Em busca do pensamento livre.

Domingo, 02.04.17

 

 

 

Há escolaridade obrigatória porque as taxas de abandono e insucesso escolares, e de analfabetismo, são elevadas. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas (parece que esta variável tende a desaparecer). Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautorizou e baixou o nível do ensino, porque o negócio exigiu, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perderam, menos os proprietários das empresas. Haverá outra conclusão antiga, mas menos óbvia: fragilizará a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

2ª edição.



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Sábado, 11.02.17

 

 

 

Depois de 13 anos em queda, "o abandono escolar precoce aumentou em 2016 com saliência para o número de jovens que não concluiu o 12º ano"; desde 2002 que isso não acontecia. Aconselho três textos mais abaixo, aqui, aqui e aqui, porque assim não me repito em tão pouco tempo e encontra por lá argumentação pertinente.

 

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Domingo, 06.11.16

 

 

 

 

A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.

 

A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal, que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.

 

Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que se construiu.

 

A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados. E não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.

 

A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.

 

A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.

 

Em Portugal, regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva, e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar seguiu o mesmo caminho.

 

1ª edição em 10 de Maio de 2012



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Sábado, 05.11.16

 

 

 

 

Se não fizer isso conseguirá entrar na universidade? As duvidas na resposta a esta interrogação condicionam, demasiado cedo, os sistemas educativos. Aos seis anos começa a corrida de obstáculos que impede, desde logo, a eliminação do abandono escolar precoce. Com excepção dos países onde não se restringe o acesso ao superior, e em que o secundário é transversalmente estimulante, a regra nos restantes assume as interrogações: e se não fizer muitos trabalhos de casa desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não fizer exames a eito desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não tiver explicações desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não for desafiado por quadros de honra desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não tiver o tempo todo ocupado desde cedo conseguirá aceder ao superior? Para agravar a condição portuguesa, a sociedade ausente apresenta inúmeras famílias pobres que nem imaginam essa desinformada ambição escolar enquanto os informados do costume (alguém, com propriedade e humor, classificou-os de descomplexados competitivos) discutem ciclicamente a falta de tempo para os petizes brincarem.

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Terça-feira, 19.07.16

 

 

 

 

"De cabeça erguida" tem como figura central uma juíza (Catherine Deneuve) de um tribunal de menores francês. Isso diz muito do argumento e tem uma relação poderosa com os actos terroristas a que temos assistido. O muito bom filme de Emmanuelle Bercot devia ser de visionamento obrigatório para as pessoas que opinam sobre o abandono escolar e a delinquência juvenil num tom crítico para os profissionais ou com ligeireza. A personagem interpretada por Catherine Deneuve dá uma lição de pedagogia, sensatez, firmeza e sabedoria. Imperdível mesmo.

 

 

 

Título original: La Tête Haute; De: Emmanuelle Bercot; Com: Catherine DeneuveRod ParadotBenoît MagimelSara Forestier; 120 min.

 



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Terça-feira, 28.06.16

 

 

 

"Na escola x, uma aluna do 7º ano passou com sete negativas. Na turma da minha filha, na escola y, reprovou um aluno com duas negativas, a português e a matemática, e outro com três". E é isto. Ciclicamente é isto. Uma regra administrativa nacional (RAN) nestes assuntos deixa tudo mais claro, mas a invenção da roda também se tornou cíclica. Havendo uma RAN, os conselhos de turma ponderam o que têm que ponderar; como sempre aconteceu e está mais do que comprovado. Ou será que os anti-RAN acham que o insucesso escolar é culpa absoluta de professores e escolas? Parece-me que sim. Aliás, dá ideia que pensam o mesmo das causas do flagelo do abandono escolar que também é histórico e "eterno".



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Quarta-feira, 08.06.16

 

 

 

 

Os problemas da escola pública não se esgotam, obviamente, na importante questão dos "privados" e uma qualquer manifestação em sua defesa tem que ter mais pontos de agenda. É que há vida para além das finanças. Há, por exemplo, a democracia.

 

"O director de turma deve ser avaliado, com pontuação rigorosa e cotas, pelo abandono escolar dos alunos". A frase que escolhi, dita com convicção por Lurdes Rodrigues, sintetiza um conjunto de "Novas Políticas de Gestão Pública" que se tornou fatal para a escola pública. 

 

Se desconstruirmos a frase, encontramos: desresponsabilização da sociedade, escola a tempo inteiro, crianças-agenda e jovens-vigiados em simultâneo com o estatuto do "aluno-rei", transformação da carreira de professores em "agentes recreativos" e modelo taylorista de gestão escolar com sobreposição da lógica, "impensada" em educação, do "cliente-tem-sempre-razão".

 

Não satisfeitos, novos governantes acrescentaram: mais alunos por turma, mais turmas por professor, indústria de exames, divisão curricular em disciplinas estruturantes e outras, degradação da imagem do professor e da organização da escola pública. Com uma década assim, que resultados se esperariam? Não faltam, portanto, pontos fundamentais para agendar.

 

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Domingo, 22.05.16

 

 

 

Por que é que há escolaridade obrigatória? Porque as taxas de abandono e insucesso escolares precoces, e de analfabetismo, são chocantes. Se não fosse obrigatória, os números aumentariam: por falta de jeito dos miúdos, por só estarem a gastar dinheiro, porque é no trabalho desde cedo que se aprende ou por serem raparigas. Ou seja, não há escolha: é obrigatória e muito bem. É um direito, e um dever, constitucional conferido pela rede pública de escolas. Ainda há pouco passou para 12 anos para contrariarmos os números de população adulta sem sequer o ensino secundário.

