Em busca do pensamento livre.
Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010

 

 

Orgulho-me de ser professor em Portugal. Faço parte de uma geração que participou na massificação do ensino. Exigiu esforço, mas foi por uma boa causa. Muito está por fazer, naturalmente. A Educação é um exercício sem fim.

 

É fundamental o dia em que se recebe os alunos e os seus encarregados de Educação (EDE). Hoje foi um dia desses. É o primeiro contacto com a escola. Um dia de festa e de bem receber. Todos os cuidados são colocados e o respeito por quem chega é a palavra de ordem.

 

Hoje, em Santo Onofre, aconteceu o contrário de tudo isso. Nunca tinha vivido uma coisa assim, muito menos naquela escola. Sou franco: senti vergonha e um embaraço inédito. Recebia, às 10h30, os alunos e os EDE da minha direcção de turma na sala 25. Estranhei o excessivo número de automóveis estacionados na zona envolvente. Quando entrei na escola encontrei uma funcionária de cabeça perdida e que me disse: um caos professor; estão cá os anos quase todos e as salas estão baralhadas. Verifiquei o número da sala e mantinha-se a 25.

 

Fui buscar o livro de ponto, eram 10h25, e dirigi-me à sala de aula. Estava ocupada por outra turma. O ambiente era de confusão generalizada. Protestos sobre protestos. Em cima da mesa da funcionária do bloco estava um papel com a programação que indicava a sala 25, mas com um 32 entre parêntesis. Disse aos EDE que tínhamos de ir para outro piso.

 

Foi-me valendo que quase todos me conheciam. Abri a porta da sala 32 e estava também ocupada com outra turma. A minha colega que orientava a reunião abanou a cabeça com um sentimento de saturação. Diriji-me à mesa da funcionária do bloco e em frente do rascunho 32 estava desta vez um premonitório 31. Vamos para lá. Porta fechada à chave. Para a abrir tive de voltar à sala de professores onde está um chaveiro. Pedi às pessoas para esperarem mais um pouco. A incredulidade estava instalada nos EDE. Alguns pediram desculpa, mas tiveram de se de ir embora para voltarem ao trabalho.

 

Fui buscar a chave e cruzei-me com situações semelhantes; uma comédia feita tragédia. Voltei à sala 31 para reunir com menos de metade dos EDE. Uma das pessoas estava particularmente em pânico: chegava de uma escola inglesa e a sua filha era a mais nova da turma. A aluna estava a chorar. Durante a reunião as interrupções foram constantes e valeu a boa disposição de uns quantos.


Fiz a reunião e prometi uma outra oportunamente. Trouxe comigo para os ajudar, e com a compreensão dos restantes, o EDE recém-chegado e a aluna. O percurso até à saída foi surreal: uma aluna mais velha veio dizer-me que a papelaria tinha mudada de sítio, mas que a placa indicativa não e que no novo espaço só havia mesas e cadeiras por arrumar e nenhuma informação. Estava indignada. Queria comprar as senhas de almoço para segunda-feira e não sabia como fazer. Apareceu-me depois uma outra com um horário para fotocopiar. Disse-me que na porta indicada pela placa da reprografia estava colado um papel manuscrito com "educação especial". Queixou-se que o site da escola não tinha os horários e que raramente funciona.

 

Já não sabia que dizer. Pedi-lhes que se fossem embora, que na segunda-feira os ajudaria. O corredor da entrada estava cheio de gente a protestar e de funcionários indignados. Ainda passei pela sala de professores e o desânimo estava patente.

 

A situação de Santo Onofre é insustentável e não é novidade, claro. Desde membros dos diversos órgãos do agrupamento (até da própria direcção), passando por professores, funcionários e encarregados de educação, a constatação é repetida até à exaustão e sem qualquer inibição.



publicado por paulo prudêncio às 18:58 | link do post | comentar | partilhar

61 comentários:
De anónimo a 10 de Setembro de 2010 às 19:52
Passei pelo mesmo. INACREDITÁVEL!!!!


