Em busca do pensamento livre.
Domingo, 5 de Fevereiro de 2017

 

 

 

Partindo da lógica Hegeliana e da inerente concepção dialéctica da categoria "contradição", em que o desenvolvimento se faz pelo reconhecimento e ultrapassagem dos diversos conflitos, Hubert Hannoun construiu um conjunto de teses no âmbito das correntes pedagógicas que me ajudaram a nortear o ensino por volta da década de oitenta numa fase em que a proliferação de propostas atingia um auge significativo.

 

Afinal, Hubert Hannoun, considerado um pedagogo marxista e arrumado por muitos na gaveta dos ultrapassados, apenas propôs o óbvio: ao mestre competia escolher a grande maioria dos conteúdos, seleccionar os objectivos e assumir a responsabilidade pelo ensino e pela avaliação dos alunos; nada de dramático, portanto. Mas para chegar aí, Hubert Hannoun desmontou e arrumou em grupos as teses conhecidas.

 

Considerando o vasto elenco dos conflitos da Educação, o autor centrou os seus estudos na relação contraditória professor versus aluno (CPA) estabelecendo "os conteúdos de ensino" como elemento mediador da relação.

 

Pegou na história e considerou três grupos de teses:

  • um que negou a contradição CPA - a tese da harmonia - com o lugar cimeiro atribuído ao psicoterapeuta Carl Rogers e às suas relações empáticas (as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas, mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas);
  • e outros dois grupos, que aceitaram a existência da CPA - as teses do desequilíbrio - mas que sobrevalorizaram à partida um dos elementos do conflito: as do magistercentrismo (professor rei, digamos assim), com expoentes como Alain, Dewey e Durkheim, e as do pedocentrismo (aluno rei, digamos assim), com expoentes como Freinet, Montessori e Summerhill.

Hubert Hannoun propôs a tese da ultrapassagem com os conteúdos de ensino como intermediadores do conflito. Só se ensina o que se sabe e a garantia dessa autoridade é o oxigénio da democracia: no presente e no futuro e tanto ontem como hoje.

 

Parece-me que este é o debate que mais importa fazer em Portugal. Num tempo sobreaquecido e de crise das instituições (da escola também), o lugar da hierarquia de soluções é de novo imperativo; é curial encontrar o fio condutor de que falava Confúncio:

 

- Pensas que sou um homem culto e instruído?

- Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é?

- De modo nenhum - disse Confúcio.

- Simplesmente descubro o fio da meada.

Sima Quian, "Confúcio")

 

 

 

 

"Os conflitos da educação" de Hubert Hannoun, foi traduzido por Maria Antónia Morais Miranda e publicado em 1980 pela Socicultur na colecção Biblioteca de Pedagogia.

 

 

 

(1ª edição em 12 de Outubro de 2009. Reescrito.)



publicado por paulo prudêncio às 11:05 | link do post | comentar | partilhar

52 comentários:
De lunar a 6 de Outubro de 2009 às 19:48

Muito interessante.


De Francisco a 6 de Outubro de 2009 às 20:20
Subscrevo.


De pronúncia do norte a 6 de Outubro de 2009 às 20:30
Sim, é um facto que os conflitos são eternos na Educação. Não sendo assim não era educação.


De Um professor resistente a 6 de Outubro de 2009 às 21:03
Lapidar.


De Helena Soares a 7 de Outubro de 2009 às 10:14
Em Pedagogia o "equilíbrio", a não dicotomia, a consciência de que não há verdades absolutas, a reflexão sobre a diversidade antes da tomada de decisão.... ingredientes fundamentais ao sucesso do aluno/professor.
Quem é que educa um filho a ler diariamente um capítulo de um livro e a colocar essas ideias na prática no dia seguinte?


De João Luís de Almeida Machado a 7 de Outubro de 2009 às 15:42
Parabéns pelo trabalho. Sou Editor do Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br), onde temos colunas sobre o tema e também responsável pelos blogs Escolhendo a Pílula Vermelha (www.escolhendoapilulavermelha.com.br) e Cinema de Primeira (www.cinemadeprimeira.com.br) convido-os a conhecer estes trabalhos para trocarmos idéias e trabalharmos juntos por uma educação e um país melhor! Até mais! Prof. João Luís


De "Olhando do Oriente" a 24 de Janeiro de 2010 às 14:57
Lembraste-me as nossas conversas de final de dia de aulas, entre o pavilhão e o polivalente...
Admiro a tua coragem... e paciência para continuares a lutar.
Bem hajas.
Um abração.
Agostinho


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 18:51

Viva.

Jamais

para os dois.


De Francisco Santos a 24 de Janeiro de 2010 às 15:32
Olá Paulo,
este pode ser "o outro" fio da meada: «as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas»
Mexer na relação professor/aluno, sem tocar na organização tradicional da escola é capaz de ser um trabalho de Hércules :)


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 18:51
Viva.

Claro que sim. Mas quem disse que o belo não é difícil? Platão não foi

Isso vai?


De maria a 24 de Janeiro de 2010 às 16:12

É neste caminhar que se faz o ensino e a aprendizagem: saber, não saber, novo saber. Isto é ser professor, aquele que procura incessantemente o significado dos conteúdos que lecciona, e o sentido de si mesmo.


De José Luiz Sarmento a 24 de Janeiro de 2010 às 16:56
Cada vez mais me parece que o conflito na Educação, pesem embora as suas especificidades, não é mais que uma frente de batalha num conflito cultural em que estão em causa as definições que queremos dar, enquanto sociedade globalizada, a conceitos como economia, política, trabalho, cultura, cidadania, justiça, liberdade, etc.

