Em busca do pensamento livre.
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

 

 

 

 



(1ª edição em 10 de Junho de 2007)

 
Iniciava o exercício, e o privilégio, de gestão de uma escola portuguesa: decorria o ano de mil novecentos e noventa e sete e o estabelecimento de ensino integrava um território de intervenção prioritário: ou seja, a escola estava rodeada por problemas sociais graves e isso inundava o seu projecto educativo.

Havia que arregaçar as mangas e consumir as energias todas no essencial.

Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.

As minhas tarefas exigiam-me um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e conversámos sobre as soluções.

Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".

Ficámos estarrecidos e sem palavras. Lá nos recompusemos, trocámos algumas opiniões sobre o futuro e partimos.

Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da familia e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social mas o senhor não estava. Mas porque é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"

Respondeu-me prontamente:"sabe, o problema é o seguinte: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida toda e depois nunca acontece nada. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".

Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias.


publicado por paulo prudêncio às 12:25 | link do post | comentar | partilhar

75 comentários:
De NMM a 10 de Junho de 2007 às 22:06
impressionante, uma coisa que a um primeiro olhar nu parece completamente descabida e demonstrava desinteresse total , de um momento para o outro passa a fazer todo o sentido, é lógico que o respeito não se pode medir pela classe social de cada um , e também seria lógico que depois de autênticos interrogatórios esse homem visse algo a mudar para melhor, mas infelizmente o estado português à muitos anos que sofre de dois síndromes bem graves o da coscuvilhice " e o da indiferença total pelas pessoas que mais presisam.
infelizmente à muito tempo que neste pais que o estado mede o respeito em função da condição social


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 10 de Junho de 2007 às 23:15
Olá Nuno. Obrigado. É tudo isso meu amigo, com as honrosas excepções, como muito bem tens escrito. [] Paulo


De pinceladaescolar a 14 de Junho de 2007 às 15:29
É só para dizer que "há muitos anos" e "há muito tempo" escreve-se com"h"! (Verbo haver, ok?)


De Paulo Prudêncio. a 14 de Junho de 2007 às 19:29
Obrigado. Mas onde é que encontrou o erro? Abraço.


De Paulo Prudêncio. a 14 de Junho de 2007 às 19:31
Ok, já percebi. No comentátio do jovem portuga. Vá Nuno, percebe lá isso. Abraço aos dois.


De edite estrela a 11 de Junho de 2007 às 19:03
Quem é que tem escrito bem? O portuga? De certeza? Há quanto tempo?


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 11 de Junho de 2007 às 19:55
Olá Edite. O portuga é um jovem aluno da minha escola. Tem um blogue e escreve, prosa e poesia, com muito sentimento. Desejo-lhe as maiores felicidades e a si também. Obrigado por passar por aqui.
[] Paulo.


De Pedro a 12 de Junho de 2007 às 11:02
Olá,

O seu blog foi novamente destacado na Homepage dos Blogs (http://blogs.sapo.pt) e do próprio SAPO (http://www.sapo.pt), na área relativa aos blogs.

Em nome da equipa dos Blogs do SAPO, parabéns e boa continuação :-)

Pedro Neves


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 12 de Junho de 2007 às 15:16
Obrigado Pedro.


De Rosa... a 12 de Junho de 2007 às 13:05
Está giro o início "acabava de iniciar"... : )


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 12 de Junho de 2007 às 15:21
Olá Rosa e obrigado por passar por aqui. A ideia era: concluía o início, a primeira etapa, ou seja, até já estava disponível para umas saídas. Mas sabe como é: escrever dá trabalho e estes textos nem sempre têm o tempo que mereciam. Mas corrigi: iniciava e ponto final :) Ri a bom rir com a sua sugestão.
[] Paulo


De Redes a 13 de Junho de 2007 às 02:00
Boa! Parece-me que já tinha lido.
Esta faz-me lembrar um sketch do Gato Fedorento que é um consultório de médicos ao contrário: um doente no consultório e médicos na sala de espera!
Enfim! Parece que os pobres não chegam para tantas assistentes sociais.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 13 de Junho de 2007 às 10:30
Olá Luís. É a primeira vez que escrevo isto. Já te ouvi dizer que há mais instituições do que pobres :) [] Paulo.


