Tinha a intenção de escrever um texto sobre a actualidade blogosférica, e a sua relação com a defesa da escola pública, que me exigia algum tempo de pesquisa, e isso não me está a apetecer, para que as opiniões não fossem injustas.
Há, contudo, uma evidência: os blogues de professores desempenharam um papel fundamental na defesa da escola pública na nossa história recente e impediram que o que existe se tornasse ainda mais nefasto. Essa causa, ou denominador comum, foi aglutinadora e fez emergir um série de blogues e de movimentos que se afirmavam com veemência e férrea determinação.
O tempo passado nas redes sociais associado a inúmeras reuniões, manifestações nos sítios mais variados e presenças constantes nos órgãos de comunicação social deve ter feito mossa (sei bem o que foi isso tudo). O que se constata é que com a substituição da rosa-offshore pela laranja-rapazola-mais-táxi-limousine houve um série de personalidades que desapareceram ou mudaram a 180 graus, apesar das circunstâncias objectivas na defesa da dita causa estarem numa situação semelhante. É natural que em muitos casos exista cansaço, mas é também legítima a crítica que enuncia que a causa era mais de carácter partidário.
Por outro lado, não deixa de ser curiosa, e algo cómica, a posição dos adeptos da rosa-pálida-em-qualquer-circunstância. É vê-los a ameaçar com a rua, integrados em movimentos de cidadãos ou a apelar à revolta dos indignados. Tudo acções que "desconheciam" e desvalorizavam há menos de um ano. E é engraçado que têm uma característica comum aos que entretanto se retiraram e que não se afirmaram pelo exercício corajoso da exposição pela escrita e pelas ideias: são apontadores de dedo aos bloggers e dá ideia que esperam por uma próxima vaga para voltarem-a-defender-o-que-agora-condenam.
É também esta uma das causas para explicarmos a quem nos visita o estado a que chegou a nossa democracia.
Tenho tido pouco tempo para a rede e soube-me bem passar pelo blogue do Ricardo Montes e ler este post. Sem sequer pensar numa troca de galhardetes, considero o Professores Lusos um dos blogues que presta um enorme serviço público, com relevância para os professores (nomeadamente para os contratados), e que tem uma linha editorial que não oscila quando o poder muda da rosa pálida e, às vezes, pouco séria para o laranja rapazola acompanhado do táxi limousine.
Estou a pensar escrever um texto para relacionar o estado dos blogues de professores com os desenvolvimentos políticos dos últimos anos e espero concretizar a ideia mais logo.
A traquitana do MEC, imbuída do discurso anti-escolas e anti-professores, sempre dificultou a vida das escolas e está comprovado. Em regra, acrescentou-se uma dose de governantes "reformistas" aos dois atavismos residentes: o eduquês e a má burocracia.
A partir de 2006 a febre subiu uns graus impensáveis e promete continuar. A terraplenagem da organização escolar é a constante do algoritmo e uma escola que se preze tem apenas uma solução: já ter estudado e aprovado os planos A, B, C, D e E para o que aí vem, desde a rede escolar e do novo modelo de gestão escolar à nova estrutura curricular.
Até a comunicação social mais atenta percebe o devaneio que vai muito para além da crise financeira e que se deve considerar como um bom exemplo das causas que nos empurraram para o estado em que estamos.
"Muitas decisões têm de ser tomadas nos próximos dias. Até ao fim de Junho, as escolas e os agrupamentos têm de indicar à Direcção-Geral da Administração Escolar a lista dos professores que não vão ter turmas atribuídas no próximo ano lectivo. Em finais deste mês precisam também de saber como vão organizar as aulas práticas e teóricas nas disciplinas de Ciências. E ainda antes de Maio chegar ao fim é preciso decidir igualmente os manuais escolares a adoptar. São rotinas que os estabelecimentos de ensino começam a pôr em prática agora, mas nenhuma escola pode tomar decisões ou fazer previsões enquanto não conhecer as mudanças do próximo ano lectivo.
Esperar que o Ministério da Educação anuncie o plano final de reorganização da rede escolar, aguardar o despacho que define o novo currículo e ainda a legislação que define o novo modelo de gestão escolar é tudo o que as direcções escolares podem fazer por enquanto. “Esperemos que no fim desta semana todas estas questões estejam resolvidas”, diz Manuel Esperança, presidente do Conselho de Escolas, admitindo no entanto que a demora na conclusão do processo de fusão de escolas se deva ao facto de a tutela estar ainda a “procurar consensos” entre as escolas e as autarquias.(...)"
Importamos dois terços do peixe que consumimos, somos o terceiro país do mundo no seu consumo e não nos devemos admirar com o estado das nossas finanças.
Vivemos de costas para o mar, temos uma relação difícil com a gestão do território e das organizações, mas preparamos mais um passo que combina as duas variáveis: lançamos ao mar as nossas escolas com a criação de escalas organizativas que não combinam com nenhum dos mais de quarenta quadros de divisão administrativa (o que seria razoável e moderno era que existisse um).
Os professores estão anestesiados. Na maioria dos casos convencem-se que será apenas uma mudança de chefias. Lá mais para a frente, no início no próximo ano lectivo, começaremos a ver o resultado de tanta água.
Observa-se vulgarmente a convicção de que as conhecidas plataformas de comunicação e informação disponibilizadas pelo interessante open source podem realizar a gestão de dados da escola-organização. É um logro em que cai quem tem algum domínio de software, mas parcos conhecimentos de gestão escolar. Os resultados tornam-se desastrosos quando a função de liderança da organização é ocupada por quem não conhece qualquer das vertentes.
