e que o sentimento de "uma qualquer fuga" se afirme como primeira prioridade. E importa sublinhar que os meios de comunicação social estão há uma dezena de anos a publicitar em primeira página a devassa da carreira dos professores para gáudio dos políticos mentores da desgraça.



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Terça-feira, 10.02.15

 

 

 

Um contributo de Mário Silva.

 

 

"A verdade esfregada na cara.

 

"Desta vez, vamos fazer com que a classificação seja executada exactamente nos mesmos moldes em que é executada para qualquer exame nacional, ou seja, através de despacho, todas as tarefas inerentes à classificação passam a ser obrigatórias.”

Este responsável admite que a medida poderá causar contestação, mas está confiante que acabará por ser aceite: “A percepção que tenho é que, como em tudo na vida, como em tudo o que implica mudança, há um impacto inicial que gera muito ruído e, depois, esse ruído vai tendencialmente diminuindo”, nota Hélder Sousa. jornal Público

 

Esta declaração marca o dia em que um dirigente assume publicamente que os professores e o povo em geral são como um ‘cão que ladra e não morde’. Os dirigentes políticos têm esta perceção do povo e por isso sabem que podem decidir a seu bel-prazer, e que apesar de muito ladrar, nunca serão mordidos e tudo se fará como planeado. Rui Zink, num debate, declamou que a caravana passa e os cães ladram, ladram, ladram, mas um dia mordem. É um cenário tentador mas desfasado da realidade: eles jamais morderão. A única situação em que poderão morder, é se aparecer um dono que os conduza.

No caso dos professores, vão legislar como quiserem, os profs vão estrebuchar mas vão cumprir docilmente o que lhes impingirem. Foi assim com a ADD (que ficou com a estrutura que a ministra idealizou), com os cortes salariais, o congelamento da carreira, a alteração curricular, a última greve aos exames e avaliações (onde existiram profs de direções que assumiram as funções do secretariado que fez greve). Para mim, não é novidade há vários anos, e por isso, agora rosnam mas obedecem com o rabinho entre as pernas.

Existem formas individuais de resistência, com efeitos nefastos e insidiosos, que cada um imagine quais serão, sendo neste momento o que resta a todos aqueles que, quando ladram, ainda mordem…"

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 13:16 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 24.11.14

 

 

 

 

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A frase de Christopher Hitchens (2009:251), em "Deus não é grande, como a religião envenena tudo", da Dom Quixote, "(...)O princípio essencial do totalitarismo é fazer leis às quais é impossível obedecer (...)" proporciona uma interessante discussão. 

 

Em 25 de Outubro de 2009, aqui, escrevi o seguinte:

 

Mas com a velocidade com que se legisla, e nisso o quase "extinto" ME foi imbatível, e com a consequente falta de qualidade das leis é natural que os destinatários do direito se interroguem com a sua vigência. Faz tempo que o direito tem vindo a abandonar a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso".

Neste sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam as ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.

 

Lançados alguns argumentos para o contraditório, importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "vontade" da maioria das pessoas. É trágico, mas é assim. Embora a história nos mostre com frequência o aparecimento de um "profeta", também nos explica que as sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e pegando na frase de Christopher Hitchens, pela construção de leis impossíveis de obedecer e por práticas anti-democráticas ou corruptas (para os dois últimos casos, nem são precisos exemplos).

 

No caso vigente do sistema escolar, podemos pegar em inúmeros exemplos. São casos de "impossibilidade" que criaram um estado de sítio legislativo. Só o fingimento permite o "cumprimento" legal. Não podemos acusar de premeditação totalitarista os seus inventores, mas temos de considerar todas as hipóteses e dizer-lhes que não nos temos cansado de avisar.

 

 

(1ª edição em 27 de Janeiro de 2012. Reescrito)

 

 

 

 



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Quarta-feira, 20.08.14

 

 

 

"O CEO da Covey Leadership Center e líder do Global Speed of Trust Practice já integrou a lista dos 25 americanos mais influentes da revista Time e esteve em Lisboa para a Happy Conference, onde falou sobre a importância vital da confiança no poder das organizações."(esta frase é duma edição impressa da Pública e foi uma cortesia do José Mota).

