Em busca do pensamento livre.
Domingo, 18 de Maio de 2014

 

 

 


 

Lembrei-me desta reedição a propósito da polémica com a logística para os exames das crianças (sim, crianças) do 4º ano de escolaridade. Mesmo considerando a importância do assunto (as crianças nessas idades têm pouca voz; não votam, por exemplo; ah, claro, não se manifestam nem fazem greves e nas sociedades mais atrasadas são tratadas como adultos em miniatura ou, pelo contrário, são o centro da vida), a pachorra vai tendo limites). É bom que se sublinhe o óbvio: nada tenho contra testes e exames.

 

 

 

São coisas difíceis de entender.

 

Mas para que é que servem, realmente, os exames?

 

Se confiamos no professor para leccionar as aulas durante o ano inteiro, por que é que no fim havemos de duvidar da classificação que atribui aos alunos?

 

Se o professor é mau e pode estragar os alunos, no fim o mal já está feito, com ou sem exame. Mas os alunos, que já não basta terem gramado com o mau professor, ainda têm de fazer exame para duplicar a sua azarada condição.

 

Se o professor é bom, bastava o processo das aulas, uma vez que os resultados dos exames nunca diferem muito da nota do professor e podem, quando muito, tramar os alunos que tiveram um dia mau.

 

Se o professor é assim-assim, acontece um bocado das duas coisas e estamos, por isso, conversados.

 

Então? Por que raio é que há exames?

 

Para aferir conhecimentos?

 

Bem, isso seriam provas de aferição e poderiam ser feitas, por amostra, em qualquer altura.

 

Para os alunos estudarem mais?

 

Não, por aí também não podemos ir. A avaliação contínua assenta em vários exames realizados ao longo do ano lectivo. Mal do país que tem de pensar assim: ensinar, estudar e aprender tem de valer um bom bocado mais do que isso. E cada escola pode ser avaliada pela exigência e pelo rigor que coloca no seu ensino sem os exames. É mesmo decisivo que seja assim, parece-me.

 

Para estudos internacionais?

 

Bem, esses, e salvo melhor opinião, servem para alimentar tecnocratas que estão a milhas, a quilómetros, das escolas, mas que têm que fazer os seus estudos. Não, para isso também não servem. Aceitam-se uns testes por amostra, de quando em vez, para que o desemprego não seja praga também aí.

 

Para hierarquizar as escolas?

 

Não, já se viu que não. As escolas são, felizmente, muito mais do que examinar os saberes numa ou em duas disciplinas: e nisso, no muitíssimo mais do que os exames, nem se auto-avaliam nem são avaliadas externamente; por sistema e com rigor.

 

Para hierarquizar os alunos na entrada para a universidade?

 

Claro, aí tem que ser. Mas não tem nada que ser. Já pensou nisso meu caro leitor? Há sítios em que no final do secundário a escola diz se o aluno está apto ou não e depois as universidades escolhem quem lá se matricula. Tão simples como isso.

 

Serão, portanto, os exames tão necessários assim?

 

É uma questão técnica de regulação dos sistemas que pode, e deve, ser utilizada. O problema é outro e bem mais profundo: somos uma sociedade desconfiada e em que os média promovem um verdadeiro caldo de "conversa da treta". E isso mina tudo: as relações entre as pessoas e a selecção dos melhores caminhos para construir o futuro.

 

Já por lá andámos e saímos: não tarda voltaremos. De outro modo, é seguro, já que as aprendizagens (processo demasiado desconhecido) individualizadas associadas às vantagens da ciência assim o exigirão. A escola da má burocracia morrerá aos poucos e muito lentamente, mas morrerá. As fábricas de ensino não sobreviverão. Na pior das hipóteses, os ricos pagarão a frequência do ensino e os pobres arrastar-se-ão, com um controle férreo e burocrático, nas antigas unidades fabris em versão piorada: mais baratas e mas desqualificadas.

 

Reedição. 1ª edição em 10 de Julho de 2008.



publicado por paulo prudêncio às 21:15 | link do post | comentar | partilhar

34 comentários:
De Redes a 15 de Julho de 2008 às 16:29
Paulo,
Reconheço que há de facto demasiado espaço para a banalidade actualmente. Como por exemplo essa de condenar em bloco as Ciências da Educação. O que temos é que ultrapassá-la, aprofundando as questões.
Não vejo que os exames sejam em si próprios um problema. E mais um desafio que os alunos têm que enfrentar.
Os exames põem em causa as classificações dos professores, apenas no sentido em que cada um tem que reflectir sobre as diferenças. Trata-se de compreender o que está em causa que pode ser muita coisa. Podemos ter negligenciado itens programáticos, por exemplo. Pode ser que o desajuste seja geral e haja um problema com o enunciado - demasiado fácil ou demasiado difícil. Oiço todos os anos comparações entre notas - há professores que acertam e outros que se desviam ou para baixo ou para cima. Por vezes, diferenças brutais!
O que os exames têm de interessante é haver uma outra instância avaliativa que coloca professores e alunos do mesmo lado.
Acho banais e superficiais a oposição entre a chamada avaliação contínua e os testes ou exames. Não sei muito bem o que é isso de estar a avaliar continuamente. Estamos a aprender a realizar uma tarefa e há um momento em que mostramos que somos capazes de a realizar. Por, vezes, cruelmente, apenas um momento. Vamos concorrer a um emprego depois de anos de preparação e lá há um tipo que olha para nós e já nos fez o retrato! Muito bem, o seguinte! Há coisas que são assim: um momento em que se joga o trabalho de anos. O que podemos fazer honestamente é multiplicar os momentos de avaliação e criar novas oportunidades para os que falham.


De Redes a 15 de Julho de 2008 às 16:33
Correcção: Acho banais e superficiais a / Acho banal e superficial a


De paulo prudêncio a 15 de Julho de 2008 às 16:42
Olá Luís.

Dizes: "Reconheço que há de facto demasiado espaço para a banalidade actualmente. Como por exemplo essa de condenar em bloco as Ciências da Educação. O que temos é que ultrapassá-la, aprofundando as questões".

Absolutamente de acordo.

Dizes: "Acho banais e superficiais a oposição entre a chamada avaliação contínua e os testes ou exames. Não sei muito bem o que é isso de estar a avaliar continuamente".

Também posso concordar.

Quando referi banalidades não me estava a referir às questões que colocas, claro, mas ao modo com a agenda mediática vai afunilando esta discussão retirando energias para se tratar do essencial. Nesse sentido, o conteúdo deste teu comentário é subscrito por mim.

Mas este já é outro nível de discussão. E volto ao princípio: mas para que é que servem realmente os exames? Quando muito deveriam servir para o que acabas de escrever e com a ideia de transitoriedade. Mas devemos querer mais da escola para que ela seja oxigenada e reinventada: e isso é tão necessário.

Abraço e obrigado.


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