As plataformas de comunicação e informação são razoáveis instrumentos para a divulgação da informação e para a circulação de ficheiros informáticos. Mas reúnem componentes quase nulas na característica decisiva de um sistema de informação: a velocidade de pesquisa em todo o universo de dados e a consequente qualidade do conhecimento. O mundo pesquisável e o cruzamento de dados constituem, a par da simplicidade operativa requerida por quem toma decisões, as referências a perseguir.
(Usei parte deste texto num post de 7 de Janeiro de 2011)
Quem imaginaria que o mesmo país que há 38 anos era uma curiosidade turística porque mostrava uma revolução em curso, tem, nesta altura, de inscrever como ponto um da sua agenda de políticas educativas as faltas dos seus alunos na escolaridade obrigatória e os consequentes, e chocantes, números do abandono escolar.
Já nem me refiro ao facto dos seus serviços centralizados (que assumem um inacreditável discurso anti-escola e anti-professores) não terem conseguido desenvolver um sistema de informação que apure números rigorosos e em tempo real. O que mais entristece, é que se explicarmos isto a um professor de uma sociedade desenvolvida encontraremos um ser que nos interrogará: "mas quem é o responsável pelas faltas dos alunos? A família? A comunidade local? E faltam injustificadamente? Os miúdos?". Se o interrogado fosse do MEC diria o que se sabe e os restantes seriam taxativos: é preciso reformar as escolas.
E o miúdo, dos seus 10 anos, tirou o terço e rezou enquanto a professora distribuía a prova de aferição de Língua Portuguesa, do 4º ano, realizada, numa escola portuguesa, no dia 9 de Maio de 2012.
A frase de Christopher Hitchens (2009:251), em "Deus não é grande, como a religião envenena tudo", da Dom Quixote, "(...)O princípio essencial do totalitarismo é fazer leis às quais é impossível obedecer (...)" proporciona uma interressante discussão.
Em 25 de Outubro de 2009, aqui, escrevi o seguinte:
Mas com a velocidade com que se legisla, e nisso o quase "extinto" ME foi imbatível, e com a consequente falta de qualidade das leis é natural que os destinatários do direito se interroguem com a sua vigência. Faz tempo que o direito tem vindo a abandonar a visão positivista do primado absoluto da lei para integrar uma concepção mais moderna que se pode designar por um "ir e vir constante entre a norma e o caso".
Neste sentido, as fontes que socorrem a capacidade de decisão dos juízes continuam as ser as normas, mas também a jurisprudência e a jurisprudência dogmática (ou doutrina). Ou seja, para além das normas deve considerar-se cada caso em si e também a ciência jurídica produzida pelos jurisconsultos.
Lançados alguns argumentos para o contraditório, importa sublinhar que os totalitarismos não se estabelecem sem a "vontade" da maioria das pessoas. É trágico, mas é assim. Embora a história nos mostre com frequência o aparecimento de um "profeta", também nos explica que as sociedades vão criando um caldo propício às ditaduras, venham elas donde vierem. Desde logo, e pegando na frase de Christopher Hitchens, pela construção de leis impossíveis de obedecer e por práticas anti-democráticas ou corruptas (para os dois últimos casos, nem são precisos exemplos).
No caso vigente do sistema escolar, podemos pegar no monstro da avaliação dos professores ou no desastroso modelo de gestão escolar, passando pelo estatuto do aluno. São casos de impossibilidade que criaram um estado de sítio legislativo. Só o fingimento permite o "cumprimento" legal ou abrem portas aos oportunismos mais variados. Não podemos acusar de premeditação totalitarista os seus inventores, mas temos de considerar todas as hipóteses e dizer-lhes que não nos temos cansado de avisar.
(1ª edição em 27 de Janeiro de 2012)
Não acredito em cidadãos imaculados nem em organizações imunes aos "pecados" da natureza humana e, por isso, defendo a democracia e o estado de direito. Também não sou dado a teorias da conspiração. Lembro-me sempre de Karl Popper quando leio os que se esquecem que a irrefutabilidade só nos aproxima do totalitarismo.
A linguagem bem-pensante e sedutora fez do eduquês uma via para o totalitarismo e algo parecido levou o sindicalês para o mesmo sítio. Os sindicatos foram seduzidos para uma espécie de participação governativa para adquirirem a alforria da responsabilidade. Deixaram para lugar secundário a força da razão e passaram a nortear a presença na mesa de negociação pelo imediato, pelos corredores do poder, pela promiscuidade partidária e pela dança das cadeiras.
Esta constatação nem se fundamenta apenas no que se assistiu nos últimos anos na Educação. Cada uma faz da vida o que quer, mas tem de ter bem presente que as agendas sindicais não podem ser plasmadas das governativas, que a força da razão não se impõe de imediato e que é com o exemplo que se constrói a democracia.
(1ª edição em 8 de Abril de 2011)
O fosso que separa a nossa população jovem das formas tradicionais de fazer política é gigantesco e pode implodir o status quo a qualquer momento.
Casos, opiniões, natura e uso
Fazem que nos pareça esta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Camões (Citado por Eduardo Lourenço em
"O labirinto da saudade", 1972, p.17)
A saudade é uma inscrição portuguesa e tem todas as condições para se intrometer na actualidade. Os portugueses já não conseguem ver em frente sem a nostalgia a empurrar-lhes o olhar para o passado. É interessante nomear que, dois anos depois do célebre país da tanga, em 2004, a convocação mediática da auto-estima era moda e terapia obrigatória. Seria ainda mais interessante, ouvir o que têm a dizer agora os assinantes dos receituários.