 

E que relação tem a escolaridade obrigatória com a lógica do cliente escolar e da liberdade de escolha? Tem a relação mais inversamente proporcional possível. Os suecos, e até sem analfabetismo desde o século XIX, experimentaram, em 1995, a generalização da lógica do cliente escolar. Um falhanço, consubstanciado na segregação dos alunos. O cliente escolar desautoriza e baixa o nível do ensino, porque o negócio exige, para além de outras variáveis, uma organização com profissionais lowcost. Todos perdem, menos os proprietários das empresas. Há outra conclusão óbvia: fragiliza a democracia em poucas gerações.

 

Este post usa argumentos que são conhecidos há mais de cinco décadas por quem estuda a importância da escolaridade obrigatória na consolidação das democracias.

 

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Sábado, 21.05.16

 

 

Num momento em que se aplaude uma solução tutorial-exclusivamente-escola para uma pequena componente da praga do insucesso e abandono escolares, recupero um algoritmo que escrevi há uns seis anos.

 

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

 

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

 

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

 

É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico ou contratual dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.

 

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Quarta-feira, 16.03.16

 

 

 

"(...)Os adolescentes portugueses são dos que se sentem mais apoiados pela família, têm consumos de álcool ligeiramente abaixo da média observada noutros pontos do globo e, mais dos que os outros, quando têm relações sexuais usam preservativo. Boas notícias, portanto. Mas — e esta é a primeira má notícia — a escola em Portugal é pouco amada.(...)"

 

Esta passagem do Público evidencia uma hierarquia que os investigadores sublinham nos países com sérios problemas educativos e, por consequência, com um excessivo caderno de encargos da escola: seleccionam a sociedade como primeira componente crítica e não as famílias; e insistem muito neste detalhe, como refiro aqui. E basta pensarmos um bocado nos países que não fazem do bem comum e da organização valores preciosos: quantos decisores públicos, e privados, claro, e aos mais diversos níveis, apoiam a sua família como o descrito e são completamente negligentes na acção cívica ou política? Podíamos ficar agora a tarde toda a elencar o interminável rol de "erros graves de planeamento", ou até de "actos corruptos", que dificultam muito as tarefas educativas das famílias e as de ensino das escolas.

 

liberdade e dependência cartoon de Odyr Berrnardi



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Sexta-feira, 12.02.16

 

 

 

No dia em que N. Crato e L. Rodrigues são condecorados, e desculpem-me voltar a estas figuras, o primeiro desdobra-se em entrevistas e revela uma continuidade política que explica alguns enigmas. Lurdes Rodrigues olhava para o sistema como um grande primeiro ciclo e infantilizou-o. Numa decisão inevitável e positiva, alargou a escolaridade obrigatória até ao 12º ano e originou o maior aumento da história de alunos no ensino secundário nos anos seguintes.

 

Chegou Crato e aplicou exames a eito com as mesmas normas e procedimentos em todos os ciclos de escolaridade. Ou seja, para Crato & Lurdes até ao 12º ano é ensino precoce e comprovo-o com duas respostas da entrevista do primeiro ao DN. Como se sabe, no exercício de Crato o insucesso escolar subiu todos os anos. Com o referido aumento de frequência do secundário, o abandono escolar desceu acentuadamente. A jornalista pediu-lhe opinião. A coisa é de tal modo, que a segunda pergunta transmite a perplexidade da perguntadora que ainda tentou atenuar a manipulação. Como retrata o cartoon do Antero, Crato ganhou o direito ao fatinho completo de Lurdes Rodrigues e Cavaco Silva reconheceu-o.

 

"(...)Em 4 anos o abandono escolar caiu de 23 para 13,7%. Como ME durante esse período que analise faz dos números?

Todos nos devemos congratular pelos enormes progressos conseguidos pela Escola portuguesa nos últimos anos, nomeadamente com este que agora acaba de ser verificado: a grande redução do abandono escolar precoce. 

A que se deve esta redução? Ao alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.° ano?

Não se deve apenas ao alargamento da escolaridade obrigatória, mas a um conjunto de medidas que permitiram que o alargamento fosse um sucesso.(...)"

 

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Sexta-feira, 27.11.15

 

 

 

1ª edição em 10 de Maio de 2012

 

 

 

A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes sobre o assunto, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar, com segurança, que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.

 

A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.

 

Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que levou anos a construir.

 

A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados e não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.

 

A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.

 

A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.

 

Em Portugal regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores nos últimos seis a sete anos. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar segue o mesmo caminho apesar de menos mediatizado.

 

 

 



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Quarta-feira, 20.05.15

 

 

 

Portugal tem, desde meados da década de noventa do século XX, condições informacionais para digitalizar dados sobre os alunos que disponibilizem boa informação que reduza o abandono escolar (sim, foi isso mesmo que leu) e que torne civilizada a atmosfera organizacional. A informação não é tudo nesses domínios, mas é preciosa. Por que é que isso não aconteceu? Desde logo, porque a construção dos sistemas atomizou-se, ficou a cargo do outsourcing e foi desenhada por especialistas em sistemas de informação e comunicação e não por gestores da informação escolar.

Desperdiçaram-se recursos financeiros avultados e o que existe é informação não integrada. Os milhões de dados lançados diariamente nas nossas escolas continuam "intratáveis", produzem parco conhecimento e sustentam algumas empresas comerciais que se apoderarem do mercado e o condicionam. A entropia informacional transformou num "inferno" o lançamento repetido da informação.

