Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008
escolas sem oxigénio

 





(...e Sua Excelência, esperto e oportuno, e
enquanto esfregava as mãos de tanta satisfação,
sentenciava: - as pragas, para sobreviverem,
precisam de oxigénio...)


Estive presente numa reunião de professores, realizada numa das escolas das Caldas da Rainha, para dar corpo a um movimento que nasceu na blogosfera e que se destina a manifestar a mais veemente discordância com o regime que se prevê que venha a organizar a avaliação dos professores do ensino básico e secundário.

Encontrei um movimento com ideias precisas e consciente do caminho a seguir. Esperam os seus promotores, pessoas atentas, empenhadas e com opinião, a constituição de uma associação sócio-profissional, ou de algo com um cariz semelhante, interessada em fazer ouvir-se no domínio do estatuto da carreira docente e nos aspectos referentes à avaliação do desempenho.

O assunto interessa a todos os professores e pretendo manifestar a minha opinião. Alargam-se os espaços de intervenção e de discussão. Digamos que a situação é de crise.

Importa situar a argumentação.

Os estudos do domínio da teoria da informação têm várias décadas. Recordo-me particularmente das teses de Michael Scriven e de Daniel Stufflebeam sobre os critérios determinantes para a organização dos sistemas de suporte à tomada de decisões: importa, desde logo e em primeiro lugar, delimitar a informação - fazer a depuração entre a informação que é estruturante e a que não é - com o objectivo de obter dados para os fornecer; ou seja, a recolha de informação tem como intenção primeira, e única na grande maioria dos casos, a produção de conhecimento - acrescentou-se, mais tarde, o imperativo de constituir-se os sistemas com a ideia do binómio "obtenção/fornecimento" ser exercido em tempo real e com o recurso às novas tecnologias -.

Tudo isto é, hoje, do conhecimento geral. Acredito que, a partir deste simples enunciado, possa dar mais consistência ao meu raciocínio.

Centremos, então, o discurso no exercício do governo actual e nas suas políticas, tendo como referência última a polémica sobre a avaliação do desempenho dos docentes. No momento da tomada de posse, a opinião publicada, a União Europeia e as correntes económicas que dominam o mundo, exigia dois objectivos inadiáveis: a redução orçamental e o crescimento da economia. O Ministério da Educação teve um contributo decisivo: com o apressado processo de agrupamento de escolas e com o fim quase generalizado da redução da componente lectiva dos professores para o exercício de cargos, reduziram-se em cerca de vinte mil o número de docentes em funções; com a criação da categoria de professor titular, dos cerca de sessenta mil docentes integrados nos três mais elevados escalões da carreira só dezassete mil ocuparam vaga - estou e referir-me aos docentes que estavam nos 8º e 9º escalões da carreira e que conseguiram o lugar de titular -.

Se o primeiro objectivo contribuiu decisivamente para a redução do défice orçamental, o segundo garante a sustentabilidade do sistema a médio prazo. Nunca mais teremos tantos docentes, nem nada que se pareça, nos três escalões de topo. Mas era necessário mais: importava controlar rigorosamente as progressões na carreira, estabelecendo vagas nos diversos patamares: criou-se um novo sistema de avaliação do desempenho.

Por outro lado, e na lógica da modernização da administração pública, estabeleceu-se um programa de simplificação dos procedimentos administrativos: o simplex. Estamos todos recordados, do orgulho com que o primeiro-ministro anunciou a primeira bandeira do vasto elenco de medidas: o fim do burocrático e inacreditável processo de renovação de matrículas nas escolas portuguesas.

E o que é que se passou a seguir na educação? Nada. Há alguém que se atreva a dizer que a equipa que governa este ministério introduziu, sequer, uma única medida de simplificação? Não. Pelo contrário. E porquê?

Por excesso de centralização e por uma ausência assustadora de ideias modernas de gestão de acordo com os princípios enunciados pelos autores que referi. Nota-se uma evidente sobranceria, uma gritante incapacidade para ouvir os outros, constata-se uma notória incompetência e um corte radical com o sonho e com a poesia.

Sistematizemos então.

Os professores devem pugnar pela sua formação científica e esperar as melhores condições para a realização das suas aulas.