 

A confiança é a moeda essencial para a economia. Nos sistemas escolares é a palavra chave desde há muito. A confiança nos professores é decisiva para eliminar a má burocracia. A palavra de um professor vale menos do que um qualquer relatório, mesmo que seja um "copiar e colar". A quebra de confiança reflecte-se na disciplina na sala de aula. A constante degradação mediática da imagem dos professores só é superada pelas políticas que os desacreditam nas organizações escolares. É um ranking ensandecido. Tudo começa no estatuto do aluno, passa pelo dos professores e pela sua avaliação e prossegue nos modelos de gestão escolar. Se para Stephen Covey é esse o caminho que existe, para o sistema escolar trata-se de o recuperar. Quanto mais tarde o fizermos, mais depauperada ficará a democracia.



publicado por paulo prudêncio às 13:42 | link do post | comentar | partilhar

 

 

 

Um horário zero é uma indignidade. É um processo kafkiano que se instala na profissionalidade e que magoará a mais forte das pessoas. Mas mais: o horário zero é uma desnecessidade financeira (o desinvestimento tem tido reduções financeiras anuais equivalentes a um assessor ministerial com carreira aparelhística no centrão) e só existe por preguiça, e quiçá impreparação, dos decisores centrais. É um exemplo do ultraliberalismo que envia as pessoas para o exterior do meio ambiente e que é, como se comprovou, perpetrado por familiares dos DDT´s. É um péssimo acto de gestão em qualquer ponto de vista.

 

Dito isto, devo sublinhar que me é incompreensível que alguém use as menções de muito bom e excelente nos últimos processos, inaplicáveis e brutalmente injustos, de avaliação do desempenho para justificar a não atribuição de horário zero. É uma espécie de Kafka contra Kafka.

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 10:19 | link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Domingo, 29.06.14

 

 

 

 

Insisto na recente afirmação de António Costa, "o Governo de Sócrates promoveu uma injusta guerra aos professores", porque o signatário fez parte desse Governo durante os dois ou três primeiros anos, tem fortes possibilidades de ser primeiro-ministro e parece transportar os mentores de tão grave e comprovado acto. Costa sabe do que fala e fez a afirmação, inédita entre os socialistas conhecidos, porque quis. Não deve, portanto, acontecer um qualquer apagão com os beligerantes a desenvolverem os tradicionais revisionismos históricos.

 

Nem de propósito Lurdes Rodrigues é entrevistada pelo Expresso desta semana. Sem o relevo doutros tempos, mas com um título digno de quem lida amiúde com engenharias sociais tão caras aos totalitarismos. Sou franco: há muito que perdi a paciência para esta personagem que mistura fanatismo com um desconhecimento arrepiante da cultura organizacional das escolas e que não tem qualquer prova dada nesse último domínio.

 

A entrevista tem vários aspectos com que concordo; desde logo com a crítica aos ensinos dual e vocacional e com outros postulados do mesmo nível.

 

Contudo, sublinhei a vermelho os que evidenciam a desumanidade dos generais tresloucados que provocam guerras e que, naturalmente, não têm emenda.

 

Do estatuto do aluno à relação da autonomia das escolas com a necessidade de mais burocracia para prestação de contas, conclui-se o que sempre se desconfiou: Lurdes Rodrigues está ao nível da repartição pública anterior à sociedade da informação e do conhecimento e comparou as carreiras dos professores ao que se passa nas instituições militares. Recorde-se que esta ex-ministra também considerou a autonomia despesista (percebe-se ainda melhor o seu conceito burocrático de prestação de contas talvez inspirado num qualquer euroviete supremo) e foi no seu mandato que se inventou o desmiolado modelo de gestão escolar em curso.

 

Mas vai mais longe: não reconhece, naturalmente, a irracionalidade da torrente alicerçada em critérios administrativos (porquê sete anos?) que designou por concurso para professores titulares ou a brutalidade daquela avaliação desenhada no MEC com 4 dimensões e 25 domínios que resultaram em 100 indicadores e 1000 (sim, 1000) descritores inaplicáveis para pontuar professores de 1 a 10 e com o uso de quotas. Esta dilaceração da atmosfera relacional era "sempre para ontem" (a senhora tinha epifanias vincadas e generalas) e acabou por ser classificada como "fascismo por via administrativa" por um dos primeiros arrependidos. E conclui sem qualquer emenda: "os governos recuam porque a contestação fica insuportável".

 

É, portanto, fundamental que fique claro o papel destes actores beligerantes.

