Em busca do pensamento livre.
Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017

 

 

(1ª edição em 10 de Maio de 2010) 

 

Talvez tenha sido premonitório, talvez. São dezena e meia de alunos e só um vive com a mãe e com o pai. Nos últimos anos é muito assim: vê-se que os miúdos sofrem com isso, mas não é condição que se manifeste definitivamente trágica.

 

Chegam do intervalo quase sempre em polvorosa. A média de idades ronda os onze anos, a perturbação emocional de uns quantos é acentuada e a conflitualidade é latente.

 

No dia do U a informação era decisiva: o intervalo foi ainda mais caótico do que o esperado; merecia um início de aula raro e com resguardo cívico. Os bancos suecos formam a habitual linha recta, mas nesse aula a escolha caiu no tal U.

 

E de repente nem houve espaço para o caso em apreço: alguém se justificou, com as lágrimas a jorrarem face abaixo, com a descrição de uma cena caseira violenta na noite anterior. O testemunho cativou uma surpreendente e imparável onda de partilhas. A atmosfera era de uma brutal tranquilidade: não se atropelava a outra comunicação, o ruído era inexistente, a comoção sossegava as almas e os relatos absorviam uma adulta vivência emocional. Que fazer? Os quarenta e cinco minutos protocolados para a aula voaram e a catarse parecia envolta numa penumbra iniciática. Tínhamos meia-hora de intervalo pela frente e aqueles pequenos corpos não podiam regressar à selva sem qualquer analgésico. Mas que grande embaraço.

 

O U ficou de mãos dadas em junção com o único que usou a cadeira. Foi um recurso inopinado. Uma corrente em busca de uma qualquer transcendência. Para tudo há sempre uma primeira vez, diz-se. Uma força colectiva ajudou a que se enchesse de energia o discurso de circunstância. As lágrimas esconderam-se como se dissessem: até outro dia.

 

 

 



publicado por paulo prudêncio às 14:41 | link do post | comentar | partilhar

76 comentários:
De anónimo a 27 de Abril de 2010 às 18:26
Só tu!!!


De Susana Queiroz a 27 de Abril de 2010 às 18:48
Lindo! Lindo! Lindo! Obrigada. Muito comovente.


De Francisco a 27 de Abril de 2010 às 20:50
Chocante. Não consigo mais do que imaginar.


De pronuncia do norte a 27 de Abril de 2010 às 21:42
Muito muito lindo!


De Valdemar Brito a 27 de Abril de 2010 às 21:46
Soberbo, simplesmente soberbo.


De lunar a 27 de Abril de 2010 às 21:49

Ser professor é...tb isto. Comovente.


De Fausto Viegas a 27 de Abril de 2010 às 21:49
Brilhante, carago. Rara sensibilidade a tua, meu amigo.


De reb a 27 de Abril de 2010 às 21:55
Sem palavras.

Os sentimentos são silenciosos...


Aquele abraço.
reb


De Isabel a 27 de Abril de 2010 às 22:02
Comovente, Paulo.
Bjo


De Rodrigo Robustinho a 27 de Abril de 2010 às 22:11
Sem palavras. Texto enorme


De Filomena Branco a 27 de Abril de 2010 às 22:32
Excelente texto, Paulo! Esta é, infelizmente, a realidade com que, diariamente, nos confrontamos nas nossas escolas.


De Chic'Ana a 10 de Fevereiro de 2017 às 08:25
Infelizmente é a realidade do dia a dia.
Beijinhos


De paulo prudêncio a 10 de Fevereiro de 2017 às 10:20
Um abraço também.


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