A iniciativa, em 2013, no concelho de Odemira pareceu meritória porque tentou reunir numa mesma base de dados a informação sobre os alunos desde a entrada no sistema e porque foi uma websolução. Era importante saber o que aconteceu dois anos depois. Várias escolas perseguiram caminhos semelhantes, mas as constantes alterações na gestão escolar impediram qualquer consolidação que aconselhasse a generalização. Esse objectivo é crucial e é imperdoável que se desperdice mais um quadro comunitário com "soluções" pato-bravistas.

No entanto, a iniciativa de Odemira pode repetir o que existe. E por quê? Porque a informação determinante sobre cada um dos alunos está longe de se esgotar num programa de discentes; e o mesmo acontece com os restantes actores do sistema. O universo informativo da escola como organização inclui horários escolares, calendarização de reuniões, sumários, serviços de apoio social, bibliotecas, utilização de cartões electrónicos, programas educativos individuais, actas de reuniões e por aí fora. E se um sistema não integrar todos os dados, é mais o que se perde do que o que produz conhecimento.

 

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Quinta-feira, 09.10.14

 

 

 

Chegámos a um estado tal, que lemos argumentos, a culpabilizar a centralização dos concursos de professores, assinados por quem se movimenta com ligeireza na macrocefalia reinante. E enquanto gastamos os caracteres a desmontar preconceitos com décadas, as taxas de insucesso e abandono escolares parecem regressar a uma trajectória ascendente como se relata no texto. São correlações.

 

  

 



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Segunda-feira, 22.09.14

 

 

 

Se a taxa de mortalidade infantil é um indicador determinante da qualidade de um sistema de saúde, a percentagem do abandono escolar precoce tem o mesmo efeito na qualidade de um sistema escolar. Em ambos os casos tem que se considerar, naturalmente, o papel incontornável da sociedade.

 

Em 1991, o abandono escolar precoce era de 63% (sim, leu bem). 22 anos depois caiu para 18,9%, numa fase em que os resultados de Portugal nos testes internacionais (PISA, TIMMS, PIRLS) ultrapassaram, grosso modo, países com a Suécia, os Estados Unidos ou a Alemanha. É evidente que o progresso (confirmado no último relatório do CNE), até uma percentagem próxima dos 10% esperada em 2020, ficou comprometida com a chegada ao poder da destruição criadora para além da troika de Coelho&Gaspar&Crato.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sábado, 20.09.14

 

 

 

O "Relatório estado da Educação 2013" do CNE parece que conclui que há escolas que inflacionam as notas dos alunos e que excluem os mais fracos por causa dos rankings. O Governo diz que desde de 2003 que se conhece o fenómeno, com a escolha da data a indicar que a aliança democrática está na queda habitual.

 

É tudo tão previsível e circular que não nos podemos queixar com o retrocesso dos indicadores escolares. E o que mais cansa é o assobio lateral dos descomplexados competitivos que mais não fazem do que debitar receitas para os filhos dos outros. Em regra, estes "especialistas" "encostam-se" aos top performers, como se estes e as suas famílias precisassem da sua existência, e lá se devem considerar sócios do clube restrito e com aversão aos que "não querem aprender".

 

Pedir à escola que seja, simultaneamente, exigente e inclusiva é a verdadeira quadratura do círculo já conhecida no século passado. Torna-se numa alucinação quando se absolutiza a categoria exigência que exclui sem dó no mercado puro e duro que estamos a viver há cerca de uma década.

 

Nem os países que eliminaram o analfabetismo no século XIX encontraram uma saída democrática na alucinação descrita. Instituíram ideias que esbarraram no aumento da desigualdade de oportunidades.

 

Portugal tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação.

 

Abandonámos a sensatez.

 

Advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro ("mercado puro e duro", ou selva para se ser mais preciso, é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados dos alunos) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Só que qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas. Aos advogados da alucinação falta-lhes contacto com o real e humildade.

 

Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.

 

 

 

 

Já usei esta argumentação noutros posts.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 20:58 | link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Terça-feira, 09.09.14

 

 

 

 

Como era esperado "(...)A taxa de retenção ou desistência aumentou nos três ciclos do ensino básico nos últimos três anos(...)" e ainda se sentirão com mais intensidade as consequências da escolha da escola pública, e dos seus profissionais, como o primeiro alvo dos cortes a eito.

 

Bem pode a ministra da Educação, a ultraliberal Maria Luís Albuquerque, afirmar que "(...)"O ensino superior tem uma extraordinária importância, tem tido uma evolução fantástica, todos os dias temos notícias de como o nosso ensino superior está a ganhar reconhecimento internacional e tem também um enorme palco mediático(...)". O que a ministra vê é produto da generalização da escola pública. Sem quantidade e qualidade na base, só por milagre ou geração espontânea é que se conseguem bons resultados na primeira linha da investigação.




publicado por paulo prudêncio às 14:29 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Terça-feira, 10.06.14

 

 

 

 

"Menos alunos inscritos para exames e também menos candidatos ao ensino superior — é este o cenário do final deste ano lectivo", informa o Público. E acentuar-se-á a redução de alunos no ensino superior e nada disso terá uma qualquer relação com a natalidade.

 

Mais de 50% dos alunos do ensino secundário não frequentam as escolas públicas que em muitos concelhos têm condições para todas as ofertas necessárias. O mercado (selvagem) da Educação atingiu um pico inaceitável. Se o que acabou de ler não for invertido, o ensino superior reduzir-se-á a números de frequência equivalentes às décadas de setenta e oitenta do século passado. Continuam a existir a jovens que "desistem" ainda nos segundo e terceiro ciclos e dos que chegam ao ensino secundário mais de 50% nem sequer fazem os exames do 12º ano.