De Mena a 10 de Setembro de 2010 às 20:43
Olá!
Aconteceu-me o mesmo!
Alguns Enc. de Ed. acabaram por se ir embora indignadíssimos, porque passei mais de meia-hora à procura de uma sala. Disse-lhes que se fossem queixar à direcção, mas creio que não o fizeram! Tive de esperar que alguma reunião terminasse para fazer a minha que deveria ter começado às 11. Andei de um lado para o outro à procura de uma sala, à espera que alguém terminasse. Os funcionários não sabiam o quer fazer, andavam com um papel à procura e a rectificar as salas, uma dizia "Eu nunca vi uma coisa assim, professora." Eu encolhi os ombros e respondi que também nunca tinha visto e que se me contassem, não acreditaria. Por fim, encontrei uma sala, fui chamar os Enc. de Ed. e tive a notícia que mais uns tantos se tinham ido embora, porque "isto é uma falta de respeito pelas pessoas"...
Pedi desculpa, embora não tivesse culpa nenhuma e os pais disseram "a Direcção é que devia vir-nos pedir desculpa e à professora, isto é inadmissível! Que falta de respeito!"
Lá fiz a reunião, mas ainda me custa acreditar no que aconteceu...
Que saudades do teu tempo, Paulo!
Bj e um bom ano se for possível!


De reb a 10 de Setembro de 2010 às 21:00
Inacreditável!!

Imagino o que sentirão os professores desta escola...


Será que o ME e DRE se estão nas tintas para o caos que criaram???

Nem sei que diga. Apenas comungo da vossa indignação!

Um forte abraço para os resistentes de Sto. Onofre!


De Mena a 10 de Setembro de 2010 às 21:11
Sinto vergonha! Nunca pensei dizer isto, mas é o que sinto! Tenho vontade de chorar! O que me move são os alunos, nada mais!


De Resistente a 10 de Setembro de 2010 às 21:30
Que ganda barbaridade. Na comunidade não se fala noutra coisa e disseram-me que o C.G.T. também envergonha quem lá vai. Não se compreende como esta gente não tem um pingo de vergonha e não se vai embora.


De Valdemar Brito a 10 de Setembro de 2010 às 21:33
É o país que temos. Apressaram-se a demitir o conselho executivo e mantêm essa incompetência que já apresentou a demissão mais do que uma vez.


De Nuno Marques a 10 de Setembro de 2010 às 21:52
Carissimo amigo Paulo, digame que isto é mentira por favor! digame que essa escola que em outros tempos foi conciderada a 2º melhor do pais, que era um exemplo de organização e de funcionamento, não esta agora nessa situação surreal, é triste. muito triste ver assim acasa onde estudei, onde aprendi e me formei não só como aluno mas como pessoa, assim, um caos, não é justo , e ainda sentimento pior,é ver os profissionais dessa casa completamente perdidos, desamparados, sem saber o que fazer ou dizer, é triste ver pessoas que tanto respeito e admiro darem a cara e por esta situação, porem em causa a sua credibilidade e profissionalismo (que apenas para quem conhece bem são inabalaveis) Sintome profundamente triste, acho que se tivesse sido eu a entrar por aquela porta e visse todo esse senário me tinha escorrido uma lágrima, é muito doloroso ver aquela que foi durante 15 anos a minha "casa" e que ainda hoje a sinto um pouco como porto de abrigo, assim, doi muito mesmo


De Santo Onofre a 10 de Setembro de 2010 às 21:52
Sou professora, graças a Deus que não sou Directora de Turma este ano... Sou Encarregada de Educação, graças a Deus que não fui à reunião este ano... Segunda-feira, começo a dar aulas de manhã, só espero ter força para aguentar mais um ano...


De maria fernanda a 10 de Setembro de 2010 às 22:11
Mas afinal a que se deve essa confusão? Má orientação da direcção ou da equipa responsável pela organização da recepção aos alunos?