O país está deprimido. Vive-se a delapidação a cada passo. Não há nação que se levante sem um sistema escolar vivo de esperança. Se a depressão é um fenómeno geral, as escolas reflectem um sentimento duplicado: à pré-bancarrota acrescentam a devastação dos últimos anos.
Se os efeitos educativos são quase sempre a longo prazo, intuo que os resultados da desgastante luta de muitos professores portugueses também o serão. Talvez só no final desta década se sentirão os efeitos. Contudo, importa fazer um esforço de memória e pensar como seria o momento se os professores titulares ainda existissem, se o monstro burocrático da avaliação ainda nutrisse tanta simpatia desconhecedora, se o modelo de gestão escolar não estivesse descredibilizado e se o estatuto do aluno não tivesse os alicerces em desconstrução acelerada para benefício da condição dos discentes.
(Já usei parte deste texto noutro post.)
Sucedem-se os governos de "rapazolas" e já nem os banqueiros acham piada a determinadas coisas? A propósito de outro assunto: se a mais elementar sensatez obriga à colocação no lugar do outro, seria boa ideia começarmos a pensar que quem afirma que o desemprego é uma oportunidade está em boa posição para o testar.
O que vai ler é inadmissível e demonstra o grau de incompetência da traquitana do MEC. É Kafka no seu melhor.
Acabei agora de ver na RTP2 (pode ver dois temas no vídeo que encontrei) o emocionante concerto para três pianos dos grandes Bernardo Sasseti, Mário Laginha e Pedro Burmester. Faz hoje uma semana que vi, em Valado de Frades, mais um inesquecível trio de jazz: Alexandre Frazão (bateria e não é por acaso que tocou com Sasseti e Laginha), Bernardo Moreira (contra-baixo) e Mário Laginha (piano). Tocaram temas, que encontra no youtube, da homenagem a Chopin e do álbum Espaço. É um dia muito triste para o jazz e imagino o ambiente no concerto do dia em Valado de Frades onde não pude estar e com muita pena.
Há algumas reflexões fundamentais nestes tempos de globalização que devem ser consideradas pelas formas de governo nas mais diversas escalas. Há dias escrevi este post sobre a cultura de agrupamento a propósito do actual modelo de gestão escolar e lembrei-me de acrescentar a seguinte leitura:
"(...)Governar é permitir a coordenação temporal entre uma multidão de sujeitos, sistemas, sociedades e culturas que vivem num tempo plural. Do ponto de vista civilizatório tratar-se-ia, como propôs Mireille Delmas-Marty (2006), de ordenar o múltiplo sem o reduzir ao idêntico, de reconhecer o pluralismo sem renunciar ao direito comum, de unificar sem impor a fusão, de não entender a modernização das sociedades com base no nosso próprio modelo, de promover a unificação sem a entender como sinónimo de ocidentalização.(...)"
*Daniel Innerarity (2011:110).
"O futuro e os seus inimigos".
Lisboa: Teorema.
(1ª edição em 9 de Abril de 2011)
O concerto do trio Alexandre Frazão (bateria), Carlos Barreto (contrabaixo) e Bernardo Sassetti (piano) foi soberbo e abriu, ontem, da melhor forma o JazzValado2011.
Há muitas possibilidades instrumentais para trios de jazz, mas a combinação escolhida é das que mais gosto de ouvir. Os temas faziam parte de um repertório que se iniciou em 1996.
É um trio que não se deve perder. Se me pusesse a eleger os melhores músicos para aqueles instrumentos, qualquer dos três seria uma das primeiras escolhas. O público esteve electrizante e em simbiose com os músicos. Tenho ideia que os encores se prolongaram por cerca de uma hora e isso diz tudo.
Pode ouvir o tema vagabundo.
A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes sobre o assunto, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar, com segurança, que o grupo de alunos é decisivo para os famigerados indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar de um país.
A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar das segundas serem igualmente decisivas. Num país como Portugal que, mesmo depois de quase quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadíssimas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.
Há, naturalmente, um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é natural, intergeracional e um factor constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que levou anos a construir.
A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados e não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.
A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino pois os professores são humanos e, é bom que se sublinhe, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.
A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é a miscigenação em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.
Em Portugal regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores nos últimos seis a sete anos. O curto prazo teve resultados desastrosos. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar segue o mesmo caminho apesar de menos mediatizado.
José Adelino Maltez, no seu facebook, escreve um parágrafo que me parece importante para a democracia portuguesa:
"Se o PS conseguir ser pós-socrático e até pós-soarista, talvez o PSD possa ser pós-cavaquista e pós-barrosista. Isto é, se ambos renunciarem à dependência face ao egoísmo dos monopólios das companhias majestáticas, com as suas rendas feudais e os seus escritórios agenciadores, e se deixarem de proteccionismos face a empresas de regime, com os sucessivos emplastros partidocráticos e autárquicos."
Lembro-me dum tempo, e não foi há muito, em que era impensável que quem fosse exercer um cargo público afirmasse que era honesto ou que não mentia. Para o exercício de cargos, e nas campanhas que os antecediam, davam-se por adquiridos esses requisitos mínimos. No tempo que estamos a viver, parece que a situação se inverteu e vamos assistindo a coisas de arrepiar.

É um desenho do Quino que encontrei no facebook da Helena Bastos.
"Eu não minto, não engano, nem ludribio os portugueses"
Não sou dado a teorias da conspiração e até acredito que o ministro das finanças diz com convicção o que pode ler na notícia que linkei. Não me perece que, quando afirma que não mente, esteja a lançar uma indirecta ao primeiro-ministro que mentiu, sem qualquer atenuante, na campanha eleitoral sobre os subsídios dos funcionários públicos e noutras coisas do género.