 

Se continuarmos com as políticas dos últimos três anos, a médio prazo teremos números que nos voltarão a envergonhar e o desenvolvimento do país seriamente comprometido. Será o empobrecimento comprovado.



publicado por paulo prudêncio às 21:18 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 20.05.14

 

 

 

 

 

Bem sei que "o que é irrefutável é falso" (Karl Popper), mas há números que traduzem asserções irrefutáveis. Sabe-se que "mais de 70% dos portugueses que trabalham por conta própria têm apenas o ensino básico" e que apesar dos progressos assinaláveis das últimas décadas estamos novamente em plano inclinado.

 

O aumento do número de alunos por turma, os cortes curriculares, o aumento nos horários dos professores e a constante terraplenagem da cultura organizacional das escolas públicas são um sinal evidente de que as nossas "elites" cansaram-se depressa de investir no sistema escolar e não encontramos nos partidos que aspiram a governar qualquer referência objectiva às variáveis enunciadas. E não adianta argumentaram com a falta de alunos. Os fenómenos recentes de quebra de natalidade e de alteração dos fluxos migratórios sentir-se-ão, e se nada for feito, apenas daqui por uns anos. Os alunos que abandonam a escolaridade sem o secundário completo nasceram no século passado.

 



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Segunda-feira, 14.04.14

 

 

 

 

Com os cortes a eito registados no sistema escolar é natural que as consequências negativas se evidenciem. É no mínimo sei lá o quê que David Justino veja ganhos de eficiência no que se está a passar, o que pode dar razão aos que defendem que há muito de ideológico nos cortes e que o peso político dos actores mainstream da Educação é nulo ou de soma negativa.

 

Santana Castilho é obvio e taxativo: "com a atual sangria de meios e recursos, tudo andará para trás".

 

Pode ler estas e outras opiniões no estudo que o DN classifica como Grande Investigação e onde se conclui que "120 mil crianças sofrem com falta de comida" ou que o "abandono escolar é preocupação sem rostos nem números". São inúmeros os "ganhos de eficiência" que escapam a leituras com um determinado tipo de lentes, obviamente.

 

O João Daniel Pereira digitalizou uma parte da edição impressa.

 

 

 

 

 

 



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Segunda-feira, 24.02.14

 

 

 

 

A primeira edição deste post

foi em 20 de Maio de 2013.

 

 

 

 

Começamos a perceber melhor o mais com menos de Nuno Crato. Se lermos com atenção o exemplo da imagem, veremos que os mercados valorizarão bem mais um sistema escolar sem alunos que "não querem aprender".

 

Deve ser por isso que o ministro não percebe o anuncio de greve por parte das organizações dos professores. Para Crato, o que está feito é definitivo e basta dialogar sobre o futuro. Aliás, o diálogo é uma circunstância que lhe veio à mente pela primeira vez e ao fim de quase dois anos de governação além da troika.

 

 

 

 

 

Daniel Kahneman (2011:215), "Pensar, Depressa e Devagar".

Temas e Debates. Círculo de Leitores. Lisboa.

 

 

A primeira edição deste post foi em 20 de Maio de 2013.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 18:19 | link do post | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Sexta-feira, 08.11.13

 

 

 

 

 

Exigir à escola que obtenha a excelência nos resultados escolares e que inclua os "que não querem aprender" e os que escapam à "normalidade" é a verdadeira quadratura do círculo que se torna uma alucinação terrivelmente exclusiva no mercado puro e duro.


Nem os países mais desenvolvidos - os que, por exemplo, eliminaram o analfabetismo no século XIX - encontraram uma saída democrática na alucinação vigente. Ao que vamos sabendo, instituíram soluções exclusivas em busca de uma qualquer excelência que acabou sempre por esbarrar no alçapão do aumento das desigualdades de oportunidades.


Portugal já tem indicadores de exclusão escolar que aumentarão em sentido proporcional à alucinação descrita.


Deixámos de pensar.


Se uma turma ou escola tem em maioria os que "que não querem aprender", a lógica de mercado dos resultados escolares será implacável. Por outro lado, se uma turma ou escola tem em minoria "os que não querem aprender", será "inaceitável" a sua presença desestabilizadora e os responsáveis escolares defrontar-se-ão com dilemas e exigências inumanas. O confronto com a história dessa minoria deixará à alucinação vigente um único caminho: o aumento dos indicadores de exclusão escolar.


O fim-de-semana será preenchido pela discussão dos rankings das escolas portuguesas. Repetir-se-ão os argumentos no duelo público-privado. Nenhum dos factores descrito ganhará: nem os excelentes quando abandonarem o regime de condomínio privado e se confrontarem com o mundo real e muito menos os destinados à exclusão.


Bem sei que advogar o fim dos mecanismos de mercado puro e duro (que é diferente de avaliar com rigor organizações escolares onde se incluem os resultados escolares) é considerado pouco ambicioso e falho de modernidade. Haverá mesmo quem considere falho de empreendedorismo. Mas também sabemos que as sociedades mais avançadas foram sempre as que colocaram a inclusão (mas a inclusão desde o pré-escolar) no topo das prioridades porque perceberam que a diminuição das desigualdades é proporcional ao aumento das classe médias e que manutenção da paz e da prosperidade só se consegue em sociedades não alucinadas. Mas mais: qualquer sistema bem sucedido na formação de pessoas foi construído com bases alargadas.