De Redes a 14 de Junho de 2007 às 23:54
Agora me lembro: não li. Ouvi-te, literalmente a dizer isto.
Às vezes também se escreve quando se fala.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 15 de Junho de 2007 às 00:32
Olá Luís. É isso mesmo. Tem piada que tenho este post num rascunho há mais dois anos, salvo erro. Nem sei o "porquê", mas deixava sempre a publicação para outra altura. É uma das histórias que mais me ensinou e é seguro que a terei partilhado contigo. Abraço do Paulo.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 13 de Junho de 2007 às 09:50
Olá.


De Nelson Roque a 13 de Junho de 2007 às 17:44
O teu blogue é uma must... visita o meu.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 13 de Junho de 2007 às 18:11
Olá Nelson. Obrigado. Visitarei o teu de seguida. Um abraço do Paulo.


De Nelson Roque a 13 de Junho de 2007 às 19:42
Man adoro o teu blogue, principalmente a tua escrita, continua com o excelente trabalho


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 13 de Junho de 2007 às 19:43
Obrigado. Abraço.


De CARPE DIEM a 18 de Junho de 2007 às 21:43
A postura deste pai de sete filhos echeu-me de esperança, pois enquanto houver pessoas assim, haverá sempre esperança.


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 18 de Junho de 2007 às 22:15
Olá. Obrigado pela visita. Estou de acordo consigo. Abraço.


De anónimo a 11 de Outubro de 2007 às 17:08
Não quero generalizar (e abençoadas excepções!), mas a institucionalização cria os "pobrezinhos". São formulários para isto, patamares para aquilo, comprovativos para aqueloutro...
Alguém alguma vez viu qualquer instituição, organismo,etc., resolver verdadeiramente algum caso de pobreza ou "degradação" familiar? Eu não... Vejo cada vez mais famílias dependentes.... Esses são os "pobrezinhos" pois estão presos a um sistema que os asfixia, sempre dependentes do tal rendimento ou subsidio, sob tal condição, sob tal obrigatoriedade...Até quando?...Até que deixem de ser pobres? E quando o subsidio acaba?
De facto, haja dignidade...


De Paulo G. Trilho Prudêncio a 11 de Outubro de 2007 às 18:47
Obrigado pelo comentário. Abraço.


De Hermes a 2 de Julho de 2008 às 00:34
Da mesma maneira que em Kafka o filho justifica um Deus desconhecido, os miseráveis justificam um Estado que tudo conhece, muito manda e pouco se justifica.


De paulo prudêncio a 2 de Julho de 2008 às 00:37
Belo, muito belo mesmo. Abraço e obrigado por comentar.


De hermes a 2 de Julho de 2008 às 00:50

Julgo ter percebido ser da Comissão Executiva duma Escola. Admiro o seu trabalho: é dos mais complexos, difíceis e ignorados do mundo. Mas dos mais importantes. Um abraço e força. E viva a democracia na Escola!


De paulo prudêncio a 2 de Julho de 2008 às 00:59
Já fui. Fui presidente do Conselho Executivo de um escola durante três mandatos consecutivos. Estava muito entusiasmado e as coisas, e desculpe-me a imodéstia, até corriam muito bem. Mas quis dar um pequeno exemplo: auto-limitei os mandatos, disse-o logo de início, aspecto não contemplado na lei. Um imperativo democrático. Tem razão Hermes: feito com responsabilidade, com sentido de autonomia, com coragem, com compaixão, com dedicação aos detalhes é, mais do que difícil: é violento. Portugal é um país muito centralizado e a sociedade portuguesa é aquilo que se sabe.

Abraço e obrigado por comentares. E viva democracia na escola :)


De Francisco a 25 de Outubro de 2009 às 23:22
Soberbo Paulo.


De Outro_Navegador a 18 de Dezembro de 2009 às 16:19
Soberbo e intemporal. INFELIZMENTE:


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