Volta e meia fala-se no regresso do político ao decisório da nossa democracia. Concordo. Nesta altura é o que está em causa e nem sequer se coloca a questão de mentir mais ou menos. Se até os reputados economistas confessam o falhanço das ciências económicas, discutir os efeitos das políticas de austeridade é uma questão ideológica e, portanto, uma questão política e ponto final. E acreditar mais em António Borges do que em Joseph Stiglitz já não é apenas um questão de fé, mas também de tábua rasa nas provas dadas e noutras coisas mais.
Em Portugal existe outra variável, quiçá a mais importante. Alguém autorizado afirmou que se tivéssemos o mesmo índice de corrupção que a Dinamarca (o pessoal adora o benchmarking) vivíamos tão bem ou melhor do que eles. Também concordo e nem me interessa como vivem na Dinamarca. O que sei é que no meu país se vão sucedendo os governos eleitos em democracia e que a corrupção não pára de aumentar e de nos espremer.
"A fé cega de Vítor Gaspar em que a receita neoliberal que aprendeu nos livros (mais empobrecimento dos pobres e mais enriquecimento dos ricos) resolverá, se o Deus Mercado quiser, todos os problemas do país é de tipo mágico e não de tipo racional, a versão em economista do mito infantil segundo o qual, se acreditarmos muito numa coisa, ela acabará por realizar-se.
Da História, tal tipo de fé aproveita apenas aquilo que a reforça, ignorando tudo o que a contraria: se funcionou no Chile de Pinochet, porque não há-de funcionar em Portugal?; ou: "Portugal não é a Grécia". E o mesmo da realidade: ainda há dias, uma descida episódica dos juros da dívida pública era um "sinal" de que vamos no bom caminho, agora que os juros voltaram a subir, isso já não é sinal de coisa nenhuma.
O método até pode, sabe-se lá, vir a dar certo. Pelo menos deu certo com aquele personagem de Carl Sandburg que comprou o 42 na Lotaria, anunciando que era nesse número que iria sair a "taluda" e que, quando o 42 de facto saiu, perguntado se acertara por palpite ou se usara um método, respondeu algo do género: "Usei um método científico: atirei ao ar o álbum de família e ele caiu aberto na página 7, onde estavam as fotos do meu avô e da minha avó. O meu avô e a minha avó ambos na página 7, estão a ver? Ora 7 vezes 7 são 42...""
Nuno Crato diz que abandono do superior é idêntico a anos anteriores
Se fosse há um ano atrás, o que diria Nuno Crato? Nem sequer estou interessado em comparar os números. É grave como era grave no ano passado. Já não bastavam as medidas que vão aumentar o insucesso e o abandono escolares no não superior a par do continuidade da privatização de lucros, para termos agora uma espécie de processo de negação em relação a este assunto.
O truque é não nos enganarmos a nós próprios
acerca de certas coisas: pequenas ilhas rochosas no mar
das próprias desilusões. Agarrá-las e não se afogar
é o máximo que um ser humano pode alcançar.
Elias Canetti
Os resultados destes quase quarenta anos de democracia em Portugal são o que são - por muito que nos custe, temos de reconhecer que há coisas muito boas, coisas muito más e outras razoáveis - e os que têm exercido funções nos órgãos de soberania devem ser comedidos uma vez que não podem encolher os ombros com a tragédia da corrupção perpetrada aos olhos do Estado. No mínimo, não se devem pôr em bicos de pés. É a tal questão da prestação de contas.
Não escreverei nada de especial se manifestar respeito pelo pensamento político de Mário Soares e pela sua coragem. Também leio, vezes sem conta, que alguns dos que lhe estão, ou estavam, mais próximos têm, naturalmente, ligações ao preocupante financiamento partidário e a outras coisas do género.
Para além disso, estamos numa fase de democracia suspensa em que todos os cuidados são requeridos. O sistema escolar português, e nomeadamente a gestão das escolas públicas do ensino não superior, é um exemplo. Tem-se feito tábua rasa da lei de bases do sistema educativo e desde há uns sete a oito anos que para interromper mandatos nas escolas basta que um governante tenha uma epifania contabilística ou acorde mal disposto.
Na entrevista de Mário Soares hoje ao Ionline registei a sua invejável energia e o seu optimismo. Observei algumas contradições que podem explicar a condescendência, de origem clubista - neste caso, a troca do inenarrável, mas eleito, Berlusconi por Monti e ainda recentemente o apoio ao Socratismo -, que levou a que as democracias europeias estejam no estado que conhecemos. A distinção entre tecnocratas e tecnocratas esclarecidos deixou-me perplexo. Mário Soares, e após a vitória de Hollande, diz que a Europa está a mudar.
"(...)E veja-se o que se está a passar em Itália, onde já não governa Silvio Berlusconi, mas Mario Monti, que é um tecnocrata, mas um tecnocrata esclarecido.(...)Em certos países já está em crise. É preciso ter cuidado com isso. Sem democracia não há Europa. Acho que há uma transformação em curso e a vitória de Hollande dá um grande impulso a essa transformação.(...)"
E não deixa de ser surpreendente que preveja o que quase todos pagaríamos para assistir.
"A troika pode, ela própria, implodir?"Claro que sim. A troika entrou aqui como se Portugal fosse um protectorado. Mas não é! Isso foi um erro terrível. O primeiro-ministro, com a sua mentalidade neoliberal, disse que era preciso ir além da troika, e isso não faz nenhum sentido, no meu entender. E cada vez faz menos, à medida que a receita se vai desfazendo.(...)"