Aos advogados da alucinação falta-lhes o contacto com o real. Portugal é, e escrevo-o com tristeza, cada vez mais um país com um sistema escolar em profundo estado de alucinação.





publicado por paulo prudêncio às 22:25 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Quarta-feira, 30.10.13

 

 

 

Se não contrariarmos a tendência descrita na imagem, a breve prazo os indicadores serão difíceis de reverter até porque estarão acompanhados de taxas novamente arrasadoras no abandono e insusesso escolares.

 

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 29.10.13

 

 

 

 

 

 

A formulação de Nuno Crato existe, já tem uns 20 anos e causou outros constrangimentos semelhantes. Não conhecemos é a frequência, ou seja, quantos professores é que estão nessa situação.

 

Sabe-se que na origem (onde o ministro não toca) esteve o negócio ligada à formação inicial de professores e a teimosia das Universidades do Estado em adiarem a profissionalização de professores para todos os graus de ensino. Os resultados estão aí: milhares de professores profissionalizados desempregados, redução drástica de investigadores em áreas fundamentais das humanidades (por exemplo) e não escolha da profissão de professor por parte dos alunos com melhores resultados no final de secundário.

 

Só que mais importante que tudo isto é constatação que a sucessão de ministros da Educação identifica uma causa primeira para o abandono e insucesso escolares: a formação de professores. Assim não vamos lá. O principal problema português é a ausência da sociedade na Educação das crianças e jovens, onde a escola só pode desempenhar um papel reduzido. Enquanto os governos não fizerem da presença da sociedade o principal parceiro da Educação, gastaremos muita energia para obtermos recuos civilizacionais.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:32 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Quinta-feira, 24.10.13

 

 

 

 

 

 

 

A UNICEF afirma que "a crise está a afectar severamente" o sistema escolar em Portugal.


É uma conclusão óbvia, embora a referência à necessidade de estudar as elevadas taxas de abandono e insucesso escolares seja escusada. É que todos já sabemos que essas taxas subiram, que a nossa percentagem do PIB para a Educação já nos envergonha mesmo, que o número de professores já é o mais baixo da OCDE e por aí fora. O problema é outro. A agenda mediática, com algumas excepções, está controlada pela "malta do privado encostado ao Estado" e o MEC anda obcecado, para não variar, em infernizar a vida dos professores.

 

A estória da prova de acesso para professores ainda vai ter muitos episódios insanos.








publicado por paulo prudêncio às 11:55 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 14.10.13

 

 

 

 

 

Percorri alguns blogues e jornais online e dei com duas notícias desconcertantes: um professor que diz que está "preparado fisicamente para actuar se um aluno desobedecer" e um caso muito grave de um aluno que é suspeito de "ter esfaquado uma colega e uma funcionária". É um dia atípico em termos mediáticos nos assuntos do sistema escolar, mas será um qualquer sinal.

 

No primeiro caso, regista-se a existência de um professor adepto do docente-especialista-em-wrestling. É, no mínimo, uma novidade. Há uns anos fiz um post com a seguinte pergunta: pode um invisual ser professor? Terminei o post assim: "A resposta, mesmo que se fique pela dúvida, pode atestar da qualidade da nossa sociedade". Não sei se o docente-especialista-em-wrestling defende a opção pelas artes marciais como forma de incluir todos os professores. É que nem todos os professores são tão fortes como este inesperado lutador.

 

O segundo caso é mais perturbante. Pode até ser um fenómeno isolado e que não se repita tão cedo. Assim se espera. Mas com o empobrecimento em curso associado ao aumento do número de alunos por turma, ao aumento dos horários dos professores nos últimos dois anos e à dificuldade da gestão de proximidade, não nos devemos espantar se o clima de desesperança que atravessa o sistema escolar vá para além do abandono e do insucesso escolares em curso.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:50 | link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Terça-feira, 01.10.13

 

 

 

 

O conceito "escola completa" tem evoluído e quer significar que o ensino "regular" não se deve limitar às matérias estruturantes como a matemática e a língua materna.

 

Defender a "escola completa" não significa desvalorizar as matérias estruturantes. Já nem se questiona, nos sistemas escolares mais avançados, o equilíbrio entre as ciências, as humanidades e as expressões (dito assim para ser sucinto) porque eliminaram há muito o analfabetismo e porque sabem que os alunos com apoios em casa aprendem as matérias estruturantes independentemente da carga horária (nos limites do razoável, obviamente).

 

O desequilíbrio da carga horária em sociedades como a nossa provoca desigualdade de oportunidades. Os alunos têm apoios familiares muito desiguais. Esse desequilíbrio tem sempre dois indicadores: aumenta o abandono escolar e não melhoram os desempenhos dos alunos mais apoiados como se referiu no parágrafo anterior (os alunos com apoios em casa aprendem as matérias estruturantes independentemente da carga horária).

 

 



publicado por paulo prudêncio às 22:53 | link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 30.09.13

 

 

 

 

As opiniões são conclusivas: as eleições locais de ontem registaram uma onda de protesto em relação aos partidos políticos que suportam o Governo. Apesar de ser muito difícil retirar conclusões nacionais dos resultados, é evidente que os candidatos autárquicos dos partidos da oposição tinham condições muito favoráveis com a prestação desastrosa de Passos e Portas.

 

Há muito que o Governo está em queda livre. As políticas para o sistema escolar revelam sinas muito preocupantes. O absentismo e o abandono escolar já são a segunda maior ameaça a menores e o armazenamento nas salas de aula terá resultados semelhantes.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 11:42 | link do post | comentar | partilhar

Domingo, 16.06.13

 

 

 

 

 

 

Se há cinco anos foram mais de 120 mil, ontem estiveram cerca de 80 mil a descer a Avenida com o nome mais adequado ao que está em causa: Liberdade. E se trago os números é apenas para evidenciar uma constatação: em 2008 eram cerca de 140 mil professores e hoje são pouco mais de 100 mil.