As escolas devem simplificar todos os procedimentos, eliminando as toneladas de informação não delimitada (e, aqui, deve ler-se: que não serve para nada, ou, que só serve para a ter por "precaução" e não para a obter e fornecer em tempo real) e refiro-me concretamente a: grelhas e fichas normalizadas para tudo e mais alguma coisa, sumários, relatórios para arquivo e com  a destruição anunciada no prazo mínimo de cinco anos, actas e projectos curriculares de turma, fichas de avaliação sumativa interna e currículos escolares adaptados, listagens de objectivos mínimos, critérios de avaliação, informação prévia aos encarregados de educação do número de aulas previstas em cada uma das disciplinas e dos conteúdos programáticos das mesmas, projectos educativos que nada dizem e que multiplicam o que está escrito nos inúmeros documentos reguladores do sistema, revisões e mais revisões de regulamentos internos e, sei lá, tudo aquilo que não corresponda a informação essencial e de suporte a decisões estruturantes e já agora, que não seja objecto de tratamento por instrumentos do âmbito das novas tecnologias.

A cada docente deve ser solicitado a classificação de cada um dos seus alunos e nada mais. Sabe, assim, o docente, que é responsável e que tem autoridade, e que, por isso, deve estar ponto para o justificar a qualquer momento. Mais: deve também estar preparado para, a qualquer momento, escrevo-o de novo, explicar as suas opções didácticas. A escola, de acordo com a sua autonomia responsável, deve organizar o tratamento da sua informação, estabelecer os seus documentos reguladores e ser avaliada por isso numa lógica moderna que valorize e estimule os processos de simplificação de procedimentos. O que proponho nem é nada de inovador: acontece em escolas, muitas delas bem atrás de algumas das nossas no que se refere à utilização dos recursos da sociedade da informação e do conhecimento, de países deste mundo e não doutro.

Os governos devem tratar dos programas e dos exames nacionais, das melhores medidas para a gestão de recursos humanos, da organização da rede escolar, e da simplificação dos procedimentos administrativos conducentes à obtenção da informação que suporta as decisões nos domínios referidos. Deve também organizar a rede de formação científica dos docentes e os programas de avaliação externa das escolas de acordo com princípios modernos de gestão da informação.

E o que é que está a acontecer?

Já nem vou referir uma das suspeitas que tem sido referida: o governo, por estratégia de gestão política inspirada nas teses de um senhor que nasceu em Florença no século quinze, começou por denegrir a imagem pública da classe de professores para abrir caminho às medidas de contenção orçamental. Não vou por aí. Era pedir demais.

Guio-me por aquilo que alguém chamou de "eduquês". Quase tudo - já que há escolas, e muitas, que se orientam pelo mais exclusivo e atávico conjunto de procedimentos organizativos - o que referi e que causa o bloqueio da informação nas nossas escolas é estimulado e dirigido pelo poder central. A cultura, dos dois níveis de decisão, é, na esmagadora maioria dos casos, a mesma: para nossa desgraça. E é isso que contamina todos os programas, com particular saliência, no momento actual, para o regime de avaliação do desempenho dos professores. Tudo é dirigido e normalizado a partir da cúpula e sem a mínima evidência do espírito simplex. Pelo contrário. Basta ler o decreto que regulamenta a avaliação do desempenho e embater na utilidade dos indicadores de medida, na finalidade do projecto curricular de turma, na ideia de projecto educativo, de plano de actividades ou de regulamento interno, ou mesmo nas referências à definição de objectivos individuais.

Este não é o caminho e não basta adiar prazos. Se tem de se estabelecer vagas para afunilar as progressões na carreira, se não há financiamento para suportar a massa salarial dos professores de acordo com o que vinha acontecendo, que se deixe às escolas e, no caso da avaliação do desempenho, aos departamentos curriculares, a responsabilidade de avaliar os seus professores, de acordo com as orientações do conselho científico. Cada uma das escolas deve organizar-se de modo a decidir as progressões na carreira de acordo com as vagas estabelecidas. E o processo só deve iniciar-se após a publicitação dos números.

De uma coisa podemos estar seguros: qualquer que seja o regime, um docente que esteja no sétimo escalão pode estar anos a fio, quiçá até ao final da sua carreira, sem progredir de escalão. Exemplos destes multiplicam-se nos diversos patamares e isso não estimula quem quer que seja. A carreira de professor vai adoecer gravemente e isso pagar-se-á a prazo. Conhecem-se países mais desenvolvidos, que, por terem seguido caminhos semelhantes ao que nos é proposto, não conseguem cativar os jovens para o aliciante exercício docente.

Afinal, ainda não foi desta que demos a primazia às pessoas.

 


publicado por paulo guilherme trilho prudêncio às 09:25
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21 comentários:
De Cristina a 11 de Fevereiro de 2008 às 12:04
Boa reflexão!