Cada vez me convenço mais que a questão chave da democracia portuguesa é a corrupção. Todos os dias lemos coisas como o "Governo socialista liderado por José Sócrates autorizou o pagamento de 38,4 milhões de euros relativos à construção da linha de alta velocidade ferroviária Poceirão-Caia, no último dia de mandato" e ficamos com a sensação que é uma prática antiga e que se repetirá. E podíamos ficar o dia todo a dar exemplos parecidos e que envolvem saques de milhares de milhões de euros.
Volta e meia, o parlamento é convocado para ajudar a resolver o problema. Qual será o destino do desafio que é referido na notícia?
Laborinho Lúcio desafia Parlamento a criar estratégia de combate à corrupção
"O ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio desafiou a Assembleia da República a produzir uma estratégia efectiva de combate à corrupção, ultrapassando os “princípios e manifestações de boa vontade” que já emanou.(...)"
Não é justo que a Escola Básica de Santo Onofre, e o actual agrupamento de escolas por arrastamento, veja a sua imagem, e a dos seus alunos e profissionais, constantemente ridicularizada na comunidade educativa.
Uma boa parte dos profissionais que elevaram a história daquela instituição a uma referência em diversos domínios são os mesmos. O que mudou foi uma pouco estudada alteração na rede escolar, uma impensada entrada em agrupamento e principalmente as ocorrências derivadas do novo modelo de gestão escolar. Como se sabe, no modelo vigente são suficientes menos de uma dezena de profissionais (e nem necessitam de pertencer à escola sede) e outros tantos stakeholders para ocuparem os lugares de chefia e escolherem os caminhos a percorrer.
Disseram-me que o Conselho Geral do agrupamento votou de forma amplamente maioritária a entrada imediata em mega-agrupamento com a ideia de destituir rapidamente os órgãos em exercício e exibir uma espécie de cartão vermelho à direcção. Belisquei-me. Apesar de tudo, senti vergonha. Ninguém gosta de ver a instituição onde tem dedicado uma boa parte da vida profissional tratada desta forma.
Afinal, e em plena Assembleia Municipal, o vereador respectivo, e também membro do Conselho Geral, confirmou mais essa singularidade (pode ler aqui a notícia completa da Gazeta das Caldas) que atinge de forma acentuada a imagem da instituição (os bolds são do jornal):
"(...)“O que nos foi transmitido era que o processo tinha que estar concluído até ao final do ano lectivo de 2012/2013 e que iriam ser consultados os respectivos agrupamentos”, disse, acrescentando que se as partes interessadas estiverem de acordo, não será o município a ir contra essa decisão. Tinta Ferreira sabe também que o Conselho Geral de Santo Onofre aprovou por maioria a vontade de agregar-se com a escola Raul Proença e “quando mais depressa melhor”. Já a escola Raul Proença deverá reunir-se entretanto para se pronunciar.(...)"
Entretanto, o Conselho Geral da Escola Secundária "Raul Proença não se opõe a juntar-se ao Agrupamento de Escolas de Santo Onofre "e, ao que tudo indica, o mega-agrupamento será uma realidade e sem a oposição dos respectivos Conselhos Gerais.
Como alguém escreveu noutro dia num comentário, o agrupamento de Santo Onofre foi conduzido, desde 2009, por meia dúzia de pessoas. O processo começou com uma CAP e os resultados objectivos (avaliação de alunos, frequência escolar e por aí fora) e os de alguma forma subjectivos (atmosfera relacional, liderança, cultura organizacional) têm vindo a piorar significativamente.
Ainda há uns meses, e num exercício que abala a melhor imagem mesmo que construída numa história de mais de uma década, o director em funções desde Novembro de 2009, ex-coordenador da CAP, declarou para justificar a sua demissão aceite em 4 de Julho de 2011:
"...)Em primeiro lugar, o facto de o início do ano escolar que agora termina ter sido “muito conturbado” e ter corrido “muito, muito mal”. Acreditando que “com o tempo se verá depois melhor porque é que as coisas aconteceram assim”, (...)considera que “a culpa não pode morrer solteira, e independentemente de qualquer outra razão, a culpa é minha, como director”. Além disso, a avaliação externa que a IGE fez em Fevereiro de 2011, não teve os resultados que seriam esperados. “(...)E tem que ser o director a dar a cara”, afirma. (...)Ao fim de um ano e pouco de trabalho, dá a impressão que estaria a carregar nessa pessoa tudo o que correu mal no agrupamento”, garante.(...)"
É, portanto, com um legítimo sentimento de injustiça que os profissionais destas escolas olham o presente e o futuro. Os números de frequência de alunos estão a atingir mínimos muito preocupantes. Se considerarmos que a Escola sede já teve mais alunos do que todo o agrupamento na actualidade, não será difícil perceber os motivos de tanta apreensão. Parafraseando o tal coordenador da CAP que foi eleito director e que se demitiu, “com o tempo se verá depois melhor porque é que as coisas aconteceram assim,(...)a culpa não pode morrer solteira(...)".
Sem mudar a lei orgânica do MEC e o quadro de divisão administrativa do país e principalmente sem revogar o decreto-lei da gestão escolar, como é que é possível mega-agrupar escolas desta forma?
Se o problema é o montante financeiro para os subsídios remuneratórios dos dirigentes escolares (que, para aliciar pessoas para o modelo do decreto-lei 75/2008, subiram acentuadamente em plena crise e em campanha eleitoral), que se regresse ao tempo anterior a 2009.
Muitos professores governaram escolas, com parcos orçamentos e sem desvios financeiros, durante as décadas da massificação, e da democratização, da escolaridade obrigatória e recebiam suplementos remuneratórios simbólicos. O que não é aceitável é sacrificar a organização escolar deste modo. Aliás, se regressássemos à situação anterior a 2009 teríamos muitas surpresas em relação ao tal amor à camisola.