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 12:37 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Quinta-feira, 19.06.14

 

 

 

É consensual que em Portugal se legisla muito e mal e que no caso do sistema escolar a patologia atinge um pico por causa da insuportável desconfiança nos professores que se foi instalando, ou agravando, no que levamos de milénio. Não há país do euro que avalie o exercício dos professores com pontos e quotas. Na maioria dos países nem sequer há avaliação, havendo uma minoria que pratica as inspecções pedagógicas que validam, ou não, a continuidade do exercício.

 

Em Portugal continua em vigor um desmiolo brutalmente injusto que pontua com quotas e com base em relatórios de três páginas. Há ainda mais umas coisas insanas.

 

Para além disso, qualquer troika levaria as mãos à cabeça com a incompetência do legislador e com as toneladas de horas que os professores e os serviços administrativos gastam à volta da farsa. É um bom exemplo de improdutividade que explica o que escrevi no título e que nos deixa isolados na Europa. Ainda há dias ouvi Guilherme D´Oliveira Martins sublinhar a falta de qualidade do legislador e o excesso de produção de leis como um dos factores que mais nos penalizam. Há anos que o discurso se repete, e pela voz das mais variadas figuras, e que nada acontece.

 

Entretanto, as primeiras páginas dos jornais de referência salientam a polémica entre o IAVE e uma associação de professores. Discutem a existência, ou não diz o tal de IAVE, de um erro nos critérios de correcção de um exame. Não temos solução nem paralelo.

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 22:31 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 20.02.14

 

 

 

 

 

Metemos umas pilhas alcalinas num telefone portátil da rede fixa e não correu bem: duraram pouco e iam danificando o aparelho. Nada melhor do que ir ao centro da cidade e comprar umas não alcalinas numa loja do comércio tradicional. As incursões, cada vez mais raras, ao centro urbano do sítio onde se vive há mais de duas décadas são viagens no tempo. Ao lado da loja das pilhas sobrevive a renovada Mercearia Pena (since 1909) de visita obrigatória; e a surpresa foi completa.

 

 

 

 

Numa prateleira bem visível dou com embalagens da marca Rajah. Fiquei perplexo. Não são as tradicionais, em cartão, mas o alumínio transporta o milagroso pó de caril que só me chegou importado durante mais de três décadas e que está agora a 10 minutos de caminho pedonal (aproveito para aconselhar a versão medium, pois a hot é muito exigente)

 

 

 

E já que estamos a viajar no tempo, importa sublinhar que Daniel Stufflebeam e Michael Scriven, nos seus estudos (década de setenta do século passado) sobre teoria da informação e definição de objectivos, alertaram para a ASO, avaliação sem referência a objectivos, em alternativa à ACO, avaliação com referência a objectivos.

 

Ou seja, acontecia, e normalmente em programas aplicados por quem desconhecia o denominado terreno, que as práticas provocassem resultados opostos aos enunciados nos objectivos.

 

Valeu-me a ASO, realmente. Avaliei, ou seja, tomei a decisão de comprar as pilhas em local seguro, e atingi-o, mas consegui um objectivo mais importante e não previsto no planeamento.

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 19:15 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 17.02.14

 

 

 

 

 

 

José Sócrates afirmou-se, ontem na RTP1, "como um mero militante de base do PS". É isso que os média destacam.

 

Mas o momento mais risível foi ouvir o outrora chefe do PS a contestar a avaliação do desempenho como primeiro critério para o despedimento nas empresas.

 

Sobrou a indignação, apontou a injustiça e a subjectividade e incomodou-se com a arbitrariedade que fica nas mãos das tutelas. Uma encenação que deita por terra qualquer sinal de nobreza que queiramos ver neste género de políticos. Recordou-me a campanha eleitoral de Passos Coelho e a classificação acertada para o modelo de avaliação de professores: kafkiano. Quem olhar para o modelo em vigor encontrará o mesmíssimo ambiente disfarçado pelas congeladas progressões na carreira. A não ser que os dois últimos chefes de Governo desconheçam o significado de kafkiano e que façam da mentira um modo de vida não irrevogável; é uma qualquer escola, realmente.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 16:00 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Sábado, 15.02.14

 

 

 

 

A página 13 da edição impressa do Público de hoje tem dois detalhes espantosos.