De Paulo G. T. Prudêncio a 11 de Fevereiro de 2008 às 12:44
Obrigado. Beijo.


De cibele a 11 de Fevereiro de 2008 às 13:54
Gostei de te ler.
Dia 23 lá estarei.


De Paulo G. T. Prudêncio a 11 de Fevereiro de 2008 às 15:18
Obrigado Cibele. Ainda bem que gostaste, embora já conheças bem o teor :). Beijo.


De Redes a 11 de Fevereiro de 2008 às 23:36
Paulo, acho a tua reflexão muito profunda, mas tudo isto é muito complexo e há pouca coisa que não seja "um pau de dois bicos". Isto, menos que um comentário, são notas de leitura.

- Concordo inteiramente contigo nisto:

"Os governos devem tratar dos programas e dos exames nacionais, das melhores medidas para a gestão de recursos humanos, da organização da rede escolar, e da simplificação dos procedimentos administrativos conducentes à obtenção da informação que suporta as decisões nos domínios referidos."

- De certo modo, estás a confluir na análise do António Barreto (ver Público de domingo, 10 de Fevereiro).

- Receio, contudo, que a maioria dos professores, que já têm realmente a perspectiva de perder, ou de ganhar alguma coisa, por exemplo, uma subida de escalão, o cargo de titular ou outra treta, não aceite a descentralização.

- É verdade que "tudo é dirigido e normalizado a partir da cúpula e sem a mínima evidência do espírito simplex ".

- Pergunto se isto não será provocado para garantir a "justeza" da avaliação. Duvido que a maior parte dos professores esteja preparada para aceitar que na sua escola haja alguém que pode promover um colega em prejuízo de outro, sem que uma tonelada de fichas, formulários, observações, etc. garanta que há critérios cumpridos.

"Basta ler o decreto que regulamenta a avaliação do desempenho e embater na utilidade dos indicadores de medida, na finalidade do projecto curricular de turma, na ideia de projecto educativo, de plano de actividades ou de regulamento interno, ou mesmo nas referências à definição de objectivos individuais."

- De facto, talvez alguma destas coisas tenha um impacto efectivo na prática docente, mas o quê? É aqui que a tua acusação de eduquês " é mais pertinente, pois é uma ideologia que deforma a realidade através duma terminologia esotérica.

"Se têm de se estabelecer vagas para afunilar as progressões na carreira, se não há financiamento para suportar a massa salarial dos professores de acordo com o que vinha acontecendo, que se deixe às escolas e, no caso da avaliação do desempenho, aos departamentos curriculares, a responsabilidade de avaliar os seus professores, de acordo com as orientações do conselho científico".

- Pois, a solução será remeter todas as tensões que agora opõem professores ao Ministério para dentro das escolas. Isso vai acontecer, duma maneira ou doutra. Estou ansioso para ver o que propõe a Associação dos Profs . em Luta.

Isto é muito grave: "Qualquer que seja o regime, um docente que esteja no sétimo escalão pode estar anos a fio, quiçá até ao final da sua carreira, sem progredir de escalão."

"Conhecem-se países mais desenvolvidos, que, por terem seguido caminhos semelhantes ao que nos é proposto, não conseguem cativar os jovens para o aliciante exercício docente."

- Bem, por agora o problema não é esse: o mercado está cheio de candidatos a professor, ainda que com vencimentos baixos. É por isso que o Ministério se pode arrogar a esta política.


De Paulo G. T. Prudêncio a 12 de Fevereiro de 2008 às 00:17
Obrigado por leres e obrigado por comentares. Também estou de acordo contigo. É claro que, a situação que proponho para a avaliação de professores, é um pau de dois bicos. Mas não vejo alternativa. Mas gostava de conversar contigo sobre isso e sobre todas as outras questões que refiro. Terminas com uma questão interessante: há muitos jovens desempregados. Tb foi assim noutros sítios, mas passados 10 ou 20 anos não havia professores. Para além disso, não têm jovens que tenham escolhido ser professor como primeira escolha. E isso pode fazer toda a diferença. Depois conversamos. Gostei muito das tuas atentas e esclarecedoras notas de leitura. Abraço.


De anónimo a 12 de Fevereiro de 2008 às 00:14
Espaço muito informado, rigoroso, sensato. Gosto. Parabéns. JMA


De Paulo G. T. Prudêncio a 12 de Fevereiro de 2008 às 00:24
Muito obrigado. Sabemos da dificuldade em nos pormos no lugar do outro e perseguirmos não só a sensatez como a tolerância. Talvez com a busca do rigor e da informação. Sabemos também que a "popularidade" imediata está mais próxima do radicalismo. Por isso, aconselho tanto a leitura de Amos Oz sobre o fanatismo.