Lemos coisas destas e nem queremos acreditar que numa democracia haja quem queira chefiar na base da retaliação, da chantagem e do prémio que não premeia. Este modo de considerar os "subordinados" pessoas sem inteligência ou sentido crítico tem um efeito boomerang, nunca melhora o desempenho profissional e cria grupos de privilegiados que se prestam, para sobreviverem, à bajulação que abandonarão na primeira oportunidade. Há outros modos de gerir pessoas, que raio: democratas e eficazes.
Há modismos que têm contribuído de forma decisiva para os mais nefastos atavismos do nosso sistema escolar: a má burocracia e a inundação de procedimentos inúteis. Em regra, as ideias e os instrumentos que se generalizam no universo organizacional têm como ponto de partida a má didáctica que é utilizada por quem tem de fazer gestão escolar nos diversos patamares, mas que nada sabe de sistemas de informação. E depois é como no ensino: só se ensina o que se sabe.
Os modismos mais recentes, duas a três décadas, têm nome (e podia ficar a tarde toda a elencar): interdisclinaridade, projecto curricular (e com uma série interminável de apêndices), projecto educativo (sem sociedade e com visão e missão), comunidade educativa (sem sociedade), articulação (em diversos planos) e cultura de agrupamento.
Apesar do legislador estar afastado do terreno, nota-se que aprendeu alguma coisa com os fracos resultados verificados nos agrupamentos de escolas em pouco mais de uma década. Pelo menos a semântica evoluiu no sentido de eliminar a impensada ideia de cultura de agrupamento (há quem diga que este modismo foi herdado das multinacionais tayloristas), substituindo-a por agregação ou unidade administrativa.
É que as nossas escolas, algumas com décadas, têm história. Dirigem-se a grupos de alunos de idades muito diferentes, têm percursos escolares diferenciados e caminhos organizacionais elaborados ao longo de anos de trabalho árduo. Uma agregação ou unidade administrativa deve respeitar a autonomia pedagógica das diversas escolas e não terraplenar a história de cada uma delas.
Numa Europa bloqueada pelo austeritarismo e dominada pelas forças que "regulam" os mercados, a vitória de Hollande em França é um sinal de esperança. Para além dos vencedores, importa sublinhar que a inclinada Merkel fica sem o sufixo Ozy e que a direita europeia parece começar a perder o domínio, com os desastrosos resultados que se conhecem, que partilhou com o blairismo-e-esquerdas-afins, com o cinzentismo-barrosista (mas em jeito de metamorfose aparecerá hoje como mais um vencedor) e com as políticas de Bush.
E como será daqui a uns 4 anos? Encontrei declarações de pessoas que estão, inegavelmente, bem familiarizadas com o processo.
Em 2004, era assim:
Em 2012, é assim:
(da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão)
Teria uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava, como quase sempre, um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - espécie de áreas de serviço que eram, em regra, propriedade de comerciantes portugueses (os conhecidos metrôpoles) imbuídos do pior espírito colonial e que, talvez por isso, foram as primeiras vítimas da ira do povo moçambicano - e deparámos com uma dezena de homens, em tronco nu, de pele negra e bem suada e à volta de uma mesa que tinha uma bazuca - uma cerveja de litro e meio - no centro. Enquanto esperavam por uma qualquer refeição, o filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava pão para os homens e repetia em tom jocoso: "hoje é dia de festa".
O meu pai esteve em silêncio e à saída disse-me qualquer coisa assim: "serão os primeiros a sofrer no dia da revolução". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia e as áreas de serviço arderam, e em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.
As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) e invadem os grandes espaços de gatas para afagarem a fome. É certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações.
Basta estarmos com atenção ao que nos rodeia para certificarmos a institucionalização do laxismo cívico, da pequena corrupção, do deixa-me-estar-sem-fazer-ondas-a-ver-se-m
Depois é só aumentar a escala, desenhar o país e sorrir com o leque de posições através desse caso Pingo Doce em que pobres combateram com pobres, literal, e ainda há pensadores que se refugiam nas filas de trapos ou de gadgets tecnológicos para um safanço sociológico da nação. Somos assim: nas manifestações, nas greves, nas tomadas de posição, na afirmação da cidadania e na veneração à corrupção e aos instintos totalitários. Estamos sempre preparados para apontar o dedo a quem protesta e para duvidar dias-sem-fim dos corruptos encartados que, e normalmente, até são absolvidos pelo voto.
O que é que podia ser ainda pior?
Justiça vulnerável à corrupção
Portugal "chumbou" num estudo sobre combate à corrupção. Há falta de vontade política, excesso de tolerância e incompetência. "Portugal é vulnerável à corrupção" e entre aquilo que a lei determina como formas de a combater e a prática das instituições "há uma enorme disfunção". Motivos? Há vários e nenhum deles abonatório para o país: incompetência, uma cultura cívica demasiado permissiva e, como cereja em cima do bolo, "uma enorme falta de vontade política".(...)"
Copie o seguinte código: "pv zk bschk pv zk pv bschk zk pv zk bschk pv zk pv bschk zk bschk pv bschk bschk pv kkkkkkkkkk bschk bschk bschk pv zk bschk pv zk pv bschk zk pv zk bschk pv zk pv bschk zk bschk pv bschk bschk pv kkkkkkkkkk bschk bschk bschk pv zk bschk pv zk pv bschk zk pv zk bschk pv zk pv bschk zk bschk pv bschk bschk pv kkkkkkkkkk bschk bschk bschk pv zk bschk pv zk pv bschk zk pv zk bschk pv zk pv bschk zk bschk pv bschk bschk pv kkkkkkkkkk bschk bschk bschk pv zk bschk pv zk pv bschk zk pv zk bschk pv zk pv bschk zk bschk pv bschk bschk pv kkkkkkkkkk bschk bschk bschk".