 

Nos tempos em que a avaliação do desempenho dos professores era a principal causa dos problemas do país

 

(não estou a brincar, até porque foi uma luta sem quartel e não totalmente vencida porque o modelo em vigor é igualmente injusto e brutal; mas ouvi-o pelas vozes de Jorge Sampaio e de Ramalho Eanes, para além de todo o regimento do arco do poder acolitado em que tudo o que era comentador)

 

era comum ouvirmos "que os professores não queriam ser avaliados e que nas empresas privadas a coisa era banal e assumida".

 

Numa fase em que o Governo apresenta a avaliação do desempenho como critério primeiro para o despedimento nas empresas, ficamos a saber que em 95% das ditas não há avaliação. Falta saber como é que se desenvolve o processo nas 5%. Espera-se que não aconteça como em 2008 com as poucas escolas que conseguiam pontuar num milhar de descritores cada avaliado; o ridículo eliminou de vez a monstruosidade.

 

 

 

 

 

Parece que Passos Coelho afirmou que sempre aplicou facilmente a avaliação do desempenho. Foi há dias e pelo que percebi disse-o em pleno parlamento enquanto exibia galões de gestor.

 

Dá ideia que Passos+o+gestor pontuou formadores de pilotos e afins. Não resisti a colar a crónica "roda da sorte" da tal página 13.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 19:37 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 13.02.14

 

 

 

 

 

 

 

A avaliação do desempenho como primeiro critério para o despedimento é algo que poucos do arco da governação contestarão; a menos que sintam na pele os efeitos da meritocracia injusta e brutal que contaminou de vez processos como o SIADAP. No mundo empresarial, e ao que se vai percebendo, acontecem fenómenos semelhantes. A decisão unilateral do Governo beneficiará do silêncio do PS do passado, do actual, do que venha a caminho e até do que se movimente em Marte.

 

Apesar da repetição do óbvio ser um dever, também há limites. Nesse sentido, vou buscar um post que escrevi há dias para não ter que teclar o mesmo.

 

"Nem um calceteiro pode ser avaliado de um modo puramente quantitativo e meritocrático", é uma evidência que devia ser óbvia nas sociedades modernas que se dizem avançadas. Quando um político afirma que com a primazia da avaliação do desempenho o "Governo está a levar o "medo" às empresas", fica a ideia de que a maioria das pessoas sorrirá com a "manifestação de fraqueza" e os comentadores mainstream lá se encarregarão de colocar a "impossibilidade quantitativa" como uma inevitabilidade competitiva da pós-modernidade.

 

A avaliação quantitativa escolar é uma exigência educativa que intervém na formação da personalidade; o aluno é o outro e tem, naturalmente, uma reduzida possibilidade de contestação. O faz-de-conta reduz-se e é quase inexistente. Entre adultos, entre iguais, o faz-de-conta é galopante e a sua absolutização é uma condição de sobrevivência para os intervenientes. Mas isso não impede que o "medo" se instale e que se criem, paulatinamente, condições para um totalitarismo; por explosão ou implosão.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 13:57 | link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Quarta-feira, 05.02.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pode ler aqui o texto completo (vale mesmo a pena).

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 09:50 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 02.02.14

 

 

 

 

 

"Nem um calceteiro pode ser avaliado de um modo puramente quantitativo e meritocrático", é uma evidência que devia ser óbvia nas sociedades modernas que se dizem avançadas. Quando um político afirma que com a primazia da avaliação do desempenho o "Governo está a levar o "medo" às empresas", fica a ideia de que a maioria das pessoas sorrirá com a "manifestação de fraqueza" e os comentadores mainstream lá se encarregarão de colocar a "impossibilidade quantitativa" como uma inevitabilidade competitiva da pós-modernidade.

 

A avaliação quantitativa escolar é uma exigência educativa que intervém na formação da personalidade; o aluno é o outro e tem, naturalmente, uma reduzida possibilidade de contestação. O faz-de-conta reduz-se e é quase inexistente. Entre adultos, entre iguais, o faz-de-conta é galopante e a sua absolutização é uma condição de sobrevivência para os intervenientes. Mas isso não impede que o "medo" se instale e que se criem, paulatinamente, condições para um totalitarismo; por explosão ou implosão.