De Paulo G. T. Prudêncio a 12 de Fevereiro de 2008 às 00:25
Ah, e um abraço ao anónimo, claro.


De Paulo G. a 12 de Fevereiro de 2008 às 12:05
Muito bem, mesmo.


De Paulo G. T. Prudêncio a 12 de Fevereiro de 2008 às 12:18
Obrigado por passares por aqui e por leres. Um abraço.


De José Luiz Sarmento a 12 de Fevereiro de 2008 às 17:51
A burocracia é uma arma de que nenhum governo se desfaz de bom grado. Programas como o Simplex não se destinam a reduzir a burocracia, mas sim as incidências da burocracia no quotidiano das pessoas. Programas como o cartão único, por exemplo, traduzem-se, não numa diminuição, mas num AUMENTO do controlo burocrático do Estado sobre os cidadãos.

A componente burocrática do trabalho nas escolas está a crescer há trinta anos, e antes de este governo chegar ao poder já era suficientemente pesada para tornar quase impossível o ensino. O que Maria de Lurdes Rodrigues fez, ao aumentá-la ainda mais, foi transpor o «quase». É esta a inovação da ministra: escolas onde não se pode ensinar.

Mas também não faz mal, porque o ensino não está propriamente nas prioridades deste governo. Desde que as estatísticas se possam mostrar e que os jovens cheguem ao mercado de trabalho suficientemente dóceis e portadores dalgumas capacidades básicas, tudo bem.


De Paulo G. T. Prudêncio a 12 de Fevereiro de 2008 às 18:47
Olá. "Programas como o Simplex não se destinam a reduzir a burocracia, mas sim as incidências da burocracia no quotidiano das pessoas": até posso estar de acordo. Não basta reduzir a burocracia: mas ajuda.
"Programas como o cartão único, por exemplo, traduzem-se, não numa diminuição, mas num AUMENTO do controlo burocrático do Estado sobre os cidadãos": isso dava para uma discussão muito interessante. Mas os tempos são esses.
O seu comentário é muito interessante. As outras questões mereciam ser discutidas. Obrigado pelo comentário. Abraço.


De Redes a 12 de Fevereiro de 2008 às 23:35
Em certo sentido, desejo mais e melhor burocracia. Necessitamos de boa burocracia para controlar a fuga ao fisco. O SIMPLEX torna as tarefas burocráticas mais produtivas. A burocracia não pode ser avaliada por si própria independentemente das políticas que ela concretiza. Para sermos mais claros, poderíamos falar em CUSTOS burocráticos e também, de certo modo em ilusão burocrática que resulta da impressão de que uma tarefa fica realizada, por se terem tomado certas medidas formais que o Paulo Prudêncio definiu muito bem como medidas de precaução. Por exemplo, quando preencho uma ficha com as decisões a tomar a respeito dum aluno que indicia retenção, a maior parte das vezes, estou apenas a cumprir uma formalidade burocrática, já que sei que não é por aquilo ser escrito que mudará alguma coisa: não vai haver mais apoio, o aluno não irá fazer nada mais do que já fez antes, eu não vou ter a possibilidade de lhe dispensar mais tempo e, nem ele nem o encarregado de educação o exigirá. Mas eu precavi-me ao fazer o registo!
Para um liberal e, também para um libertário, toda a burocracia do Estado qualquer que ela seja, é má. Os trotsquistas usaram durante muito tempo o termo "degenerescência burocrática" para salvarem a sua querida "revolução socialista". A União Soviética seria assim um estado socialista degenerado burocraticamente. O problema não era a burocracia, mas sim os interesses que ela servia (serve?). Na URSS, a burocracia do estado aumentou porque se apoderou de todos os outros sistemas burocráticos privados. E isso começou em 1917 com Lenine.


De Paulo G. T. Prudêncio a 13 de Fevereiro de 2008 às 00:01
Boa reflexão Luís. "A burocracia não pode ser avaliada por si própria independentemente das políticas que ela concretiza": de acordo. "definiu muito bem como medidas de precaução": 90%, ou outro número do género :) claro, da informação que os docentes debitam a pedido da organização escolar é por precaução. "Para um liberal e, também para um libertário, toda a burocracia do Estado qualquer que ela seja, é má": tem piada, que o José Luíz Sarmento diz, hoje, no blogue dele, que já não tem pachorra para os liberais. Gostava de o ler a propósito desta tua questão. Obrigado pelo comentário. Abraço.