Clique no tradutor do Google, aqui, escolha, nas opções de tradução, de alemão, cole o código e clique no botão para ouvir.
O patrão do Pingo Doce, Soares de Santos, diz que não sabia da campanha de 1 de Maio de 2012. Nem sequer considero isso relevante, como nem me darei ao trabalho de imaginar o grau de maquiavelismo científico dos inventores da coisa. Estão a tratar dos negócios da empresa, julgam-se indolores e acima das desgraças humanas. A responsabilidade social das empresas devia exigir um respeito escrupuloso pelo primeiro de Maio, parece-me.
A história ensina-nos, e a experiência também, que quando os muros caem, e mesmo nas mais horríveis ditaduras como o nazismo, há milhares de bem intencionados que julgavam estar do lado da razão. A tábua rasa dos valores simbólicos onde se erguem as comunidades e as democracias é, como se tem visto, uma característica forte dos descomplexados competitivos. Nem a actual bancarrota do denominado ocidente os comove. Era bom que não considerassem os nossos avós desprovidos de humanidade por terem "alinhado", em plena Europa, nas inúmeras desgraças que provocaram milhões de mortes e massacres impensáveis.
Em jeito de humor e de teoria da conspiração, podíamos considerar como natural o desconhecimento da cúpula do Pingo Doce. Já não mandam nada e limitam-se a seguir as pisadas do Governo. Não é o Goldman Sachs - hoje um reputado investigador classifica-o como o Império do Mal - que domina as nossas privatizações através do não escrutinado António Borges? Não existiu há pouco um alarido de incompatibilidades, em que o Governo naturalmente capitulou, porque o mesmo senhor passou a fazer parte da empresa que controla o Pingo Doce?
Com uma sociedade ausente na Educação e com as escolas a serem utilizadas como "armazéns" de crianças, não se devem esperar outros resultados. E podíamos ficar aqui o dia todo a elencar as causas que obrigam à venda deste tipo de medicamentos, mas que também terão consequências nas taxas de natalidade e na subida do insucesso e abandono escolares.
Venda de medicamentos para concentração aumentaram 78% em cinco anos
"Ontem, um pediatra alertou para o facto de a ruptura de stock de um medicamento para a atenção poder empurrar crianças para o insucesso escolar e a reprovação. Vendas sugerem que há cada vez mais crianças e jovens medicados.(...)"
Apesar de continuar numa sala de que gosto menos, o célebre JazzValado continua imperdível e começa hoje. A simpática vila de Valado dos Frades continua a marcar o panorama do jazz nacional. A 15ª edição tem um excelente programa e não vou perder o trio da estreia.
Andamos há anos a dizer que em Portugal se escolhe as escolas e que a segregação social é a consequência mais evidente dessa possibilidade. Como as escolas têm limites de vagas, as famílias mais informadas e capazes de influenciar vão segregando socialmente, com ou sem intenção, os grupos de alunos. A organização do território faz o resto. Mas se for dito por alguém de fora, parece que tem outra credibilidade.
Se associarmos a "ausência" de sociedade na Educação às políticas em curso de gestão do sistema escolar, não nos devemos admirar com a subida das taxas de insucesso e abandono. E para além das taxas, subirão os indicadores subjectivos do insucesso e os níveis de cooperação e de mobilização dos profissionais das escolas.
Dá ideia que para se ser um português respeitado tem de se anunciar pensamentos em grande escala e dar asas ao fraseado. Foi assim com o Quinto Império, com os descobrimentos, com a colonização, com os fundos estruturais, expressa-se no presente com os agrupamentos de escolas e com tudo o que nos disserem que fica bem e que disfarça o empobrecimento.
Não interessa perceber o que é que está em causa em termos organizacionais. Aliás, parece que para os portugueses a organização não é um valor precioso e que, quando muito, só deve ser praticada no estrangeiro. Também não interessa se vamos dar apenas mais um passo rumo ao caos anunciado. O que conta é o faz de conta e a prosápia e nada é mais eloquente do que comparar a megalomania com a fusão de universidades ou mesmo de nações. As crianças crescerão e a tese do homúnculo (as crianças como adultos em miniatura) regressará em força. Começam a ser tantos os regressos, que já nada nos deve espantar.
Há dois argumentos que deviam ser bem pesados: a proximidade das relações e o modelo de gestão em curso. Com escalas da dimensão dos mega-agrupamentos, teria de se mudar o modelo para que em cada edifício existissem possibilidades relacionais. Isto é tão elementar que já custa repetir.
Ouvimos, vezes sem conta, que os bons sistemas políticos estimulam os mecanismos de cooperação e de mobilização. Mas mais: os ditos mecanismos são ainda mais cruciais nos momentos de crise ou de empobrecimento.
O desenho legislativo da gestão das nossas escolas contraria as evidências, mas os nossos pseudo-democratas eliminaram a sensatez e substituíram-na pelos preconceitos ideológicos. Devemos explicar-lhes em forma de desenho (como na imagem que escolhi), e em grande escala, para lhes despertar a atenção?
É como se fosse assim: os de Bruxelas, os não eleitos, nomeavam o presidente da República que, por sua vez, nomeava o Conselho de Estado que, por sua vez, nomeava o primeiro-ministro que, por sua vez, nomeava a maioria da assembleia e lhes apresentava três nomes de cada concelho para elegeram os presidentes de Câmara. E o povo? Bem, o povo elegia a minoria da assembleia e era nomeado para os deveres de cooperação e de mobilização.
