Em busca do pensamento livre.
Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

 

 

Ao que chegámos! O que é isto?

 

Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia

De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos

Texto de João André Costa • 03/04/2017 - 07:51 

 

Todos os dias vou para a escola. À chegada, encostados a um muro, os alunos do costume, do 7.º ao 10.º ano a enrolar charros, a fumar charros, a vender charros. Digo-lhes “Bom dia”, eles mandam-me para o c... e eu continuo, porque quando me mandam para o c... é bom sinal, é sinal de que ainda estão vivos, não vá um ficar estendido ao comprido do portão da escola como no mês passado mais os tios, as tias, os pais, as mães e primos mil a acusarem-nos de deixar os filhos fumar droga à porta da escola, e eu quando eles fumam droga é do melhor, a dormir sobre as mesas da sala de aula perante o olhar indiferente dos colegas ou das contínuas, não vá alguém acordá-los, porque ao menos enquanto dormem e curam a “pedrada” não chateiam e quando alguém os acorda é do pior, pegam logo no telemóvel enquanto me chamam de filho da p... para baixo e ameaçam partir-me os dentes todos.

Sou professor. Mas não dou aulas, finjo que dou aulas e de manhã à noite separo alunos e alunas desertos por andar à porrada, levo sopapos, bofetadas, empurrões e estaladas, cospem-me na cara e dão-me pontapés, mas antes assim, porque às crianças nem uma nódoa negra que se veja ao chegar a casa quando ainda ontem a Luísa, professora de História, acabou no hospital depois de um encarregado de educação lhe perfurar um pulmão entre um par de murros na cara, os óculos partidos e não sei quantos pontapés enquanto a coitada da Luísa se torcia e esvaía no chão.

Chamar a polícia? Nem pensar, da última vez que aqui vieram era ver os alunos, ao melhor estilo dos macacos, saltar por cima do portão da escola e apedrejar os vidros do único carro do posto, agora inoperacional por falta de fundos, assim dizem eles ao telefone, ou então miúfa, muita miúfa.

Mas eu é que não posso ter miúfa, nem eu nem os meus colegas, caso contrário não temos emprego nem salário, a minha mulher vive a 200 quilómetros com uma filha recém-nascida entre os braços e as serras e alguém tem de pagar os “aptamis” agora que lhe cessaram o contrato de trabalho. É preciso ter azar.

Por isso venho para a escola todos os dias ao mesmo tempo que cadeiras voam dentro das salas, alunos correm de faca na mão uns atrás dos outros, vidros estilhaçam, computadores são partidos ou roubados, ou partidos e roubados, conforme aprouver às pobres crianças, porque contrariá-las nem pensar, para já não falar dos pneus dos carros dos professores, tantas vezes substituídos por tijolos em pleno dia, e eu às vezes gabo a capacidade destas crianças para a mecânica, pelo que até já fui falar com o senhor Director e propor a criação de um curso profissional, e não tivessem as ferramentas sido todas roubadas à chegada à escola e, estou certo, os nossos alunos teriam um futuro brilhante à sua frente. Estou mesmo certo.

De facto é preciso gostar muito de ser professor para se continuar a ser professor. Ou isso, ou somos mesmo parvos. Ou, se calhar, não há outra alternativa senão a do desemprego. Vou pela terceira hipótese. E por isso continuo, ano após ano, cada vez mais longe de casa, cada vez mais próximo da Lisboa periférica, dos bairros periféricos, das vidas periféricas, para sempre condenadas a girar ao redor de nada, sem passado, presente ou futuro que as sustente, e eu lá no meio da reportagem da RTP enquanto uma mãe me encosta contra a parede e me perfura a barriga com uma faca do pão depois da filha lhe ter dito ter sido violada por um colega na minha sala de aula, e eu enjoado a segurar a barriga e as mãos quentes cheias de sangue quente a fugir-me com a cabeça de encontro ao chão, incapaz de lhe explicar que a filha já não vem à escola desde a semana passada, até porque a mulher já tem as mãos no meu pescoço e eu sufoco mais ou menos ao mesmo tempo que um grupo de populares persegue e pontapeia a equipa da RTP, arauto da liberdade e da informação. Hoje morreu um professor, mas isso não foi notícia."



publicado por paulo prudêncio às 13:47 | link do post | comentar | partilhar

6 comentários:
De F a 3 de Abril de 2017 às 14:31
O caro colega vai desculpar esta minha opinião perante a leitura do texto que colocou.
Não é preciso isto. Os filmes de terror conseguem ser mais suaves do que aqui ficou escrito.


De paulo prudêncio a 3 de Abril de 2017 às 15:20
A escolha é do P3 do Público e o meu comentário - até dói ou ao que chegámos - vai nesse sentido. Normalmente não publico coisas assim; nem leio, sequer. Mas comecei este e chocou-me. Só me interrogava: o que é isto? Para mim, é um mundo desconhecido: tive, mas há muitos anos, uma turma de alunos da ribeira do Porto que eram deste género. Enfim: ao que chegámos. Note-se que o texto não é apenas um exercício literário.


De Redes a 3 de Abril de 2017 às 23:57
O autor é professor na Inglaterra. Deve ter visto o caso pela televisão. O João André, noutro post, esclarece que assumiu nacionalidade inglesa e ficará lá apesar do Brexit. É, pois, um exercício em defesa da classe.


De F a 4 de Abril de 2017 às 12:31
O "exercício em defesa da classe" saiu muito hiperbolizado, o que acabou por ser exercício mas sem atingir o objectivo- o da defesa da classe.


De paulo prudêncio a 4 de Abril de 2017 às 17:16
É evidente que pode ser considerado um exercício de defesa de uma classe e que saiu "muito hiperbolizado". Mas não deixa de arrepiar, mesmo que seja uma aproximação algo distante do real.


De paulo prudêncio a 4 de Abril de 2017 às 17:14
Olá Luís.

Ou seja: é um caso que passou na televisão portuguesa? Não imaginava que tínhamos problemas tão graves.


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