De Miguel Pinto a 2 de Setembro de 2008 às 00:12
Gostei da reflexão, Paulo. O único comentário que me ocorre depois de seguir o teu olhar pela política educativa é o seguinte: como é insustentável prolongar indefinidamente normas inconsistentes, quanto tempo teremos de aguardar até que essas normas toquem a moralidade?


De paulo guilherme trilho prudêncio a 19 de Setembro de 2008 às 13:23
Obrigado Miguel. Nem sei que te diga: haverá uma ilha aqui e outra acolá, mas o despertar geral está a levar o seu tempo; afinal, é uma aprendizagem: e isso, nem é linear nem a sempre a crescer; por vezes, como agora se tem acentuado, é feita de um retrocesso evidente. Parece-me uma mistura de incompetência com prepotência: desculpa a redundância: sei que as duas coisas são irmãs gémeas. Abraço.


De Ferreira a 31 de Outubro de 2008 às 13:36
Olá, meu caro. Estou de volta. E comento.
De um modo geral, concordo com a reflexão que apresenta. Tem bastante coerência e clareza de pensamento. Porém, discordo em DUAS das nuances da sua “tese”.
Primeiro: Discordo quanto defende a necessidade de criar MAIS UMA estrutura associativa para defender o que tantos outros dizem fazer ou pretender fazer... Dividir ainda mais a classe profissional será o verdadeiro resultado, para além de dar protagonismo (algum, pelo menos!), a quem dirigir essa nova estrutrura. Nao tenhamos nenuma ilusão. Será mais uma estrutura para ser, tal como as existentes, criticada pela classe docente. Não esperem outra coisa. É isso que mais fazemos: destruir os nossos pares. Tal não se vê em nenhuma outra classe que se organiza em torno de uma ORDEM. Duvidam? Por que eperamos? Sei, porém, o quanto é difícil a este grupo profissional chegar a acordo e unir-se em torno de um projecto comum: a Ordem de Professores. Faço parte e já pertenci aos Órgãos de Direcção de uma Associação que luta desde há cerca de 20 anos pela criação de uma ORDEM de professores. Sei que é difícil, se não mesmo utópico pois que os Governos (de qualquer partido!) querem sempre ter uma palavra decisiva na administração da política educativa. E faz falta algo que entretenha o país e a educação é um terreno propício para isso. Além do mais, os governantes gostam de poder libertar as culpas da sua incompetência e precisam de bodes expoiatórios para a falta de rumo que dão ao barco da educação. E, se este não for motivo suficiente, interessa dirigir a educação pelo número de BOYS que podem nomear. A começar pelas DRE’s, CAE’s até às DLE’s, tudo havia que reduzir ao imperativo: ELIMINE-SE... EXTINGA-SE...
Provar isto é que há uma década, um governo, por sinal também SOCIALISTA, veio com esta TRETA da AUTONOMIA, entendida então como uma construção a que João Barroso e outros deram nome, corpo e alma... para enganar todos os docentes. Depois de tido a sorte de trabalhar desde 1994 a 1996 num Gabinete Ministerial (incrível, pois nem partido tenho...!) e de conhecer o sistema por dentro, desde 1998 8altura em que exercia funçoes num CAE da DREN, que venho alertando para esta pseudo-autonomia (leia-se texto em http://ferreirablog.blogs.sapo.pt/1847.html) e deste processo em que embarcaram imensos professores como embarcaram outrora milhares de judeus (o caminho da liberdade, entravam nas câmaras de gaz).
Já na altura previa que este era um processo de transferênca de poderes para políticos ou nomeados politicamente. Já faltou mais. Esperem e vamos ter uma autêntica organizaçao semelhante à dos regedores, ou treitores ou o que quer que seja. Com uma diferença: é democrática. Se votaste neles para governar, votaste para tudo! Logo, por que nao nomearem os governantes os seus correligionários como Directores?


De paulo guilherme trilho prudêncio a 31 de Outubro de 2008 às 21:40
Olá.