É claro que cada um luta na sua frente de combate, e não na no vizinho; mas é bom que tenhamos consciência do contexto..

Por mim, apercebi-me há muito tempo da existência deste conflito, mas só agora começo a vislumbrar com alguma nitidez os seus contornos. Para isto contribuiu muito o livro que mais recentemente mencionei no meu blogue, porque me mostrou a espantosa semelhança entre o "eduquês" e o jargão dos gurus da "Nova Economia".

Talvez tenha sido isto que mudou a minha atitude ao ouvir justificar certos modelos propostos para as escolas com o argumento que nas empresas também é assim. A minha atitude anterior era defensiva, e consistia em tentar convencer o meu interlocutor que as escolas são diferentes das empresas. Hoje, à medida que me vou apercebendo que o mundo das empresas está longe de ser o modelo de racionalidade que querem fazer dele, tendo cada vez mais a pôr em causa porque é que mesmo nas empresas "tem que ser assim".


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 18:53

Viva JL Sarmento.

Absolutamente de acordo. Estou mesmo em crer que é por aí que vamos também.



De Redes a 25 de Janeiro de 2010 às 10:55
Admiro o rigor e a clareza: «tendo cada vez mais a pôr em causa porque é que mesmo nas empresas "tem que ser assim"».
Acho que é um caminho para pensarmos o dever ser da educação. As empresas não vão mudar, a não ser que percam no mercado por serem assim.
A crítica da racionalidade económica liberal começou com Marx, especialmente com O Capital. Mesmo assim, a ideia de que os serviços de Estado têm que se pôr de acordo com os critérios do mercado era estranha ao século XIX. No que respeito à educação, é interessante ler as páginas de O Capital onde Marx analisa e critica o serviço escolar das empresas onde trabalhavam crianças, que era uma imposição do Estado.
O paradigma que se tenta impor actualmente de considerar os alunos como clientes e a escola como prestadora de serviços limita a autoridade da instituição e esquece os contornos ideológicos da sua missão que eu gostaria de ver criticados, explicitados e assumidos.
Esclarecido este problema, que por si só não é fácil, colocar-se-á sempre a questão de como controlar os custos e a qualidade dos serviços prestados pela escola.


De Valdemar Brito. a 24 de Janeiro de 2010 às 17:11
É primeira vez neste blogue, li de enfiada os primeiros vinte, excelente mesmo, voltarei.


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 18:53
Obrigado.


De outrofrancisco a 24 de Janeiro de 2010 às 18:42

Uma criança não pode participar da escolha de objectivos, ou pode? Sejamos claros e não digamos que os discursos (contraditórios) valem o mesmo. O professor é, e será sempre (?), e tendo em conta "a tese da ultrapassagem", o mediador através dos conteúdos. O fio da meada sairá deverá ser descoberto por aí...


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 18:55
Viva Francisco.

Percebo bem quem discorda da pela autoridade do professor e até partilho a pertinência, naturalmente. Todavia, a questão está na ideia que fez com que se generalizasse esse "desacordo"; e isso foi tão trágico como a generalização da pedagogia rogeriana na fábrica-escola. O gradualismo e a adequação são princípios fundamentais.



De Vasco Tomás a 24 de Janeiro de 2010 às 20:28
Belo e oportuno texto a propósito deste autor, que desconhecia.
Do que dele vi na Internet, concluí que o conflito (ex.s: inovação pedagógica vs. resistência à inovação; ensino ao serviço da rentabilidade vs. ensino ao serviço da formação integral; poder do professor vs. poder dos alunos, etc) é inerente a toda a situação educativa, e, neste sentido, "intemporal", como afirmas no título.
Contudo, parece-me discutível o papel atribuível aos conteúdos enquanto mediadores da instância conflitual.
Hannoun considera que o acto educativo é "uma aposta sobre o futuro", não sendo "nem hipótese verificável" nem "busca do melhor interesse", mas uma prescrição voluntarista de "uma concepção-produção de um ser que me pertence fazer nascer." (cf. Hubert Hannoun, Eduquer, c'est faire un pari sur l'avenir).
Deste centralidade do professor, resulta o facto de que deve ser a partir dela que se contrói a função da mediação do conflito, e não da reificação dos próprios conteúdos

-


De paulo prudêncio a 24 de Janeiro de 2010 às 21:15
Viva Vasco.

Obrigado.

Nos "conflitos da educação", a proposta de Hannoun é a tese da ultrapassagem (literal) no sentido da intertransformação na relação conflitual professor-aluno através da mediação dos conteúdos de ensino. Sem desequilíbrios, portanto, mas também sem a negação da contradição como na empatia rogeriana. Parece-me bastante sensato e intemporal.

É da escola francesa e também nega o conceito de alteridade proveniente da revolução francesa - o outro como igual - para evoluir para a ideia de desigual como se discute tanto hoje.

Polémicas muito interessantes.




De Es.Col. a 25 de Abril de 2012 às 23:53
Activistas do movimento Es.Col.A reocuparam a Escola da Fontinha, no Porto, cerca das 17h45 desta quarta-feira. Sem qualquer oposição das forças policiais, que até escoltaram os manifestantes.


De Es.Col. a 25 de Abril de 2012 às 23:54
Activistas do movimento Es.Col.A reocuparam a Escola da Fontinha, no Porto, cerca das 17h45 desta quarta-feira. Sem qualquer oposição das forças policiais, que até escoltaram os manifestantes.


De Es.Col. a 25 de Abril de 2012 às 23:56
Desculpe a repetição.


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