 

O que mais cansa ouvir é o argumento da instrumentalização dos professores. A essa diabolização, os professores deram uma resposta em defesa dos seus alunos, da qualidade do ensino e da igualdade de oportunidades e com o olhar nos alunos "que não querem aprender" e no abandono escolar. Se a discussão política insistir no jogo argumentativo descrito, a breve prazo não ficará "pedra sobre pedra" nos importantes avanços do nosso sistema escolar nas últimas décadas.

 

É exactamente este o discurso que o cinismo das nossas "elites" não suporta ouvir. O objectivo "reformista" quer a todo o custo ocultar os progressos para abrir espaço à educação como um negócio.

 

A manifestação de ontem foi impressionante. O grito de saturação dos professores exige soluções de curto e médio prazos. Os professores não ignoram o milhão de desempregados do país, já que convivem diariamente com os educandos das pessoas atingidas pelo flagelo neoliberal que só protege outro tormento: a corrupção. Mas os professores também sabem que são o grupo profissional da administração pública que é, há anos a fio, mais devastado pelo desemprego.

 

Os professores estão saturados por serem usados como uma espécie de "carne para canhão" que serve para uns estratosféricos andaram pelo mundo a exibirem os seus modelos excel. Estão saturados, mas firmes; e continuam a dar lições de cidadania.

 

A meio da avenida fiz umas fotos. Quer olhasse na direcção do marquês ou dos restauradores, o registo de um mar de indignação enchia-me de orgulho por ser professor em Portugal.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um vídeo com reportagens nos três canais generalistas. 

 



publicado por paulo prudêncio às 09:31 | link do post | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Domingo, 28.04.13

 

 

 

 

 

Ouvi ontem na TSF uma parte, que incluiu o sistema escolar, do muito apaudido discurso de Francisco Assis no congresso do PS. O deputado elogiou o legado de Maria de Lurdes Rodrigues e, para não variar, apontou o dedo às dificuldades criadas pelas corporações. Já cansa. Era bom que Assis revisse o conceito de corporações e talvez concluísse que é mais corporativo do que os acusados.

 

Tem razão quando acusa a direita de ter cavalgado a onda das contestações. Mas esquece-se de dizer que a direita só lá chegou em 2008 (a um ano de eleições), porque antes aplaudia silenciosamente, e que a justa contestação foi iniciada por cidadãos das mais variadas ideologias e convicções. Francisco Assis devia evidenciar essa onda quase heróica (estou a pesar bem) e não se remeter a um exercício de revisionismo.

 

Mas quando se fala em legado de defesa da escola pública fala-se exactamente de quê?

 

Antes de mais, é importante sublinhar que os dirigentes do PS misturam nesse argumentário a ciência e o ensino superior. Francamente: o que de muito positivo os governos do PS fizeram nessas áreas foram políticas conduzidas por Mariano Gago. Tenho sérias dúvidas que esse ex-ministro subscreva o legado infernal de má burocracia, a forma obcecada como se tentou impor uma monstro de avaliação de professores ou, já em fim de ciclo, se decretou uma gestão escolar contra tudo e quase todos.

 

É evidente que o actual Governo prolongou a agonia da escola pública e acentuou-a em áreas determinantes. É verdade que sim. Está agora mais em causa o regresso a níveis impensáveis de abandono escolar e ouve-se muitas vezes o elogio das novas oportunidades. Como sempre se disse, a certificação de competências nestes níveis de escolaridade é um imperativo num país como o nosso. Mas foram os governos do PS que deram cabo da ideia com a febre da propaganda misturada com uma descarada manipulação de dados. Também aí estão por provar os elogios ao legado.



publicado por paulo prudêncio às 18:26 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Sexta-feira, 19.04.13

 

 

 

 

Se Nuno Crato diz que há 105 mil professores nos quadros do ensino não superior, com a eliminação dos cerca de 12 mil lugares conhecidos hoje o sistema escolar passará a contar com 93 mil professores nos quadros (não se sabe o que acontecerá aos que permanecerem nas vagas negativas). Mesmo que mais alguns professores sejam contratados, teremos números parecidos com 1976.

 

Se considerarmos que em 2005 tínhamos cerca de 190 mil professores, em 2014 teremos cerca de metade mesmo considerando os denominados professores contratados.

 

Se alguém argumentar com a suposta descida do número de alunos internem-no ou peçam-lhe, por favor, para não usar o Excel. Recomendem-lhe a leitura deste post.

 

Republico um gráfico deste post recente sobre as previsões para o ano corrente. Acrescentei-lhe a vermelho o panorama para o próximo ano.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 21:17 | link do post | comentar | ver comentários (14) | partilhar

 

 

 

 

O MEC abriu 618 vagas, há quatro anos foram 20.896, para professores do quadro (as informações são fornecidas pelas escolas e depois apuradas nos serviços centrais), mas declara 12.008 vagas negativas em diário da República.

 

O novo concurso de professores tira 12 mil lugares às escolas, conclui o Público. Na actualidade portuguesa é tudo na ordem dos milhares, realmente.

 

É o resultado dos cortes a eito derivados das políticas educativas que no verão de 2012 já tinham originado o despedimento de cerca de 10.000 professores contratados.