Comemos muito e o exercício físico fica para os supermercados nos fins-de-semana e feriados onde se exibem os fatos de treino mais reluzentes. Pondo o humor de lado, não é o primeiro estudo que chega a este tipo de conclusões. Três em cada quatro crianças portuguesas serão obesas e três em cada quatro no planeta serão subnutridas?
Jovens portugueses com melhor alimentação e menos exercício físico
"Os adolescentes portugueses são os que mais tomam o pequeno-almoço, mais fruta consomem e menos fumam. Os indicadores mostram que praticam pouco exercício físico e apresentam mais excesso de peso, de acordo com um estudo publicado esta quarta-feira.
O estudo internacional da Organização Mundial da Saúde inclui vários indicadores dos jovens adolescentes relativos a lesões, saúde oral, violência, relação com família, bem-estar ou amigos.
A coordenadora do estudo em Portugal, Margarida Gaspar de Matos, disse que "na maior parte dos indicadores de saúde, estamos numa posição média" e que alguns indicadores se destacam pela positiva, outros pela negativa.
Realçados pela questão do pequeno-almoço e do consumo de fruta, os portugueses estão em lugares cimeiros, relativamente aos jovens dos outros países.
Margarida Gaspar de Matos acrescentou que a "prática de atividade física é das mais baixas" e que as raparigas de 15 anos se destacam porque "têm dos piores indicadores de todos os países".
Outra questão que aparece no estudo é o aumento do excesso de peso e Portugal está acima da média, principalmente as meninas mais novas, de 11 anos, que estão em segundo lugar, com 20 %, depois das norte-americanas, com 30%."
Cortesia do Sérgio Moreira.
Recebi o seguinte email do José Luiz Ferreira (o autor enviou-o para provedoria@jeronimo-martins.pt):
Ex.mos Senhores:
A Vossa escolha do dia 1 de Maio - data cujo valor simbólico Vossas Excelências não desconhecem - para a promoção que ontem teve lugar nas vossas lojas só pode ser lida como uma premeditada declaração de guerra ao mundo do trabalho.
Não me compete falar por esse mundo, mas parece-me que ele bem pode ficar grato a Vossas Excelências pela clareza demonstrada. É sempre bom, com efeito, saber quem é e onde está o inimigo.
Sem outro assunto, sou
Sem a menor consideração
José Luiz Ferreira
Não sei o grau de maquiavelismo científico dos inventores do caso Pingo Doce, mas concluo que puseram pobres contra pobres com uma cada vez mais reduzida classe média a teorizar sobre a coisa e a ver se escapa à maldição. Pobres que defendiam o direito ao feriado contra pobres que precisavam dos descontos para se alimentarem melhor. Chegámos, como já escrevi noutro post, a um estado de excepção em que tudo, mas mesmo tudo, pode acontecer e a qualquer momento.
É também uma época de desorientação e propícia a várias intifadas. Tenho o hábito de raciocinar por indução e desta vez não fujo à condição.
O sistema escolar tem sido um bom laboratório para perceber o estado da nossa sociedade. Quando o anterior Governo perpetrou um série de políticas comprovadamente totalitárias, o mainstream e o lumpen aplaudiram. É importante referir que nesse Governo estavam pessoas que vinham directamente dos sindicatos, tanto da CGTP como da UGT. Alguns eram mesmo sindicalistas radicais que se barricavam nos seus momentos coléricos e que se investiram como governantes déspotas. Para além disso, ou talvez por isso, esse Governo e esses sindicatos entenderam-se, em 2008, e acordaram, em 2010, medidas que institucionalizavam o que existia.
Um acentuado descrédito das forças sindicais foi o passo seguinte e só a manifestação de indignados de Março de 2011 originou, por temor do mainstream, a queda desse Governo. O que é que o futuro nos reserva é a incógnita do momento, mas devemos acreditar que cruzar os braços não é a solução. As implosões sociais, em regra, deixam muito poucos a salvo.
Uso um supermercado Pingo Doce. Reparei, na última sexta-feira, que os trabalhadores da empresa sugeriam que não se fizessem compras no dia do trabalhador. Surpreendi-me, porque pensei que não abriam nesse feriado.
Faziam-me falta, hoje, uns produtos, mas como me lembrei da sugestão dos trabalhadores fiz uma abstinência e, pelo menos até agora, sobrevivi.
Estou perplexo com o que se está a passar. A administração do Pingo Doce resolveu fazer uma promoção de 50% no 1 de Maio (para compras superiores a 100 euros), as filas de clientes são enormes e já há prateleiras vazias.
Sinceramente: estes comportamentos, nesta e noutras circunstâncias, são da mesma família dos que elegeram Adolf Hitler e explicam a dificuldade em combater a corrupção.
Até pode dar ideia que é um exagero fazer analogias destas, mas tenho a sensação que as sociedades que estão minadas pela pequena corrupção ou cunha acabam por venerar e premiar, mesmo pelo voto, a grande corrupção. Há mesmo quem diga que os eleitores no ambiente de salve-se quem puder elogiam a chico-espertice que consegue "enganar" as instituições democráticas.
Muitas filas e confusão à porta das Lojas Pingo Doce por causa da promoção
"Muitas lojas da cadeia Pingo Doce têm hoje grandes filas de clientes à porta, tudo por causa de uma promoção que o Grupo Jerónimo Martins decidiu levar a cabo e que dá descontos de 50 por cento para compras superiores a 100 euros.(...)"
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