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 22:36 | link do post | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Quarta-feira, 29.01.14

 

 

 

Eram 19h00, fui buscar o carro à oficina e o rádio estava na TSf com um debate sobre as praxes. Não me era estranha a voz feminina que proclamava coisas acertadas sobre a indignação com a violência física e psicológica entre jovens, de adultos para jovens ou entre adultos. O discurso era até especializado na faceta psicológica dos abusos. O moderador moderou e nomeou Lurdes Rodrigues, essa inesquecível promotora do bullying de um governo sobre um grupo profissional, que instigou a violência psicológica entre pares e que deixou escola. Há dias assim, realmente.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 19:52 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Sexta-feira, 06.12.13

 

 

 

 

Já não suporto ouvir pessoas do "arco da governabilidade" (que inclui os que só aparentemente não estão por lá) a debitaram sobre avaliação de professores. Chega! Enxerguem-se, por favor, de uma ponta à outra.

 

Escrevi este post ontem à noite enquanto via um debate na SICN que foi interrompido pela notícia do falecimento de Nelson Mandela. O primeiro parágrafo estava escrito. Terminei o post e temporizei-o para hoje.

 

PS: E já agora a reivindicarem os resultados PISA 2012. Enxerguem-se também. A sociedade portuguesa e a escola pública progrediram muito até 2010 apesar da vossa existência como tal.

 



publicado por paulo prudêncio às 10:25 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Domingo, 01.12.13

 

 

 

 

Se, como dizem os especialistas, "a investigação do funcionamento cerebral ainda está na idade da pedra", só por desconhecimento alguém pode hierarquizar o melhor modo de ensinar e, por consequência, como é que cada um aprende.

 

É muito complexa a organização de uma aula.

 

Surpreendem-me sempre os que se arvoram em avaliadores definitivos do desempenho dos professores; mesmo os que os caem no elogio fácil. A avaliação destes profissionais ainda nem à idade da pedra chegou; naturalmente.


É evidente que o uso destas asserções só é considerado corporativo e acomodado por quem desconhece o que foi dito ou nunca pôs os pés como professor numa sala de aula (mais ainda com trinta alunos) e já nem refiro as idades ou as questões de indisciplina numa sociedade que quase desistiu de educar as suas crianças e jovens.



publicado por paulo prudêncio às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Quinta-feira, 21.11.13

 

 

 

São justos os argumentos usados pelos professores contratados na luta contra a prova de ingresso, mas há um de que discordo.

 

Já ouvi mais do que uma vez que se deveria utilizar a menção de excelente na avaliação de desempenho como critério para provar a inutilidade da inutilidade. Compreendo o desespero e a revolta, mas esse argumento é historicamente errado. Então e os professores contratados que lutaram contra essa avaliação e que foram penalizados por causa disso? E a disparidade, tantas vezes denunciada, entre as diversas escolas? O uso desse argumento cauciona aquela injusta e brutal avaliação e pode, a prazo, ter um efeito de retorno impensável.

 

 

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 11:18 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Domingo, 17.11.13

 

 

 

Cansado Das Generalizações Abusivas






publicado por paulo prudêncio às 19:09 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 15.11.13

 

 

 

 

Pesei bem o título e podia usar os substantivos do costume como humilhação e vergonha.

 

Como se tinha previsto, a já longa alienação vigente vexa diariamente os professores. Desta vez é a prova de avaliação para os professores contratados.

 

São os telejornais que abrem com o assunto ou os jornais diários que incluem o tema em primeira página e ainda estamos nos primeiros episódios do desmiolo. Um enjoo difícil de suportar.

 

Por outro lado, nas redes sociais tropeça-se com os justos apelos à não comparência ou com graves, e também justos, apontares de dedo a quem aceite corrigir as ditas. Um desvario e um movimento uniformemente descendente para a profissionalidade dos professores. Dá ideia que a tutela, e quem os "spina", lá consegue instituir a miséria e virar professores contra professores. O medo, e o medo de ter medo, corporiza a planeada dilaceração da atmosfera relacional e profissional.

 

Este tipo de vexame é cíclico. Foi assim com os professores titulares, com a entrega de objectivos individuais no modelo de avaliação mais insano que se conheceu, com a aceitação de cargos de avaliadores, com as primeiras participações no modelo de gestão e por aí fora. São anos a fio de uma negatividade que parece não ter fim.

 



publicado por paulo prudêncio às 15:59 | link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Terça-feira, 24.09.13

 

 

 

 

 

Avaliação do desempenho - cinco anos depois






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