Muito obrigado pelas suas palavras. Este texto pode até ser intemporal, mas as duas questões que levanta são datadas. Nunca referi a necessidade de mais uma organização. Apenas disse o seguinte: "Esperam os seus promotores...a constituição de uma associação sócio-profissional, ou de algo com um cariz semelhante, interessada em fazer ouvir-se no domínio do estatuto da carreira docente e nos aspectos referentes à avaliação do desempenho." Só isso. Nasceu a APEDE que se esbroará logo que estes problemas estejam resolvidos. E a sua legalização teve um único objectivo: poder estar presente na formalidade. Mas eu nem sou da direcção nem nada que se pareça: estive lá porque foi a única que se realizou na cidade onde vivo. E respeito muito os colegas que se meteram naquilo. Ainda outro aspecto: este texto foi publicado na imprensa escrita local e tinha de ter uma introdução que se relacionasse com as Caldas da Rainha.

Não é avisado perceber os tempos actuais. Só daqui por uns anos se poderá tirar conclusões. mas na nova rede não há servidores. Todos o somos. Penso assim e o meu agir é LIVRE e nesse sentido. O que escrevo só a mim me compromete.

Sobre as vagas aconteceu o mesmo. É datado. Tenho muitas mais entradas sobre o assunto. Gosto de desconstruir para construir. Se se dizia que não havia dinheiro e que se tinha de estabelecer vagas então que se estabeleçam. Entende? Não o conseguiriam fazer e se o estabelecessem que deixassem aos departamento a decisão de quem muda. É radical e muito perigoso, eu sei. Mas pensei muito e não encontrei solução melhor. O que é que propõe?

Não considero a autonomia uma treta. Bem pelo contrário. Dirigi uma escola durante alguns anos e tenho outra opinião. É necessária mais autonomia ainda e uma maior exigência de responsabilidade.

Mas isso levava-nos muito longe.

Estou um pouco cansado, nesta altura, de escrever sobre estes assuntos. Mas a sua atenção, cordialidade e pertinência obrigou-me a escrever tanto. E continuo aqui para o debate.

Abraço e obrigado.


De Ferreira a 31 de Outubro de 2008 às 13:37
Olá, meu caro. (Cont.)
Segundo: Discordo totalmente quando afirma "que se deixe às escolas e, no caso da avaliação do desempenho, aos departamentos curriculares, a responsabilidade de avaliar os seus professores, de acordo com as orientações do conselho científico." E que "Cada uma das escolas deve organizar-se de modo a decidir as progressões na carreira de acordo com as vagas estabelecidas".
E discordo porque todos sabemos, e muito bem, o ter FOLANO ou BELTRANO no nome, sempre foi e será condição para ser "EXCEPCIONAL" ainda que outros profissionais sejam bem melhores... E já nem falo do facto de ser ou não do partido do governo, do clube de futebol do avaliador, das tainas com este, dos cabritos que entrarão de novo como CUNHA... A porta fica aberta à discricionaridade do avaliador... Os demais nem imaginam o que se passa na sala de aula... Só o avaliador viu e pode muito bem registar o que lhe dá na TELHA... Ou será que me querem convencer do contrário?
E não me venham com tretas de objectividade. No modelo actual, já ouvi dizer da boca de um dos professores titulares (e também sou, infelizmente!) nomeados pelo departamento (ou pelo CE) uma afirmação (sobre uma nova professora que acabara de chegar ao agrupamento) que retrata tudo: "Ah! Essa tem perfil... É filha do Advogado "TAL"... sabiam?
Professores a avaliar professores sem formação para tal...? Quem vai ser avaliador? Como serão escolhidos os avaliadores? O professor eleito entre os demais? Que avaliará o resultado das avaliação dos avaliadores? Ou será que há “intocáveis” que nunca erram...? Voltamos ao tempo dos regedores? Dos modelos exemplares de conduta?

E com que critérios se vai avaliar os professores? Pelos resultados dos alunos? Concorda que os alunos sejam considerados como tijolos? (leia-se post http://ferreirablog.blogs.sapo.pt/2536.html)
Obrigado por ter tido a paciências de ler este comentário... Voltarei pois considero mesmo interessante este seu blog


De paulo guilherme trilho prudêncio a 31 de Outubro de 2008 às 21:47
Muito obrigado.

Cá o espero com todo o gosto e tb passarei pelo seu espaço.

Claro que já lhe falei nesse tema das vagas.

Mas tenho mais entradas no blogue depois disso.

"Um ponto e milhares de situações" em

http://correntes.blogs.sapo.pt/148667.html

"E no princípio de tudo" em

http://correntes.blogs.sapo.pt/151012.html

tem referências sobre o assunto.

Estou a gostar do debate consigo. Muito obrigado.

Espero por mais comentários.

Abraço.


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