 

Ainda há dias ouvi uma deputada da maioria afirmar que se gastou exageradamente na Educação nas últimas décadas, como se fosse possível inverter a tragédia do abandono escolar sem construir escolas e contratar professores. Dentro de alguns anos conheceremos os resultados, mas os responsáveis já estarão sabe-se lá onde.



publicado por paulo prudêncio às 18:48 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 16.04.13

 

 

 

 

 

Apaguei inadvertidamente um comentário nest post assinado por Figueiredo que protestou para o email. Prometi voltar ao assunto. O erro é aceitável: ia apagar um comentário de publicidade oriunda da China e eliminei o anterior de forma irreversível.

 

O comentador discordava da associação entre os agrupamentos de escolas e o abandono escolar no seguinte parágrafo: "(...)Temos muito mais a fazer, mas com a carga curricular desenhada nos achamentos do actual ministro, com menos condições para a profissionalidade dos professores, com mais alunos por turma e com um modelo de gestão escolar que dificulta o apoio aos alunos com mais dificuldades e que lança menos condições organizacionais, os resultados piorarão e corre-se o risco de se perderem os avanços das últimas décadas. E tudo se agravará com uma sociedade mais pobre.(...)".


É simples.

 

A abrupta redução de professores deve-se mais à revisão curricular, ao aumento da componente lectiva dos professores e ao aumento do número de alunos por turma. A variável mega-agrupamentos também contribui, mas menos significativamente.

 

A relação de proximidade entre os membros da gestão das escolas e os alunos em risco de abandono ou insucesso escolares é decisiva e fica comprometida neste modelo, por muito boas vontades que existam. Os professores que leccionam as turmas, e mesmo os directores de turma, não têm condições para esse apoio.

 

Só quem não anda pelas escolas é que desconhece esta realidade num país com quase três milhões de pessoas no limiar da pobreza. Por outro lado, o modelo em curso também desenha serviços administrativos apenas na escola sede o que vem acentuar as dificuldades na relação entre as escolas e as famílias mais pobres e na detecção de pequenos detalhes que são muitas vezes decisivos.

 



publicado por paulo prudêncio às 21:06 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Quarta-feira, 10.04.13

 

 

 

 

 

Quando Nuno Crato repete o chavão de que se fará mais com menos, sinceramente que não percebo a operacionalização da coisa. Se o sistema produzisse material (lembro-me dos alfinetes de Adam Smith) mais mensurável do que o vasto conhecimento das sociedades modernas, bastaria reduzir as pessoas e aumentar as horas de produção. Mesmo assim, qualquer manual de economia aconselharia a que se equacionasse a divisão do trabalho e a extensão do mercado para que os resultados não fossem inversos.

 

Portugal tem um despesismo ligado à organização e ao tratamento da informação (a estafada má burocracia) a que o sistema escolar não escapa. Embora essa realidade dificulte o ensino, os indicadores mais variados são peremptórios: fizemos muito mais porque envolvemos mais pessoas e mais recursos nas últimas décadas. A qualidade do ensino também teve avanços significativos e para todo esse progresso muito contribuiu a melhoria dos diversos indicadores da sociedade (redução da pobreza e por aí fora).

 

Foi isso que o Conselho Nacional de Educação veio hoje sublinhar (no linque indicado, no Público, encontrei o gráfico deste post) ao considerar dramática a situação do sistema escolar. Sobre o mesmo assunto, o Sol diz que os alunos portugueses chumbam menos e já têm melhores resultados do que alemães e franceses e o DN afirma que os alunos carenciados conseguem resultados acima da média.

 

O gráfico é elucidativo. Temos muito mais a fazer, mas com a carga curricular desenhada nos achamentos do actual ministro, com menos condições para a profissionalidade dos professores, com mais alunos por turma e com um modelo de gestão escolar que dificulta o apoio aos alunos com mais dificuldades e que lança menos condições organizacionais, os resultados piorarão e corre-se o risco de se perderem os avanços das últimas décadas. E tudo se agravará com uma sociedade mais pobre.

 

O investimento (no gráfico escreve-se despesa) em Educação já está com números de 2001 e em percentagem do PIB com indicadores semelhantes a 1989.

 

 



publicado por paulo prudêncio às 19:14 | link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Segunda-feira, 11.03.13

 

 

 

 

Os últimos dados do INE sobre a taxa de abandono escolar (conclusão do 9º ano de escolaridade) têm indicadores excelentes sobre o desempenho do nosso sistema escolar: a referida taxa era de 12,6% em 1991 e baixou para 1,7% em 2011.

 

Esta espantosa evolução não deixa o problema resolvido. Há que continuar. Em 43 concelhos, por exemplo, 2,5% a 5% das crianças e jovens, entre os 10 e 15 anos de idade, abandonaram a escola sem concluir o 9º ano de escolaridade.

 

Os parágrafos anteriores têm matéria suficiente para um jornalista fazer vários títulos. O Expresso escolheu o seguinte:

 

 

Abandono escolar persiste em 43 concelhos



publicado por paulo prudêncio às 17:23 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 28.08.12

 

 

 

A eliminação de disciplinas e as outras alterações curriculares, a agregação de escolas e de agrupamentos, o aumento do horário lectivo dos professores (passou de forma "mascarada" e "habilidosa" de 22 para 24 tempos lectivos) e o aumento do número de alunos por turma, são os factores que originaram os denominados horários zero e que vão reduzir de forma drástica o número de professores contratados.

 

A interrogação que muitos colocam é simples: são estas variáveis imutáveis? Se são injustas, também no interesse dos alunos e da igualdade de oportunidades, o que é que se deverá fazer para as alterar?