De Professor revoltado a 10 de Setembro de 2010 às 22:37
Aos dois aspectos que são tarefas da direcção que não dirige nada. Estão ali para tempo de serviço ou para colocação. Aquela direcção não funciona. Quem os meteu lá não vê?


De Sto Onofre a 10 de Setembro de 2010 às 22:52
Minha senhora...quem manda é o Director... tudo passa pelo DIRECTOR... então minha senhora será que preciso de responder à sua pergunta?


De anónimo a 10 de Setembro de 2010 às 22:56
Para informação não houve uma equipa responsável pela recepção aos alunos e aos EDE.


De anónimo a 10 de Setembro de 2010 às 23:42

Para ser ainda mais concreto: este caos é da inteira responsabilidade da "equipa de gestão", se é que se pode dar esse nome a um grupo de pessoas que se juntou com objectivos pessoais obscuros (ou nem tanto), os quais se encontram nos antípodas do bom funcionamento e sucesso desta comunidade educativa.

E nem sequer é de espantar. Quem conhece a situação, sabe que esta é uma equipa que "conseguiu gerir" durante um ano lectivo inteiro sem ter procedido à elaboração do Regulamento Interno do Agrupamento, sem plano Anual de Actividades, sem Projecto Educativo (mantém-se até hoje em vigor o do Conselho Executivo eleito e posteriormente destituído, para dar lugar a estas "competências" inenarráveis).

Que mais se podia esperar?

E onde se encontram agora os senhores dirigentes da Associação de Pais - e tantos outros membros do CGT - que tanto e de "tantas formas" diligenciaram para que esta equipa gerisse o agrupamento??

Estão tão caladinhos...! Será para ver se passam despercebidos?


De Susana Queiroz a 10 de Setembro de 2010 às 23:51
Esses, os do CGT, andam corados de vergonha. Não votaram nesta dor de cabeça para o vosso Agrupamento? A lei diz que o podem pôr na rua. Se o indivíduo tivesse ainda o mínimo de decência demitia-se...


De resistente a 10 de Setembro de 2010 às 22:40

Tanta incompetência....
E a violência nos horários do 1º ciclo?!?!E o projecto no 1º ciclo na EBI de Santo Onofre que tinha 15 anos?!? A filosofia foi: se o resto do agrupamento não tem o projecto então a sede também não pode ter......é isto que se chama PENSAR EM AGRUPAMENTO...........e lá vamos nós nivelar por baixo.........




De anónimo a 10 de Setembro de 2010 às 23:06
Não consigo entender: com protestos feitos, com reuniões onde se debateu esta situação das AECs em horário lectivo, como vindo prejudicar o aproveitamento escolar (há, 2.º sei, até um documento escrito pelos docentes onde apresentaram argumentos válidos para que assim não continuasse), porquê aplicar o mesmo método noutros estabelecimentos?


De Onofrino a 10 de Setembro de 2010 às 23:21

Caro anónimo,

Vê-se que não sabe do que fala. O projecto do 1º Ciclo em Sto Onofre não tem nada a ver com AECs. Muito pelo contrário. Este projecto funciona COM SUCESSO RECONHECIDO nesta escola há 15 ANOS!


De anónimo a 10 de Setembro de 2010 às 23:34
Tem toda a razão. O meu comentário não foi suficientemente claro, mas a questão é a seguinte: o projecto, ao que parece, causava dor de cotovelo a quem não o tinha e como acabar com o projecto, só por si não era suficiente...


De Sandra a 10 de Setembro de 2010 às 23:14
Tal como tu, e muitos outros, senti vergonha... muita vergonha! Até quando este desnorte?...
Beijos
Sandra


De Julio a 11 de Setembro de 2010 às 00:47
Que saudades tenho de ser uma mais valia pertencer a Sto. Onofre. Era uma excelente apresentação.
E actualmente?


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