 

O ministro Nuno Crato afirmou que os professores não serão colocados em regime de mobilidade especial. Alguém confia? Se não se pode confiar no primeiro-ministro nem no chefe do partido mais pequeno da coligação governamental, se o ministro das finanças perdeu a credibilidade técnica e política com a execução orçamental e com o comprovado fanatismo ideológico, duplicam as razões dos que desesperam por formas de luta que sejam concludentes e que envolvam os que defendem a escola pública e a democratização do acesso ao ensino.

 



publicado por paulo prudêncio às 11:46 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Segunda-feira, 20.08.12

 

 

 

Passámos de um país que recebia muitos imigrantes (de África, do Brasil e da Europa de leste) para a condição de nação que vê o seus jovens adultos emigraram em números "impensáveis". Se associarmos a esta mudança nos fluxos migratórios o despedimento das mulheres grávidas, a precarização contratual ou a ausência de horários laborais que se preocupem com o tempo precioso para educação das crianças, temos uma forte explicação para a quebra da natalidade.

 

Esta condição afectará o sistema escolar daqui a uns anos. Mas o que mais influencia os números é a vergonhosa taxa de abandono escolar precoce. O nosso sistema escolar terá algum decréscimo de frequência no pré-escolar e no primeiro ciclo durante esta década, mas terá de aumentar a frequência escolar nos 2º e 3º ciclos e principalmente no ensino secundário se quiser continuar a caminhar em direcção à civilização.

 

Há uma questão que deve ser unânime e que deve mobilizar quem se interessa pela generalização da escolaridade: o número de alunos por turma. Numa sociedade com as nossas características, definir um valor à volta de 20 deve significar um elementar sinal de inteligência, de sensatez e de preocupação com o futuro.



publicado por paulo prudêncio às 21:52 | link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 14.08.12

 

 

 

É antiga e comprovada a ideia de que se a Educação é cara a ignorância é-o mais.

 

Temos oito séculos de história com momentos altos de afirmação no mundo das nações, mas chegámos ao século XXI com taxas de abandono escolar precoce que nos envergonham, apesar dos níveis de excelência do nosso sistema escolar registarem melhorias qualitativas e quantitativas.

 

Mas também se sabe: sociedades com baixa escolaridade e com fracas classes médias são pouco exigentes e rapidamente se "cansam" de investir na escolarização; classificam de despesismo os aumentos nos orçamentos do sistema escolar e só voltam a acordar quando os indicadores chocam as consciências.

 

Portugal volta a entrar num período de trevas. Com o empobrecimento acentuado das áreas sociais, com o radicalismo ideológico da nacionalização da dívida dos privados, com o aumento do número de alunos por turma, com a precarização das condições laborais dos professores, com o preconceito da "licealização" dos currículos e com o aumento da escala da gestão escolar num modelo impensado e de acentuada desumanização, só podemos esperar que aconteça com o abandono escolar o mesmo que se verifica com o desemprego.

 

Taxa de desemprego com novo máximo de 15% no segundo trimestre



publicado por paulo prudêncio às 14:38 | link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Terça-feira, 19.06.12

 

 

 

Ninguém contestará que os indicadores de excelência da nossa população que frequentou o sistema escolar público se equiparam ao que de melhor existe no mundo conhecido e são frequentes os elogios aos nossos cérebros nas mais diversas áreas. O nosso problema é mais de replicação e de generalização, de democracia, digamos assim; e é secular.

 

Não será preciso uma qualquer bola de cristal para perceber que, em regra, o que as escolas fazem bem uma boa parte da sociedade não acompanha e ponto final (haverá casos inversos, naturalmente).

 

Se, como se tem visto, centrarmos a acção na mudança constante de procedimentos escolares, degradaremos a excelência do serviço que têm prestado, como se constata, e não atenuaremos as insuficiências da sociedade. O gigantesco desafio que se coloca a Portugal passa pela transformação da ambição escolar numa metabolismo basal como o repouso ou as refeições.

 

Dá ideia que quase que eliminámos o analfabetismo, mas que estamos desorientados no combate ao abandono escolar precoce. A proliferação de alternativas ao ensino regular (CEF, EAF, NO, CA e por aí fora) mascaram o problema e têm "salvado" alguma da população destinada à não escolarização. Também aí importa reduzir a demagogia e sustentar a seriedade e a inteligência.

 

Acabar por acabar é agora popular e continuamos sem vislumbrar o que quer que seja no sentido de envolver mesmo a sociedade no combate contínuo ao flagelo. E convenhamos: lançar exames em catadupa pode não ser apenas redundante, já que o nosso problema não é sequer a excelência, como pode ter o mesmo efeito do que as gravações de assembleias de risos que tentam animar programas humorísticos televisivos de fraca qualidade e recorda-me sempre uma nação de poetas sem vida.

 

Crato quer mais exames a mais disciplinas



publicado por paulo prudêncio às 14:16 | link do post | comentar | partilhar

Sexta-feira, 15.06.12

 

 

 

Não há pior retrato para uma sociedade do que o que indica que não sabe o que fazer com as crianças ou com os idosos. Portugal entrou nesse espiral e vai ser difícil sair.

 

Quando começam as férias escolares, o impensável entra na ordem do dia: o que fazer com as crianças? Quem diria que chegaríamos a este ponto.

 

É o sinal mais evidente de que o abandono escolar precoce aumentará e que a natalidade percorrerá o caminho oposto. Enquanto não encararmos de frente a ideia de que a sociedade não pode estar ausente na educação das crianças e que a escola não pode transbordar de responsabilidades, os nossos indicadores colectivos não pararão de nos envergonhar.

 

As férias estão aí. Para onde vão as crianças a partir de segunda-feira?



publicado por paulo prudêncio às 15:34 | link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar


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